O Planeta em 3D                             Veja 01/03/2000
Radar instalado em �nibus espacial faz o mais completo mapa da superf�cie terrestre

Quando o �nibus espacial Endeavour tocou o solo do Centro Espacial Kennedy, na noite de ter�a-feira passada, trazia uma carga preciosa do espa�o. Em seus computadores estavam arquivados dados suficientes para abastecer 20.600 CDs e desenhar o mais elaborado mapa da superf�cie terrestre jamais feito. Durante onze dias, a nave esquadrinhou com um potente radar mais de 119 milh�es de quil�metros quadrados, o equivalente a 75% da superf�cie terrestre do planeta. Praticamente toda a regi�o mapeada foi sobrevoada pelo menos duas vezes para que pudessem ser feitas reconstitui��es geogr�ficas espetaculares em tr�s dimens�es, com um grau de precis�o nunca atingido antes em imagens a�reas. Para se ter uma id�ia da fidelidade com que a superf�cie foi retratada, a margem de erro em representa��es topogr�ficas que hoje chega a 1 quil�metro, agora n�o deve passar de 30 metros.

A op��o de usar um radar em vez das tradicionais c�maras �pticas n�o foi tomada � toa. Al�m da colossal coleta de dados, equivalentes a 330.000 volumes da Enciclop�dia Brit�nica, o equipamento pode operar sem a ajuda da luz solar e n�o se deixa bloquear por nuvens ou pela cobertura vegetal. Para coloc�-lo em funcionamento, os engenheiros da Nasa, a ag�ncia espacial americana, instalaram um mastro com 60 metros de altura no compartimento de carga do �nibus espacial. Foi a primeira vez que uma estrutura r�gida t�o grande foi levada ao espa�o. A bordo do Endeavour, o radar rastreou a superf�cie terrestre viajando a uma velocidade m�dia de 7,5 quil�metros por segundo, a uma altitude de 233 quil�metros. "O resultado � simplesmente estonteante", diz Paul Dye, um dos coordenadores de v�o da miss�o.

 


Vulc�o Cotopaxi, no Equador, e montanhas da Pen�nsula
Kamchatka, na R�ssia: imagens coletadas a 233
quil�metros de altitude e banco de dados equivalente a
330 000 volumes  da Enciclop�dia Brit�nica 


Os t�cnicos da Nasa estimam que ser�o necess�rios pelo menos tr�s anos para que os dados coletados pelo radar se transformem em um atlas revisado da superf�cie terrestre. O Ex�rcito americano ser� o primeiro benefici�rio dos resultados da miss�o, que custou 600 milh�es de d�lares. Os novos mapas ser�o usados no treinamento de tropas e no planejamento de opera��es militares. Mas n�o � s� para o uso militar que a informa��o topogr�fica detalhada � importante. Esse tipo de dado permite estudar as mudan�as na superf�cie terrestre, pesquisar as causas de terremotos e at� mesmo monitorar erup��es vulc�nicas. Saber a altura e a localiza��o exata de picos de montanhas possibilita, por exemplo, que a ind�stria de celulares posicione suas torres de recep��o de sinal corretamente. E na avia��o, com a crescente demanda por novas rotas, os pilotos precisam de cada vez mais detalhes para o planejamento e a navega��o a�rea. Tamb�m vai suprir uma lacuna existente, pois diversos pontos do planeta nunca haviam sido completamente cartografados minuciosamente.

S�o montanhas, desertos e florestas de dif�cil acesso sobre os quais pouco se sabe. E mesmo nos locais que j� haviam sido mapeados isso foi feito de forma despadronizada, tornando invi�veis os estudos de abrang�ncia planet�ria. No rastreamento do Endeavour, a Nasa captou imagens como nunca se viu de lugares remotos, como a Pen�nsula Kamchatka, na R�ssia, e de �reas bem conhecidas, como a Ba�a de Paranagu� e o sert�o baiano. De uso imediato, est� o mapeamento mais preciso da Falha de San Andreas, a causadora dos terremotos na costa oeste americana. Todas imagens digitalizadas e com padr�o id�ntico de qualidade. Ao concluir a miss�o, que teve alguns imprevistos, como falhas em uma das turbinas da nave, os pesquisadores e t�cnicos ficaram encantados com os resultados, melhores que o previsto. O que o Endeavour trouxe do espa�o � um banco de dados que � um verdadeiro tesouro para a humanidade.
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