Parece uma Casa                              Veja 20/12/2000
Tecnologia e truques permitem � tripula��o da Esta��o Espacial viver a 400 quil�metros acima do planeta

Nos anos 60, as primeiras naves Mercury tinham 3 metros de comprimento e espa�o reduzido. Cabia apenas um homem, que podia mexer-se pouco. A bordo comiam-se p�lulas. Hoje, a esta��o orbital � dez vezes maior, tem aparelhos de gin�stica e a comida � levada da Terra pelo �nibus espacial













Os tr�s astronautas que desde o in�cio de novembro est�o morando na Esta��o Espacial Internacional dedicaram-se a uma atividade pouco convencional na semana passada � a faxina. O americano Bill Shepherd e os russos Yuri Gidzenko e Sergei Krikalev foram limpar o Unity, um m�dulo que estava fechado desde que foi lan�ado ao espa�o, em dezembro de 1998. Os astronautas n�o tinham entrado ainda no Unity porque n�o havia energia suficiente para ligar seus equipamentos de ilumina��o e ar condicionado. Desde o in�cio do m�s, a instala��o de um novo painel de energia solar de 17 toneladas permitiu a Shepherd, Gidzenko e Krikalev p�r para funcionar pela primeira vez todos os tr�s m�dulos que j� est�o no espa�o. Al�m do Unity, que ser� usado como conex�o de outros m�dulos no futuro, a esta��o conta com os russos Zarya � uma esp�cie de dep�sito � e Zvezda. � neste �ltimo que a tripula��o mora e trabalha, numa �rea de aproximadamente 50 metros quadrados. Um alojamento compacto, onde se dorme de p� (sem problema, porque n�o h� gravidade) e com um banheiro do tamanho de uma cabine telef�nica. N�o � um pal�cio, mas as instala��es da esta��o parecem um sonho se comparadas com as das naves tripuladas que no passado foram lan�adas ao espa�o.


Cama espacial: astronautas
dormem em p�, presos por
cintos de seguran�a


A vida na esta��o espacial poderia ser resumida a uma �nica palavra: racionamento. O espa�o � o estritamente necess�rio para viver mais de duas semanas fora da Terra com o m�nimo de privacidade. A comida � contada e a �gua, talvez o item mais precioso entre os suprimentos, � controlada gota a gota. A esta��o conta com uma m�quina para retirar a umidade do ar e com ela produzir �gua. At� o fim do ano que vem, um novo equipamento tratar� de reciclar todos os l�quidos existentes a bordo, da �gua usada para escovar os dentes � urina dos homens e dos ratinhos levados para experimentos cient�ficos no espa�o. "Setenta e dois ratos equivalem a um homem em termos de reposi��o de l�quidos e precisam ser levados em considera��o quando se trata de economizar �gua no espa�o", diz Layne Carter, especialista em reprocessamento de �gua da Nasa. Enquanto esse equipamento n�o funciona, o jeito � levar �gua terrestre mesmo. Os astronautas t�m direito a um banho di�rio, em que se lavam com uma bucha umedecida. Em vez de consumir os 50 litros gastos na Terra, usam menos de 4. A �gua para abastecer a esta��o tem chegado ao espa�o em bolsas com capacidade para 40 litros, embarcadas nos v�os peri�dicos do �nibus espacial e da nave russa Progress. Na semana passada, a Endeavour aproveitou para prover a tripula��o depois de levar os novos pain�is solares. Em janeiro ser� a vez de a Atlantis viajar com um novo m�dulo a ser instalado e mais um suprimento de �gua e comida. Cada uma dessas viagens custa estratosf�ricos 450 milh�es de d�lares.

Comparada � dos primeiros tempos das viagens espaciais, a vida a bordo da esta��o � bem razo�vel. No in�cio da d�cada de 60, os astronautas do projeto Mercury, os primeiros americanos a realizar os v�os orbitais, alimentavam-se de c�psulas. O espa�o na nave era ex�guo e s� cabia um homem espremido entre mostradores e bot�es. Hoje s�o consumidos pratos parecidos com os servidos nos avi�es, a l�guas de dist�ncia das p�lulas coloridas ou gororobas pastosas de que se alimentavam os pioneiros. A diferen�a � que, antes de subir para a esta��o, tudo � testado por um grupo especial de provadores. O objetivo � evitar emerg�ncias gastrointestinais, coisa que na esta��o ganharia propor��es catastr�ficas.





M�dulo de uni�o: saleta com seis
portas liga os compartimentos que,
juntos, formam a esta��o








A experi�ncia na esta��o russa Mir indica que a aus�ncia de gravidade provoca os males que mais afligem quem vive muito tempo no espa�o. Dentro dela, um astronauta russo cravou o recorde de catorze meses e seis dias vivendo fora do planeta. Quando chegou � Terra, estava t�o debilitado que parecia ter se submetido a um tratamento de quimioterapia. Na esta��o espacial foram tomados cuidados para reduzir esse risco, como a instala��o de uma miniacademia de gin�stica e a ado��o de um r�gido programa de condicionamento f�sico. H� cuidados tamb�m para que os astronautas mantenham a integridade psicol�gica. Muitos participantes do programa Mir ficavam deprimidos com o longo isolamento a que eram submetidos. Por isso, uma vez por semana os astronautas usam um videofone para entrar em contato com a fam�lia na Terra. S�o autorizados ainda a carregar alguns pertences pessoais em sua bagagem, como CDs, livros, jogos eletr�nicos e retratos dos filhos. No espa�o, recebem e-mails e participam de reuni�es de trabalho com os t�cnicos dos centros de controle na Terra. N�o s�o nem mesmo poupados das broncas dos chefes. Na semana retrasada, eles travaram uma r�spida discuss�o com o comando russo depois de receber uma advert�ncia por ter ligado equipamentos que n�o deviam.
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