| H� Algu�m L� Fora? Veja 21/04/1999 A chance de vida em outras regi�es do universo aumenta o fasc�nio da descoberta de novos planetas Trezentos anos antes de Cristo, na Gr�cia antiga, dois grandes fil�sofos se colocavam em campos opostos quando o assunto era a exist�ncia de outros mundos. Arist�teles argumentava que nosso planeta era �nico e, portanto, o centro do universo. Epicuro afirmava que o cosmo era infinito e capaz de conter uma quantidade ilimitada de mundos. A ci�ncia se encarregou de dar raz�o a Epicuro. Na semana passada, um grupo de astr�nomos dos Estados Unidos anunciou ter descoberto o primeiro sistema planet�rio numa regi�o do universo diferente da habitada pelo Sol e seus nove planetas. Situado na pr�pria Via L�ctea, ele � formado pela estrela Upsilon Andr�meda e tr�s planetas gigantescos. O primeiro deles � 238 vezes maior do que a Terra e rodopia como um pi�o enlouquecido ao redor de sua estrela. Sua �rbita � t�o pr�xima � fornalha de Upsilon Andr�meda que, nesse planeta, o ano equivale a apenas quatro dias terrestres. � o tempo que ele demora para dar uma volta completa em torno da estrela. Os outros dois t�m dimens�es colossais, muito maiores que as de todos os planetas do sistema solar juntos (veja ilustra��o acima). "Essa descoberta abre uma nova era na explora��o espacial", disse o astr�nomo Geoffrey Marcy, professor da Universidade Estadual de San Francisco e um dos respons�veis pela novidade. A identifica��o de novos planetas fora do sistema solar � uma das fronteiras mais fascinantes da ci�ncia neste final de mil�nio. V�rios deles foram observados nos �ltimos anos, mas at� agora nenhum revelou caracter�sticas semelhantes �s da Terra, que pudessem abrigar formas de vida. Isso n�o significa que n�o existam. "Nossos aparelhos n�o t�m a capacidade de detectar planetas t�o pequenos, mas � bastante prov�vel que eles existam em v�rios outros sistemas planet�rios", afirma o astr�nomo Peter Nisenson, do Centro de Astrof�sica da Universidade Harvard. � dif�cil imaginar que a Via L�ctea, com um n�mero estimado de 200 bilh�es de estrelas, seja apenas um deserto c�smico, no qual a humanidade vive em abissal solid�o. "A descoberta dos novos planetas levanta s�rias quest�es a respeito de nosso lugar no universo", observa o astr�nomo Marcy. Ambiente hostil � As medi��es feitas pela equipe de Marcy apontam que a composi��o dos tr�s novos planetas pode ser muito parecida com a de J�piter, o maior do sistema solar. S�o gigantescas esferas gasosas submetidas a temperatura e press�es extremas e sacudidas por furac�es e tempestades permanentes. Num ambiente t�o hostil, � dif�cil imaginar a exist�ncia de qualquer forma de vida. Mas os pesquisadores n�o descartam a possibilidade de o conjunto abrigar planetas menores, parecidos com a Terra, ou mesmo luas mais hospitaleiras, orbitando esses gigantes. A estrela Upsilon Andr�meda est� situada a 44 anos-luz da Terra. Um ano-luz � a dist�ncia que a luz percorre em um ano. Isso significa que a luz que os cientistas est�o observando hoje partiu de Upsilon Andr�meda em 1945, o ano em que a primeira bomba at�mica explodiu em Hiroshima. Ainda assim, em escala astron�mica, � uma dist�ncia relativamente pequena (as gal�xias mais distantes est�o a 12 bilh�es de anos-luz). � dif�cil imaginar alguma novidade que pudesse ter tantas conseq��ncias na hist�ria humana quanto a eventual descoberta de vida em outros planetas. A presun��o de que a Terra era o centro do universo foi, durante mil�nios, o pilar de in�meras religi�es e correntes filos�ficas. Imagine o impacto que uma descoberta dessa natureza teria, por exemplo, no juda�smo e no cristianismo. Durante milhares de anos, essas duas religi�es ensinaram que os seres humanos foram criados � imagem e semelhan�a de Deus e por Ele escolhidos como filhos preferenciais. Na doutrina crist�, a escolha divina foi levada ao extremo: para resgatar a humanidade do pecado, Cristo, o pr�prio filho de Deus, tornou-se ser humano e foi sacrificado na cruz. O que aconteceria se, de repente, os cientistas anunciassem que h� centenas ou milhares de outros planetas habitados por seres t�o ou mais evolu�dos que os humanos? Que papel teriam essas criaturas na doutrina crist�? Tamb�m elas teriam direito ao livre-arb�trio, � possibilidade de pecar e ser redimidas pela gra�a divina? Ou seriam apenas um subproduto da cria��o, na qual s� os humanos manteriam o privil�gio de esp�cie favorita? Com tantas quest�es em jogo, � compreens�vel que, no passado, a religi�o tenha sido um dos grandes obst�culos ao desenvolvimento da astronomia. Em fevereiro de 1600, o fil�sofo italiano Giordano Bruno foi queimado na fogueira da Inquisi��o cat�lica depois de afirmar que outras estrelas tamb�m poderiam abrigar sistemas planet�rios. Pouco depois, Galileu Galilei foi obrigado a renegar, sob a amea�a de excomunh�o, a teoria de que a Terra girava em torno do Sol, e n�o o contr�rio, como sustentava a Igreja. Apesar disso, a identifica��o de novos planetas no sistema solar foi um cap�tulo decisivo para a astronomia nos s�culos seguintes. Urano foi descoberto em 1781. Netuno, em 1846. Nesse meio tempo, houve espa�o at� para iniciativas delirantes, como a do astr�nomo Percival Lowell. Em 1894, ele construiu o pr�prio laborat�rio no deserto do Arizona para identificar vest�gios de vida que acreditava existir em Marte. Lowell n�o encontrou nada, mas foi nesse observat�rio que, em 1930, Clyde Tombaugh identificou Plut�o, o �ltimo planeta do sistema solar. Al�m dos limites � Depois disso, durante cerca de sessenta anos, os astr�nomos ca�adores de planetas se envolveram numa incans�vel busca por novas t�cnicas que lhes permitissem enxergar al�m dos limites do universo vis�vel a olho nu. "Detectar planetas fora do sistema solar � um trabalho muito dif�cil, j� que eles apenas refletem a luz de suas estrelas", explica o astr�nomo Marcy. A radia��o emitida por eles � muito t�nue, imposs�vel de ser captada pelos telesc�pios terrestres. Para driblar essa dificuldade, os pesquisadores desenvolveram um sistema que mede a oscila��o no movimento da estrela, provocada pela presen�a de um planeta nas vizinhan�as. Ou seja, tudo que os astr�nomos conseguem � inferir a presen�a do planeta, sem observ�-lo diretamente. � por esse motivo que os atuais aparelhos s� detectam os planetas de grande massa, do tamanho de J�piter. Eles s�o os �nicos capazes de provocar oscila��es no movimento das estrelas percept�veis a uma dist�ncia t�o grande. Desde 1995, j� foram identificados dezoito planetas assim. A d�vida a respeito da vida fora da Terra � t�o antiga quanto a pr�pria esp�cie humana. H� milhares de anos, pensadores, te�logos e cientistas se v�em �s voltas com as mesmas perguntas. Em alguma outra parte do universo a vida inteligente floresceu como na Terra? Que apar�ncia teriam esses seres? Em que est�gio de evolu��o estariam hoje? Que tipo de pergunta fariam a respeito da pr�pria exist�ncia? Tamb�m eles, como os humanos, se julgariam o centro e a raz�o de ser do universo? Essas perguntas fazem parte das quest�es filos�ficas essenciais, que dizem respeito � origem do universo e aos motivos pelos quais estamos aqui. A descoberta anunciada na semana passada est� longe de responder a elas. Mas � um passo importante nessa dire��o. Um mist�rio no c�u da Idade M�dia Dante Alighieri come�ava a escrever a Divina Com�dia Otman I dava in�cio � expans�o do Imp�rio Otomano Uma descoberta anunciada h� uma semana por dois pesquisadores da Nasa acrescentou um mist�rio � hist�ria da Idade M�dia. Ao medir a intensidade de radia��o numa regi�o do universo atual, eles calcularam que h� 700 anos uma espetacular explos�o iluminou o c�u da Terra, em virtude do colapso de uma estrela com quinze vezes a massa do Sol. O fen�meno, conhecido como supernova, ocorreu a 500 anos-luz da Terra, dist�ncia relativamente pr�xima, quando comparada � vastid�o espacial, e liberou quantidades colossais de energia. "Foi t�o impressionante que o brilho no c�u da Terra chegou a rivalizar com o da pr�pria Lua", compara o astr�nomo Wan Chen, autor da pesquisa em parceria com Neil Gehrels, ambos do Centro Espacial Goddard. O mist�rio � que, apesar das propor��es do evento, n�o h� um �nico registro dele nos relatos medievais. Pelos c�lculos dos astr�nomos, a explos�o deve ter iluminado a noite durante v�rias semanas. E, ainda assim, n�o chamou a aten��o de nenhum historiador ou cronista da �poca. A aus�ncia de registros � desconcertante. Por duas raz�es. A primeira � que, mais de dois s�culos antes, astr�nomos chineses tinham registrado a explos�o de uma outra supernova, cujos rastros podem ser observados at� hoje na nebulosa do Caranguejo. A segunda � que, em 1300, a Europa era um continente �s portas do Renascimento, palco de grande agita��o art�stica e cultural. A Universidade de Sorbonne, em Paris, j� funcionava havia meio s�culo. Dante Alighieri come�ava a escrever a Divina Com�dia, a obra m�xima da l�ngua italiana. As cidades de Floren�a, G�nova e Veneza despontavam como pot�ncias econ�micas enriquecidas pelo com�rcio. Marco Polo ditava num c�rcere genov�s O Livro das Maravilhas: a Descri��o do Mundo, registro de sua viagem � corte de Kublai Khan. Come�ava a expans�o do Imp�rio Otomano, cuja influ�ncia sobre o Ocidente perduraria at� o in�cio do s�culo XX. Ainda assim, ningu�m escreveu uma �nica linha sobre aquele extraordin�rio brilho no c�u. |
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