�guas de Marte                             Veja 13/12/2000
Sinais marcados nas rochas indicam que planeta j� teve grandes dep�sitos l�quidos

Cada vez que algum cientista quer informa��es precisas sobre o passado remoto da Terra, procura rochas antigas que guardem sinais de eras long�nquas. � exatamente isso que os pesquisadores da Nasa, a ag�ncia espacial americana, est�o fazendo nos estudos que realizam em Marte com a sonda Mars Global Surveyor. Na semana passada, uma equipe de astr�nomos, ge�logos e especialistas em processamento de imagens revelou fotografias espetaculares de v�rias crateras marcianas, tiradas pela nave a uma altitude m�dia de 370 quil�metros. S�o retratos de ranhuras, desfiladeiros e vales com uma defini��o nunca vista antes, em que facilmente se percebem diversas camadas de sedimentos depositados nos �ltimos 3,5 bilh�es de anos. Pela configura��o peculiar desse relevo, os pesquisadores acreditam tratar-se de leitos de antigos lagos e mares, que teriam sido bastante comuns numa paisagem hoje ressequida e arenosa. Mais: se a vida existiu algum dia em Marte, seus vest�gios ser�o encontrados tamb�m nesses lugares. H� seis meses, a mesma equipe declarou ter detectado sinais de exist�ncia de �gua subterr�nea no planeta. As novas fotografias refor�am a hip�tese de que h� bilh�es de anos Marte foi bem parecido com a Terra.

Os cientistas escolheram a dedo as regi�es rec�m-fotografadas. Desde que a sonda Mariner 9 entrou na �rbita de Marte, h� tr�s d�cadas, e tirou as primeiras fotografias do planeta, percebeu-se que havia algo de interessante em alguns pontos, como a regi�o conhecida por Vale Marineris, pr�xima ao equador do planeta. As fotos eram muito prec�rias, mas davam sinais de que as rochas sedimentares estavam por l�. Com a capacidade de identificar desde sua �rbita objetos do tamanho de um �nibus, a c�mara Mars Orbiter conseguiu imagens compar�veis �s fotos a�reas tiradas por ge�logos para planejar a explora��o de rochas sedimentares na Terra. Alguns dos desfiladeiros analisados chegam a ter 3 quil�metros de altura com centenas de camadas de sedimentos acumuladas no decorrer dos s�culos. Somente na regi�o do Desfiladeiro de Candor, h� mais de 100 forma��es geol�gicas desse tipo, cada uma com camadas horizontais de espessura quase id�ntica. Esse padr�o uniforme, repetido muitas vezes, mostra que a deposi��o dos sedimentos foi interrompida em intervalos regulares. "S�o t�o uniformes que � imposs�vel que se tenham formado sem a ajuda da �gua", explica Michael Malin, um dos coordenadores do estudo.

Ainda faltam muitas pe�as no imenso quebra-cabe�a que � o passado geol�gico marciano. Os cientistas t�m de descobrir de onde vieram originalmente os sedimentos depositados em camadas e como foram transportados para o lugar onde est�o hoje. Eles ainda n�o conseguiram identificar rastros de correntes e canais pr�ximos desses desfiladeiros. Acredita-se que esses antigos rios tenham sido apagados do solo marciano pela eros�o. Mas, mesmo com as evid�ncias fotogr�ficas, ainda � grande o n�mero de astr�nomos e ge�logos c�ticos em rela��o � hip�tese de a �gua ter existido em Marte. Eles dizem que as peculiaridades atmosf�ricas do planeta podem ter aumentado a capacidade do ar de carregar de um lado para outro a poeira produzida por impactos mais fortes. Com isso, as espetaculares forma��es teriam sido feitas a seco mesmo. "Essas discuss�es tornam Marte cada vez mais enigm�tico e ao mesmo tempo mais atraente", diz Kenneth Edgett, que conduziu as pesquisas com Malin. A Nasa deve usar as novas imagens para estabelecer os alvos de futuras miss�es. Uma sonda, a Mars Odyssey, ser� enviada no pr�ximo ano. Depois seguir�o duas naves-rob�s, que pousam no planeta em 2003. A ag�ncia espacial americana planeja ainda lan�ar em cinco anos outra potente sonda somente para procurar �gua. Mas atingir qualquer uma das regi�es detalhadas nas fotos n�o ser� tarefa f�cil. Crateras e precip�cios s�o terrenos desaconselhados para pouso. Mesmo quando se usa o mais resistente equipamento, s�o grandes as probabilidades de ele se esborrachar contra um pared�o.
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