Admir�vel Nov�ssimo Mundo   Veja 08/07/1998
Novos supertelesc�pios ajudam a decifrar a origem e os mist�rios do universo

Quando Galileu Galilei apontou para o c�u uma das primeiras lunetas, h� 400 anos, a humanidade deu um passo gigantesco no terreno do conhecimento. Gra�as ao instrumento que inventou, capaz de ampliar 1.000 vezes as imagens vindas do espa�o, ele conseguiu obter informa��es para provar que a Terra se movia em torno do Sol, e n�o o contr�rio, como antes se acreditava. Precisou desculpar-se diante da Igreja, apegada ao dogma de que ser�amos o centro do universo, mas a imagem que os seres humanos tinham do cosmo come�ara a mudar para sempre. Desde ent�o j� se aprendeu muito mais sobre o universo, mas outra revolu��o cient�fica das mesmas propor��es est� em curso no momento. Gra�as a telesc�pios capazes de enxergar estrelas 1 bilh�o de vezes menos brilhantes do que as descobertas pela arcaica luneta de Galileu, est�o nascendo entre os cientistas novas id�ias, t�o revolucion�rias quanto as que outrora poderiam ter levado � fogueira o g�nio italiano. Um exemplo: ao contr�rio do que se pensava, o universo pode n�o ser infinito. J� � poss�vel calcular sua idade com razo�vel precis�o, tanto pela medi��o do nascimento das gal�xias, feita pelo telesc�pio espacial Hubble, quanto pelo c�lculo preciso da dist�ncia entre milhares de estrelas, outro indicador de quando surgiram, obra do sat�lite europeu Hipparcos. O universo teria 13 bilh�es de anos, segundo o c�lculo mais aceito pela comunidade cient�fica. Se ele teve come�o, pensam os cientistas, ent�o dever� tamb�m ter um fim.

"Com os instrumentos de agora, nunca estivemos t�o perto das respostas �s perguntas que nossos ancestrais faziam quando olhavam para o c�u", diz o f�sico brasileiro Marcelo Gleiser, autor do livro A Dan�a do Universo, sobre mitos religiosos e as pesquisas da ci�ncia. "Com isso, ser� poss�vel saber por meio de uma vis�o cient�fica de onde viemos e para onde vamos", acredita ele. Gra�as ao Hubble, � poss�vel n�o s� detectar como fotografar buracos negros, estrelas � beira da morte, explos�es em gal�xias distantes e at� mesmo a forma��o de planetas a partir da concentra��o de poeira c�smica. Supertelesc�pios s�o capazes de captar a emiss�o de sinais que v�m de t�o longe que remontam � pr�pria origem do universo, o que j� permitiu montar at� mesmo uma imagem do espa�o quando tinha apenas 1 milh�o de anos de idade (veja quadro abaixo). Nem todas as novidades, contudo, se devem �s fotografias e registros de sat�lites e dos supertelesc�pios. Uma das mais importantes surgiu, na verdade, embaixo da terra.

H� cerca de um m�s, 120 cientistas americanos e japoneses que trabalham num laborat�rio subterr�neo nas cercanias da pacata cidade de Takayama, no Jap�o, fizeram uma revela��o. Observando um reservat�rio de �gua purificada num tanque de zinco do tamanho de uma catedral, protegido de qualquer interfer�ncia externa, verificaram que o l�quido continuava a receber o impacto de part�culas que seriam infinitesimalmente menores do que o el�tron. Assim, concluiu-se que os chamados neutrinos, elementos subat�micos que comp�em a mat�ria escura que cobre 90% do universo e perpassa os corpos s�lidos, na verdade t�m massa. Em outras palavras, at� mesmo o imenso espa�o negro entre as estrelas at� hoje tido como vago na verdade � feito de mat�ria. "Essa � uma das maiores descobertas da ci�ncia na �ltima d�cada", afirma o diretor do Laborat�rio Nacional de Astrof�sica, Jo�o Steiner. "Dependendo da massa que tiverem os neutrinos, ela pode mudar o rumo das teorias sobre o destino do universo." O grande exerc�cio entre os f�sicos do mundo inteiro hoje � imaginar qual seria a massa do conjunto dos neutrinos. Caso ela seja significativa, sua for�a gravitacional poderia at� levar o universo a um colapso batizado pelos cientistas de Big Crunch (Grande Esmagamento).

A descoberta dos cientistas em Takayama aparentemente pode contradizer tudo o que se julgava certo a respeito dos rumos do universo. A teoria mais aceita hoje em dia sobre o que acontece no espa�o foi formulada em 1929 pelo cientista americano Edwin Hubble. Foi ele o autor da tese segundo a qual o universo est� em permanente expans�o. Mais tarde, os cientistas passaram a acreditar que esse movimento se deu a partir de uma grande explos�o inicial conhecida como Big Bang. Outras recentes descobertas feitas pelos cientistas parecem n�o s� confirmar como aperfei�oar a teoria de Hubble. Os pesquisadores do observat�rio astron�mico de Cerro Tololo, no Chile, anunciaram h� tr�s meses os resultados de observa��es feitas desde 1995 que ca�ram como uma bomba na comunidade cient�fica. Gra�as ao acompanhamento de estrelas jovens e de outras mais velhas, cuja luz foi enviada � Terra h� 8,3 bilh�es de anos, eles verificaram que o movimento delas est� se acelerando, em vez de diminuir. Isso significa que o universo n�o somente est� em expans�o, tal como dissera Hubble, como a velocidade dessa expans�o � cada vez maior.

O enigma de Einstein � No nov�ssimo mundo que os cientistas descortinam, as id�ias de que as estrelas est�o se afastando cada vez mais r�pido e de que uma for�a gravitacional pode estar tentando levar o universo para um Big Crunch n�o s�o necessariamente contradit�rias. "Como num carro, o universo pode estar acelerando e brecando ao mesmo tempo", diz o astrof�sico Jo�o Steiner. "Resta saber qual a��o ser� mais intensa e acabar� ganhando." A observa��o de que as estrelas est�o aumentando de velocidade ainda poderia confirmar empiricamente uma teoria de Albert Einstein, concebida por ele h� quase noventa anos, e considerada t�o estranha que o pr�prio cientista, mais tarde, preferiu retratar-se diante da comunidade cient�fica. No come�o do s�culo, Einstein notou que a atra��o gravitacional entre as gal�xias estranhamente n�o fazia com que elas tendessem a colidir entre si. Imaginou que deveria existir algum tipo de for�a capaz de afast�-las umas das outras � uma esp�cie de repuls�o, ou antigravidade, � qual deu o nome de "constante cosmol�gica". Com a expans�o do universo comprovada por Hubble, essa repuls�o n�o faria sentido. O autor da teoria da relatividade geral morreu convicto de que a constante cosmol�gica foi o maior erro de sua vida.

� prov�vel que Einstein n�o se tivesse torturado tanto caso dispusesse dos equipamentos contempor�neos utilizados pelos cientistas. Al�m de verificar que as estrelas est�o de fato se afastando a velocidade cada vez maior, os modernos telesc�pios s�o capazes de tarefas h� pouco tempo inconceb�veis (veja quadro). Muitas vezes essas observa��es geram novas inc�gnitas, em vez de esclarecer mist�rios. H� menos de dois meses, o sat�lite Compton captou uma explos�o no espa�o em uma gal�xia a 12 bilh�es de anos-luz da terra cuja for�a s� foi menor do que a do pr�prio Big Bang. At� hoje ningu�m conseguiu explicar a causa dessa explos�o. Outras descobertas s�o uma completa surpresa. Na mesma �poca, o astr�nomo brasileiro Kepler de Oliveira, que dirige um grupo de trinta pesquisadores chamado Whole Earth Telescope, descobriu uma nova estrela batizada de BPM 37093 com observa��es feitas simultaneamente a partir de treze diferentes telesc�pios espalhados pelo mundo. Pela primeira vez, os cientistas conseguiram n�o s� localizar e medir a estrela como saber do que � feita. Com 36 toneladas por cent�metro c�bico de massa e 16 milh�es de quil�metros quadrados de �rea, ela � na pr�tica um diamante incandescente do tamanho do Sol. "Esse ningu�m vai roubar", diz Kepler.

Cada vez mais longe � O desenvolvimento dos telesc�pios est� se acelerando ainda mais. At� hoje o instrumento mais preciso j� inventado pelo homem para fotografar objetos no espa�o, o telesc�pio Hubble tem apenas mais dez anos estimados de vida �til. Antes disso, contudo, entrar�o em atividade telesc�pios ainda mais poderosos. Os mais importantes ser�o os do projeto Gemini, que custar� 184 milh�es de d�lares e envolve cientistas de sete pa�ses, entre eles o Brasil. O primeiro telesc�pio Gemini ficar� pronto no fim do ano, no Chile. O outro, previsto para come�ar a funcionar no ano 2.000, fica no Hava�. Mesmo na terra, cada um deles poder� enxergar dez vezes mais longe do que o Hubble. Com isso, ser� poss�vel captar gal�xias e planetas com maior nitidez.

Tamb�m plantado nas montanhas chilenas, o telesc�pio Soar vai inaugurar a participa��o brasileira no financiamento e na produ��o de equipamentos num telesc�pio de �ltima gera��o. O Brasil entra com um ter�o de verba (14 milh�es de d�lares, cedidos pelo CNPq, Finep, Fapesp e outras funda��es de amparo � pesquisa), mais aparelhos de tecnologia nacional, como espectr�grafos, que decomp�em a luz emitida pelo objeto observado em diferentes cores. Atrav�s delas pode-se fazer uma ficha t�cnica do objeto estudado. Se for uma estrela, a decomposi��o da sua luz indica a temperatura, a densidade, a composi��o e demais informa��es. "� um trabalho pioneiro que nos coloca em p� de igualdade com cientistas do mundo inteiro", avalia Raymundo Baptista, coordenador da equipe que vai criar os aparelhos. O Brasil, que tinha apenas dois astr�nomos doutorados h� vinte anos e hoje tem 195, est� agora em boa posi��o na corrida pelo conhecimento cosmol�gico.

Os g�nios que mudaram a hist�ria do cosmo
Cop�rnico
M�dico e astr�nomo polon�s (1473-1543), dizia que o Sol era o centro do cosmo

Galileu
Italiano (1564-1642), usou lunetas para comprovar que a Terra gira em torno do Sol

Kepler
Alem�o (1571-1630), disse que a Terra, o Sol e os planetas s�o da mesma natureza

Einstein
Alem�o (1879-1955), desenvolveu a teoria da relatividade e revolucionou a ci�ncia

Hubble
Americano (1889-1953), fez a Lei de Hubble, sobre a expans�o do cosmo
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