O Futuro J� Era Veja 23/02/2000 A revista Time elege Bras�lia como um dos monstrengos arquitet�nicos do s�culo XX
Pra�a dos Tr�s Poderes: "constru��es expostas ao sol inclemente e aos ventos"
Na semana passada, a revista Time, em sua edi��o americana, publicou uma s�rie de artigos com proje��es sobre as mudan�as que dever�o ocorrer no dia-a-dia dos cidad�os no s�culo XXI. Evitando a futurologia, a revista baseia-se apenas em tend�ncias que j� est�o em curso na sociedade e em tecnologias que a ci�ncia domina ou est� prestes a dominar. No artigo dedicado � arquitetura, a Time enxerga o decl�nio do estilo modernista, aquele que nos �ltimos cinq�enta anos recheou as cidades do mundo inteiro com pr�dios de linhas retas, feitos de concreto, a�o e vidro. O novo padr�o seria aquele utilizado em constru��es como a Opera de Sydney, na Austr�lia, e o Museu Guggenheim de Bilbao, na Espanha. Nesses pr�dios, as paredes parecem flutuar como bandeirolas e, do exterior, n�o se sabe muito bem onde ficam o teto e o ch�o.
Num quadro complementar ao artigo, a Time relaciona tr�s constru��es do s�culo XX que considera verdadeiros atentados � boa arquitetura. Uma delas � o pr�dio da MetLife (ex-edif�cio Pan Am), em Nova York, uma chapa de concreto que comprometeu o horizonte da Park Avenue, de autoria do alem�o Walter Gropius, um dos papas do modernismo. Outra � o Les Halles, em Paris, um monstrengo p�s-moderno erguido no local onde ficava um antigo mercado. O terceiro exemplo de m� arquitetura eleito pela Time � Bras�lia. A cidade, segundo a revista, � composta de constru��es inc�modas, expostas ao sol inclemente e aos ventos. O arquiteto Oscar Niemeyer, autor dos projetos dos mais famosos pr�dios p�blicos da cidade, � classificado como criador de uma capital "modernista cafona".
As opini�es veiculadas na revista americana podem mexer com os brios dos brasileiros. Afinal, Bras�lia � tombada pela Unesco como patrim�nio da humanidade e permanece como a j�ia mais vistosa da arquitetura nacional. Sob a �tica fria da Hist�ria, no entanto, o julgamento da Time n�o � desprovido de fundamento. Quando foi constru�da, na passagem dos anos 50 para os 60, Bras�lia ganhou o apelido de "cidade do futuro". Seus maiores s�mbolos, como a Pra�a dos Tr�s Poderes, o Pal�cio da Alvorada ou a Esplanada dos Minist�rios, foram erguidos de acordo com o que havia de mais revolucion�rio no ide�rio arquitet�nico. Meio s�culo depois, o que era futurista foi parar no escaninho do passado. As constru��es brasilienses j� n�o impressionam tanto pela ousadia. Para quem trabalha nos pr�dios oficiais de Bras�lia, resta ainda conviver com uma s�rie de esquisitices. Num lugar t�o cheio de luminosidade como o Planalto Central, por exemplo, o Congresso Nacional fica abaixo do n�vel do ch�o. Os edif�cios tamb�m foram projetados de maneira tal que, no ver�o, se transformam em verdadeiras fornalhas. Bras�lia pode n�o ser cafona, como diz a Time, mas � pouco funcional. E arquitetura sem funcionalidade � como amor sem sexo. |