| Comida ou Rem�dio? Veja 07/07/1999 Com os consumidores obcecados por uma vida saud�vel, n�o basta ser alimento. Precisa tamb�m combater as doen�as "Os �mega 3 possuem um papel significativo em numerosas fun��es do organismo, principalmente favorecendo o desenvolvimento do sistema imunol�gico e contribuindo para a redu��o dos n�veis de colesterol e triglic�rides, regulando, assim, a fluidez do sangue." At� parece bula de rem�dio. Afinal, os impressos que acompanham os medicamentos existem para isso mesmo: explicar como uma determinada droga age no organismo, com informa��es sobre posologia, resultados esperados e efeitos colaterais previstos � ou n�o? Pois o texto acima foi transcrito de uma simples caixa de leite. Pode soar estranho, mas os brasileiros devem ir se acostumando com esse linguajar de m�dico impresso nas embalagens das comidas e bebidas. Do prosaico leite de todo dia ao ovo usado para fazer a omelete. Seguindo a tend�ncia mundial, toma impulso no Brasil um novo conceito de nutri��o: o de que os alimentos n�o servem apenas para matar a fome e fornecer energia ao organismo, mas precisam igualmente contribuir para melhorar a sa�de das pessoas. S�o os chamados alimentos funcionais: p�es, sucrilhos ou margarinas em cuja composi��o entraram subst�ncias capazes de reduzir os riscos de doen�as e alterar fun��es do corpo humano. Os leites enriquecidos �mega 3 e �mega 6 s�o, atualmente, os produtos mais badalados entre os alimentos que tamb�m s�o rem�dio. Isso porque foram lan�ados pelas gigantes Parmalat e Nestl� com grandes campanhas publicit�rias na televis�o, h� apenas dois meses. Mas tamb�m porque prometem enormes benef�cios adicionais. �megas s�o gorduras extra�das de peixes de �gua fria e vegetais que ajudam a reduzir os n�veis de colesterol no sangue e controlar a press�o arterial � os principais fatores de risco para as doen�as do cora��o. N�o se trata de propaganda enganosa. O �mega realmente impede que parte das gorduras nocivas � sa�de se aloje no interior dos vasos sangu�neos, evitando assim o entupimento das veias e art�rias. Pesquisas mostram que os �ndices de infarto s�o baix�ssimos entre as popula��es cuja dieta � rica em peixes e vegetais. A �nica contradi��o � o baix�ssimo n�vel de �mega no leite enriquecido. "Para se beneficiar das qualidades do �mega, uma pessoa deveria tomar no m�nimo 1 litro do leite especial todos os dias", afirma o professor Jorge Mancini Filho, da Faculdade de Ci�ncias Farmac�uticas da Universidade de S�o Paulo. Dependendo da marca, pois o porcentual varia de uma para outra, seriam necess�rios 2 litros. O consumo m�dio di�rio de leite no pa�s � de apenas meio copo. Mercado promissor � Ainda incipiente, o mercado de alimentos funcionais tem tudo para estourar. Uma das raz�es � a preocupa��o cada vez maior dos brasileiros em manter um estilo de vida saud�vel. Outra � a consci�ncia de que as doen�as cardiovasculares s�o a principal causa de morte no pa�s, com 300.000 �bitos a cada ano. Os leites especiais, entre eles o semidesnatado e o desnatado, representam quase 10% da produ��o da Parmalat. Com as vendas do leite enriquecido com �mega 3, a empresa espera chegar a 13%. As vendas da Becel, uma esp�cie de margarina produzida pela Gessy Lever cujo principal atrativo � a gordura vegetal, excelente para quem precisa controlar a taxa de colesterol, duplicaram em quatro anos. N�o � pouca coisa, pois se consomem 620 milh�es de d�lares anuais em margarinas e similares. Esses n�meros s� parecem modestos quando comparados aos do com�rcio de alimentos funcionais nos Estados Unidos � 15 bilh�es de d�lares previstos para este ano. L�, como aqui, o combate ao colesterol � o carro-chefe da tend�ncia. �s voltas com vendas minguantes do farelo de aveia, um de seus principais produtos, a Quaker deu a volta por cima em 1996 acrescentando �s caixas a informa��o de que o alimento ajuda a baixar os n�veis de colesterol. As vendas cresceram 5% naquele ano e mais 7% em 1997. A novidade americana � a margarina Benecol, composta de uma subst�ncia extra�da de pinheiros, o sitostanol. A promessa � que basta uma colher e meia de ch� de Benecol diariamente para reduzir as taxas de colesterol em at� 14% em poucos meses. "As pessoas est�o fartas de ouvir que n�o podem comer isso ou aquilo", avalia David Schmidt, vice-presidente do Conselho Internacional de Informa��es sobre Alimentos. "Com os alimentos funcionais, o que as pessoas comem � mais importante para a sa�de do que o que elas deixam de comer." O p�o � um caso exemplar. Alimento pouco aconselh�vel aos doentes com diabetes, foi redimido com a chegada �s prateleiras dos mercados de uma vers�o rica em fibras, sol�veis como as da aveia. Essas fibras retardam o processo de absor��o dos alimentos no est�mago. Com isso, as taxas de a��car no sangue n�o sobem de uma hora para outra em terr�veis crises de hiperglicemia. Algum dia algu�m j� imaginou que lhe recomendassem comer margarina para baixar os n�veis de gordura circulante no organismo? Ou que se ingerissem sucrilhos contra anemia? � essa possibilidade de virar o jogo que p�e os alimentos funcionais na fronteira entre comida e rem�dio. In natura � N�o � sem raz�o que se fala em fronteira e n�o em substitui��o. N�o adiantaria nada entupir-se de torresmo e depois tentar contrabalan�ar o excesso de gordura bebendo litros e litros de leite com �mega 3. "Esses alimentos podem ajudar, mas s� se fizerem parte de um estilo de vida saud�vel. E isso significa dieta controlada e pr�tica regular de exerc�cios f�sicos", alerta o endocrinologista Geraldo Medeiros, professor da Universidade de S�o Paulo. Tanto � assim que recentemente o FDA, o rigoroso �rg�o do governo americano que fiscaliza rem�dios e alimentos, mandou a Kellogg's estampar nos produtos da linha Ensemble, inteiramente composta por alimentos funcionais � da batata frita ao macarr�o �, o seguinte aviso: "Este produto pode reduzir os riscos de doen�as do cora��o desde que fa�a parte de uma dieta com baixos teores de gordura saturada (as gorduras de origem animal) e colesterol". De qualquer forma, � um avan�o e tanto � e tudo isso se deve ao desenvolvimento das pesquisas sobre nutri��o. Em 1985, cientistas japoneses definiram tr�s fun��es para os alimentos. A sensorial (o alimento tem de ter gosto e cheiro bom), a nutricional (o que se ingere tem de suprir as necessidades energ�ticas do organismo) e a funcional (ingredientes com caracter�sticas terap�uticas). "Entre os funcionais, primeiro se notou que determinados alimentos in natura dispunham de nutrientes capazes de prevenir e combater doen�as", lembra a professora Marisa Rodrigues Pollonio, especialista em qualidade de alimentos da Universidade S�o Judas Tadeu, em S�o Paulo. Estudos t�m demonstrado que o licopeno, um pigmento natural do tomate, pode ter uma a��o anticarcinog�nica. A isoflavona da soja, de reduzir os n�veis de colesterol, triglic�rides e a incid�ncia de alguns tipos de c�ncer. Os cientistas querem isolar essas subst�ncias para criar medicamentos ou adicion�-las a outros alimentos. Outro esfor�o, desenvolvido por interm�dio da biotecnologia, � para aumentar a concentra��o desses compostos nos alimentos de origem. O Minist�rio da Sa�de estuda normas para estabelecer limites entre os produtos que realmente melhoram a sa�de das pessoas e aqueles que apenas as deixam mais bem alimentadas ou s�o recomendados para dietas espec�ficas. No m�s passado, foi criada uma comiss�o especial da Secretaria Nacional da Vigil�ncia Sanit�ria para cuidar do assunto. "Vamos controlar o r�tulo das embalagens dos alimentos ditos funcionais para proteger o consumidor de falsas promessas", promete o bioqu�mico Franco Lajolo, coordenador da equipe. Pelos crit�rios dos especialistas, bolachas e leites enriquecidos apenas com vitaminas n�o s�o funcionais. O mesmo racioc�nio vale para produtos rotulados de diet e light, baixos em gordura, ou para alimentos sem a��car, que n�o engordam e n�o provocam c�ries � s�o �teis, mas para ser considerados funcionais precisariam agir diretamente sobre algum tipo de patologia. Os iogurtes enriquecidos com lactobacilos vivos s�o um bom exemplo. S�o recomendados para reconstituir a flora intestinal de pessoas v�timas de infec��es ou sob tratamento com antibi�ticos. Os fabricantes anunciam que as bact�rias benignas desenvolvidas em laborat�rio recomp�em a flora intestinal e ajudam a restabelecer o funcionamento do organismo. Pode-se pensar que se trata de alimentos funcionais, tantos s�o os benef�cios. A realidade, contudo, � outra. "Cerca de 90% dos lactobacilos morrem durante a passagem pelo est�mago porque n�o resistem ao �cido g�strico", explica o professor Sender Mitsputzen, titular de gastroenterologia da Universidade Federal de S�o Paulo. "Os resultados sobre a flora do intestino s�o praticamente inexistentes." Para resolver o problema, basta uma alimenta��o saud�vel. Se a dieta for com alimentos funcionais de verdade, melhor ainda. |
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