| Aventura Radical Veja 21/01/1998 Supermontanhas-russas e elevadores que caem das alturas lotam os parques brasileiros. O Evolution e a montanha-russa que faz looping de marcha � r�: emo��o de cabe�a para baixo D� frio na barriga s� de olhar. Suspensas sobre o abismo, no topo de uma torre de 64 metros altura de um pr�dio de 22 andares , dezesseis pessoas gritam e cobrem o rosto com as m�os, antes de despencar no vazio. S�o seis segundos de queda a uma velocidade que chega a 100 quil�metros por hora. Para viver esse tipo de experi�ncia, milhares de ca�adores de emo��o formam filas todos os dias nos tr�s maiores parques de divers�es brasileiros, o Playcenter, de S�o Paulo, o Beto Carrero, de Santa Catarina, e o Terra Encantada, inaugurado no Rio de Janeiro na semana passada. O brinquedo que simula a queda livre de um elevador � uma das novas m�quinas radicais de divertimento que os parques est�o trazendo para o Brasil. H� de tudo: p�ndulos nos quais pessoas s�o arremessadas de um lado para o outro como se fossem ioi�s humanos, pi�es gigantescos que rodopiam de cabe�a para baixo dezenas de metros acima do solo, barcos que sacolejam enlouquecidos por corredeiras artificiais e montanhas-russas cujos carrinhos percorrem loopings em marcha � r� a velocidades estonteantes. O que leva algu�m a gastar dinheiro para se submeter a esse tipo de tortura? A explica��o, dizem os m�dicos, est� na qu�mica do c�rebro. Os movimentos bruscos e imprevis�veis de um brinquedo provocam no organismo as mesmas rea��es que uma pessoa enfrenta quando est� diante de situa��es reais de perigo. S�o descargas tremendas de horm�nios como adrenalina e endorfina que, somados, reproduzem no mundo do faz-de-conta de um parque sensa��es de p�nico, tens�o e ang�stia. O prazer est� nisso: enfrenta-se o perigo sem correr risco algum. "As pessoas passam normalmente por situa��es de stress ao dirigir, disputar uma partida de futebol ou mesmo receber uma declara��o de amor", diz o neurocirurgi�o Jorge Pagura, do Hospital Albert Einstein, de S�o Paulo. "Tudo isso libera grande quantidade de adrenalina no organismo. A diferen�a � que, num parque de divers�es, voc� tem a certeza de que nada vai dar errado. � a adrenalina sob controle." Alarme qu�mico Tome-se o exemplo do elevador que despenca. Na fra��o de segundo que precede a queda, o corpo se comporta como se estivesse diante de um perigo mortal. A primeira a entrar em a��o � a am�gdala, estrutura do c�rebro que regula as rea��es instintivas. Na forma de impulsos nervosos, uma ordem corre a coluna vertebral para que as gl�ndulas supra-renais descarreguem adrenalina no sangue. Em estado normal, circulam pelo corpo humano at� 20 miligramas de adrenalina por dia, enquanto numa situa��o dessas a concentra��o pode chegar a 150 miligramas. O est�mago e a bexiga se contraem, interrompendo qualquer processo digestivo. O cora��o dispara. Os batimentos card�acos podem chegar a 160 por minuto, o dobro do normal. O sangue circula mais r�pido, os m�sculos se tensionam e a boca fica seca. O alarme qu�mico provoca vasoconstri��o, tornando as pessoas p�lidas. Passado o susto, tudo isso � compensado por uma grande sensa��o de al�vio. � a recompensa por ter enfrentado e sobrevivido ao medo. Por essa raz�o, alguns parques vendem camisetas nas quais se anuncia que o visitante passou por determinado brinquedo radical. Nunca os parques brasileiros estiveram t�o lotados. Juntos, recebem 6,5 milh�es de visitantes e faturam 120 milh�es de reais por ano. A previs�o � de que a receita possa chegar a 1 bilh�o de reais e 10 milh�es de pessoas dentro de cinco anos. Mais da metade dos freq�entadores s�o adolescentes que formam tribos barulhentas e passam, em m�dia, seis horas dentro do parque, gastando cerca de 50 reais em ingressos e lanches. O n�mero de visitantes do Playcenter paulistano neste ver�o, 6.500 por dia, � igual � m�dia de torcedores que compareceram aos jogos do campeonato paulista de futebol no ano passado. Na pequena cidade de Penha, no litoral de Santa Catarina, o Beto Carrero World atraiu no ano passado 2 milh�es de pessoas n�mero igual ao da popula��o de uma capital como Curitiba ou Recife. Maior do mundo At� o ano 2000, mais de 1,5 bilh�o de reais ser�o aplicados na constru��o de doze grandes e m�dios parques pelo Brasil inteiro (veja quadro ao lado). O investimento � superior ao da f�brica de autom�veis que a Renault est� construindo no Paran�. O rec�m-inaugurado Terra Encantada, o maior e mais caro parque de divers�es do pa�s, saiu por 235 milh�es de d�lares e tem um brinquedo, a montanha-russa que dispara a at� 80 quil�metros por hora e faz oito loopings, que custou mais de 10 milh�es de d�lares. "At� o fim do ano, vamos receber 3,5 milh�es de visitantes, p�blico igual ao de todo o Campeonato Brasileiro de futebol", torce o diretor executivo, Danilo Rangel Rocha. Boa parte dos novos parques em constru��o no Brasil se concentra no eixo formado pelas cidades de S�o Paulo e Campinas. S�o ao todo quatro projetos que v�o investir mais de 500 milh�es de d�lares at� o ano 2000. Dois deles, o Great Adventure e o Wet'n Wild, est�o com as obras embargadas pela Justi�a porque n�o seguiram todas as normas de prote��o do meio ambiente. A previs�o � que ser�o inaugurados ainda neste ano, depois de resolver esses problemas. Nessa mesma regi�o, o Beto Carrero vai erguer uma filial cuja novidade principal ser� a maior montanha-russa do mundo, com 3 quil�metros de extens�o. Os brasileiros sempre foram fan�ticos por parques de divers�es. At� pouco tempo atr�s, por�m, as melhores op��es estavam nos Estados Unidos. A cada ano mais de 400.000 brasileiros visitam os parques da Fl�rida e Calif�rnia. Formam o segundo maior p�blico estrangeiro no Busch Gardens e na Universal, e o terceiro na Disney World. � natural, portanto, que os novos parques brasileiros estejam copiando a f�rmula dos americanos. O Beto Carrero gastou 11 milh�es de d�lares para trazer da Su��a a Torre do Terror, o elevador que despenca. � id�ntico a um dos brinquedos existentes na Universal, na Fl�rida. Outros 7 milh�es de d�lares foram gastos para reproduzir o castelo da Cinderela da Disney. O Terra Encantada importou corredeira de �gua de 600 metros de extens�o, uma f�brica de chocolate de verdade e at� o restaurante Planet Hollywood, dos atores Arnold Schwarzenegger e Sylvester Stallone. O Parque do Gugu, em S�o Paulo, tem um brinquedo em que as poltronas, acionadas por sistema hidr�ulico, acompanham os movimentos de um filme de a��o. Elevador que desaba e o susto dos tripulantes: a 100 quil�metros por hora Por tr�s desses brinquedos h� uma parafern�lia tecnol�gica respeit�vel. As cadeiras que se movimentam no Parque do Gugu s�o inspiradas num laborat�rio de testes para pilotos de avi�o. Outro brinquedo, que deve chegar ao Brasil at� o final do ano, � um carro que dispara a 115 quil�metros por hora at� uma plataforma de 110 metros de altura e depois cai em marcha � r� na mesma velocidade. Foi desenvolvido a partir de testes de bal�stica para foguetes. Num terceiro, a pessoa � i�ada a at� 40 metros de altura e, segura por um cabo, cai de p�ra-quedas. Tamb�m � c�pia de uma m�quina de testes para pilotos na Aeron�utica americana. No elevador que despenca h� amortecedores pneum�ticos que absorvem o impacto. Em vez de se esborrachar contra o solo, os tripulantes do brinquedo s�o arremessados de volta para cima, como se estivessem quicando. Para acelerar a queda, usa-se, al�m da for�a da gravidade, um motor de suc��o que puxa o elevador para baixo com mais velocidade. "� pior do que a sensa��o de queda livre", diz o professor de f�sica Sadao Mori, de S�o Paulo. "� como se a pessoa estivesse no alto de um pr�dio e fosse empurrada para baixo." Parafuso A mais conhecida m�quina radical, a montanha-russa, acaba de fazer 100 anos como um dos grandes exemplos da criatividade humana. At� o final do s�culo passado, alcan�ava 10 quil�metros por hora e os passageiros tinham de saltar no final da primeira rampa para que os funcion�rios do parque empurrassem os carrinhos at� o topo da outra inclina��o. Nos anos 70, os engenheiros inspiraram-se no formato de um parafuso para desenvolver trajet�rias que colocavam os carrinhos de cabe�a para baixo. Hoje, j� existe nos Estados Unidos uma montanha-russa cujos carrinhos atingem 160 quil�metros por hora. O maior sucesso do ver�o no Playcenter paulista � a montanha-russa chamada Boomerang. Como outras do g�nero, chega a 75 quil�metros por hora e faz um looping completo. A novidade, de arrepiar, � que ao chegar a seu ponto mais alto, a 38 metros do solo, o carrinho volta de marcha � r�. Quem experimentou n�o esquece. "� uma loucura", diz a estudante Fernanda Assis, de 17 anos. Al�m da emo��o, o que conta nesses brinquedos � a seguran�a. Uma pesquisa da ITS, a empresa que controla o Parque da M�nica, mostra que esse � o principal item levado em considera��o pelos freq�entadores. "Nada � t�o precioso nessa atividade quanto a seguran�a", afirma Alain Baldacci, presidente do conselho da Associa��o Internacional de Parques de Divers�o. Mesmo assim, no come�o do m�s, quarenta pessoas levaram um susto enorme ao ficar presas de cabe�a para baixo, � altura de 21 metros, por causa de uma falha el�trica em um aparelho do Playcenter. Chamado de Evolution, o brinquedo � um pi�o gigantesco no qual os tripulantes ficam totalmente de pernas para o ar enquanto rodopiam em alta velocidade. Por sorte, as travas de a�o inox revestidas de poliuretano funcionaram e, depois de alguns minutos, todos foram resgatados s�os e salvos. |
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