Origens da Origem                               Veja 15/03/2000
Duas cartas de Darwin antecipando sua teoria das esp�cies

Embora os g�nios costumem ser representados como pessoas "inspiradas", que t�m id�ias brilhantes a partir do v�cuo, o fato � que quase sempre o inverso � verdadeiro. Em vez de ser atingidos por um raio fulminante, homens que entram para a Hist�ria como luminares trabalham anos e anos em suas teses revolucion�rias. O naturalista ingl�s Charles Darwin (1809-1882) � um �timo exemplo disso. Ele ficou conhecido como o pai do evolucionismo. Sua teoria diz que as v�rias esp�cies de vida n�o foram criadas j� "prontas", mas evolu�ram no correr das eras, obedecendo ao princ�pio da "sele��o natural". Quando Darwin � mencionado, � inevit�vel que logo em seguida surja o nome de sua obra-prima, A Origem das Esp�cies (1859), em que ele condensou suas id�ias pela primeira vez. Mas Darwin n�o foi autor de um livro s�. Ele trabalhou na teoria da evolu��o por vinte anos, antes de public�-la. E, nos anos que se seguiram a 1859, continuou apurando seus argumentos. Ser� que � importante conhecer os textos que vieram antes e depois de A Origem das Esp�cies? � claro que sim, e uma prova em dose dupla acaba de chegar �s livrarias. O Darwin "aprendiz" est� em As Cartas de Charles Darwin (tradu��o de Vera Ribeiro; Unesp/Cambridge; 339 p�ginas; 32 reais), uma excelente colet�nea que cobre os anos de 1825 a 1859. J� o Darwin maduro, que aprofunda suas teses, est� em A Express�o das Emo��es no Homem e nos Animais (tradu��o de Leon de Souza Lobo Garcia; Companhia das Letras; 376 p�ginas; 26 reais), um cl�ssico traduzido pela primeira vez para o portugu�s.

Enquanto escrevia A Origem das Esp�cies, Darwin se viu atormentado por uma d�vida: abordar ou n�o a evolu��o humana. Ele sabia que os religiosos atacariam violentamente o livro. Falar sobre o homem era jogar mais lenha na fogueira. Assim, ele apenas deixou impl�cito que os humanos tinham evolu�do de ancestrais primitivos, em vez de ter sido sido criados "� imagem e semelhan�a de Deus". Uma discuss�o minuciosa s� veio bem mais tarde, com os dois volumes de A Descend�ncia do Homem (1871) e, posteriormente, com A Express�o das Emo��es no Homem e nos Animais. Este �ltimo, lan�ado em 1872, visava � derrubada de um tabu: o de que apenas os homens podem externar emo��es, pois seu rosto foi esculpido para expressar "as coisas sutis do esp�rito". A primeira parte da argumenta��o no livvro talvez pare�a banal, mas n�o era t�o f�cil de engolir 130 anos atr�s. Observando animais dom�sticos e selvagens, Darwin demonstra que a habilidade de expressar emo��es n�o � algo que torne os humanos especiais, pelo contr�rio: � algo que compartilhamos com todos os outros bichos. A segunda parte do argumento � mais importante. Ela diz que os "movimentos expressivos" tamb�m s�o fruto da evolu��o, ou seja, se consolidaram nas esp�cies ao longo do tempo. Segundo Darwin, o fato de as express�es humanas serem as mesmas entre ingleses e nativos da Polin�sia n�o quer dizer que todos foram "criados iguais", mas sim que s�o descendentes de um mesmo ancestral.


Darwin passou uma d�cada procurando a melhor forma de abordar "o problema do homem". Foram precisos quase vinte anos para que ele desse forma � teoria da evolu��o. No volume de sua correspond�ncia, h� p�ginas fundamentais sobre seu m�todo de trabalho, suas d�vidas e certezas. Em 1844, por exemplo, ele fez suas primeiras confiss�es a um colaborador: "Estou quase convencido de que as esp�cies n�o s�o (isto � como confessar um assassinato) imut�veis". Mas h� muito mais nas cartas: opini�es pol�ticas, relatos de viagem, intimidades. Por meio delas pode-se constatar, por exemplo, o ferrenho antiescravismo de Darwin. No campo das viagens, a mais importante � sem d�vida a que ele empreendeu a bordo do Beagle, um navio que o trouxe aos tr�picos, onde recolheu amostras de flora e fauna e teve os primeiros lampejos da teoria da evolu��o. No trajeto, Darwin passou pelo Brasil. Aportou na Bahia e no Rio de Janeiro e, em 1� de mar�o de 1832, fez uma descri��o de Salvador, deixando-se contaminar pelo esp�rito da terra: "D� vontade de levar uma vida sossegada numa regi�o assim". Um dos aspectos mais curiosos da vida de Darwin foi sua sa�de: ele sofria com misteriosas dores de est�mago, tinha tremores e v�mitos incontrol�veis. As causas dessa doen�a nunca foram esclarecidas, mas a epop�ia estomacal est� toda registrada nas cartas.

O s�culo XX foi pr�digo na derrubada de totens. Karl Marx veio ao ch�o com o Muro de Berlim. Sigmund Freud ficou capenga, pois muitas de suas hip�teses n�o puderam ser comprovadas. Mas Darwin resistiu e resiste aos ataques mais duros. Hoje, a maioria de seus opositores se re�ne sob o r�tulo do criacionismo. Eles continuam defendendo a id�ia de que Deus criou as formas de vida tais como elas s�o. De tempos a tempos, at� obt�m uma vit�ria pol�tica. Em 1999, no Estado americano do Kansas, impediram por lei que a evolu��o fosse ensinada em algumas escolas. Mas, no campo estritamente cient�fico, n�o adianta espernear: a biologia � uma disciplina darwinista. A cada dia surgem novas linhas de estudo ancoradas no darwinismo. Os pesquisadores podem at� discordar em min�cias. Uns dizem que a evolu��o � gradual; outros, que ela ocorre em saltos. Mas um ponto ningu�m p�e em quest�o. E ele � justamente a genialidade de Darwin.

 
Esp�rito animal

Em trechos do livro de 1872, Charles Darwin mostra que a express�o de sentimentos n�o � prerrogativa do g�nero humano, e sim algo comum a v�rias esp�cies. Alguns exemplos

O medo nos c�es
Mesmo o mais fraco dos medos � invariavelmente demonstrado
colocando-se o rabo entre as pernas. Esse gesto � acompanhado
pelo repuxar das orelhas; mas elas n�o s�o coladas contra a cabe�a como quando o c�o rosna e tamb�m n�o s�o abaixadas como quando ele se sente satisfeito e afetuoso.

A afei��o nos gatos
Eles se mant�m em p�, de costas levemente arqueadas, cauda erguida perpendicularmente e orelhas em p�. O desejo de ro�ar-se em alguma coisa � t�o forte nesse estado de esp�rito que eles freq�entemente podem ser vistos ro�ando-se contra p�s de cadeiras e mesas, ou contra batentes de porta.

A f�ria nos cavalos
Os cavalos, quando enfurecidos, jogam suas orelhas para tr�s, projetam a cabe�a e descobrem parcialmente os dentes incisivos, prontos para morder. Quando dispostos a dar coices, geralmente, por h�bito, repuxam as orelhas; e seus olhos voltam-se para tr�s de maneira peculiar.

O prazer nos macacos
Eles mostram os dentes e soltam uma esp�cie de risada. T�o logo sua risada desaparece, uma express�o, que podemos chamar de um sorriso, passa pelo seu rosto. Ou seja, uma express�o de satisfa��o, da mesma natureza que um sorriso incipiente e semelhante �quela tantas vezes vista no rosto do homem, pode ser nitidamente reconhecida nesse animal.
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