Mist�rio no Topo do Mundo Veja 12/05/1999 A descoberta de um corpo congelado no Everest refor�a a d�vida sobre quem conquistou a montanha
De todas as grandes aventuras humanas neste s�culo, nenhuma exerceu tanto fasc�nio e cativou o imagin�rio das pessoas quanto a escalada do Monte Everest, a mais alta montanha da Terra. Durante d�cadas, dezenas de alpinistas e aventureiros tentaram atingir o teto do mundo, at� que, em 1953, o neozeland�s Edmund Hillary e o nepal�s Tenzing Norgay finalmente estenderam as bandeiras da Gr�-Bretanha, da Organiza��o das Na��es Unidas, ONU, da �ndia e do Nepal no topo da imensa montanha branca. Na semana passada, um cad�ver congelado encontrado por uma expedi��o de alpinistas numa reentr�ncia da face norte do Everest refor�ou uma antiga d�vida sobre o feito de Hillary e Tenzing. O corpo � do professor e aventureiro ingl�s George Mallory, desaparecido h� 75 anos junto com seu companheiro Andrew Irvine ap�s deixarem um acampamento a 8.168 metros de altitude. A descoberta pode esclarecer uma s�rie de mist�rios em torno da tr�gica expedi��o de 1924. At� hoje n�o se sabe se Mallory e Irvine morreram antes ou depois de chegar ao topo do Everest.
At� a �ltima quarta-feira, os alpinistas n�o tinham nenhum ind�cio contundente de que Mallory de fato realizou a fa�anha antes de Hillary e Tenzing. Eles ainda se preparavam para novas buscas no local onde est� o corpo, � ca�a da velha m�quina Kodak de metal que o professor carregava ou de algum di�rio da expedi��o. "N�o quer�amos perturb�-lo depois de passar tanto tempo ali, mas achamos que n�o existiria maior tributo do que provar que Mallory foi o primeiro a chegar ao alto da montanha", afirmou o alpinista David Hahn, um dos coordenadores da equipe que localizou o corpo. Na semana passada, sir Edmund Hillary, que aos 79 anos se dedica a obras assistenciais no Himalaia, disse que n�o ficaria surpreso nem triste se descobrissem que Mallory foi mesmo o primeiro a chegar ao Everest. "Seria formid�vel saber que ele atingiu seus objetivos", afirmou.
Para os alpinistas do mundo todo, a simples localiza��o do corpo congelado � um achado fant�stico. "A expedi��o de Mallory � um dos maiores enigmas entre as aventuras do s�culo", avalia o fot�grafo e aventureiro americano Galen Rowell, que em 1983 fracassou na tentativa de chegar ao topo do Everest pela mesma face norte. Um dos mist�rios da expedi��o empreendida por Mallory e Irvine est� no depoimento do ge�logo Noel Odell. Ele disse ter visto os dois pela �ltima vez a 8.604 metros de altitude e apenas 244 metros do cume. Como o corpo de Mallory foi encontrado quase 400 metros abaixo desse ponto, uma possibilidade � de que ele tenha conseguido chegar ao topo do Everest e morrido ao descer. H� outro dado que refor�a essa suspeita. Em 1933, uma pequena picareta, provavelmente de Irvine, foi localizada a 8.461 metros de altitude, 232 acima do local onde estava o corpo congelado de Mallory.
A expedi��o fatal de 1924 foi a terceira tentativa de Mallory para chegar ao topo do Everest pela face norte. Sempre que lhe perguntavam o motivo de tal obsess�o, ele respondia simplesmente: "Quero escalar a montanha porque ela est� l�". Mallory foi encontrado a 619 metros do pico do Everest. Estava com os bra�os abertos e as pernas cruzadas, no que Hahn descreveu como "uma posi��o em que parecia buscar al�vio" para as dores provocadas pelas fraturas que sofreu. A princ�pio, os alpinistas acreditaram tratar-se de Andrew Irvine, mas se surpreenderam ao inspecionar as roupas do cad�ver, que mais parecia uma pedra de gelo. O morto usava casacos de tweed, cal�as de l� e v�rias camadas de camisas e ceroulas. Nos p�s, cal�ava botas de couro adaptadas com pregos na sola. Ao inspecionar o colarinho da camisa, os alpinistas encontraram etiquetas bordadas com a inscri��o "G.L. Mallory", de George Leigh Mallory. Junto ao peito do cad�ver, Hahn e sua equipe acharam um envelope intato, estampado com selos de quase todo o mundo e onde se lia "My dearest George" (Meu querido George). Era uma carta escrita pela mulher de Mallory, Ruth.
Pelo seu desfecho tr�gico, poucas aventuras humanas se comparam � de Mallory e Irvine. Uma delas foi a do explorador Robert Falcon Scott. Em 1910, ele partiu da Inglaterra para a Ant�rtica determinado a ser o primeiro a alcan�ar o P�lo Sul. Levou tren�s motorizados, p�neis e c�es. A expedi��o foi um completo desastre. Scott alcan�ou o p�lo em janeiro de 1912, mas ao chegar l� encontrou a bandeira da Noruega, fincada um m�s antes por Roald Amundsen. Junto havia uma carta em seu nome, escrita pelo noruegu�s. Scott e seus companheiros de viagem morreram dois meses depois tentando sair do continente gelado. Seu corpo foi encontrado numa barraca em dezembro de 1912 com os di�rios da aventura. Foram esses relatos que permitiram a reconstitui��o de sua tr�gica expedi��o. � exatamente algo assim que os alpinistas agora est�o procurando nas encostas do Everest. |