Vexame, Nunca Mais                           Veja 22/11/2000
A b�blia dos manuais de boas maneiras ensina como agir � mesa, em festas e at� enterros


Por muito tempo, etiqueta foi, para a maioria das pessoas, simplesmente assunto de piadas em livros, filmes e novelas. Nos �ltimos anos, por�m, com o aumento da mobilidade social, a prolifera��o das viagens de neg�cios ou o mero desejo de colocar um pouco de glamour na aridez do cotidiano, o panorama mudou. D�vidas sobre quest�es banais, como lidar com a fileira de talheres nos flancos do prato (sempre de fora para dentro), ou detalhes quase inici�ticos (qual a maneira certa de cumprimentar uma senhora no Jap�o? S� uma inclina��o de cabe�a), aproximaram-se da vida real de muita gente. Na busca de uma maior familiaridade com tantos e t�o intrincados mandamentos, os manuais de boas maneiras vieram preencher um promissor nicho do mercado. A pioneira das cartilhas modernas de etiqueta foi a colunista Danuza Le�o, que, em 1992, resolveu p�r modos no Brasil da era Collor com seu livro Na Sala com Danuza, um descontra�do manual de boa conduta, hoje na 40� edi��o, com 200.000 exemplares vendidos. Depois dele, pipocaram dezenas de outros lan�amentos do g�nero. Junta-se a eles, agora, aquele que � considerado a b�blia mundial do assunto: O Livro Completo de Etiqueta de Amy Vanderbilt, um calhama�o de 944 p�ginas que chega nesta semana �s livrarias.

Escrito em 1952 pela socialite americana Amy Vanderbilt, integrante de uma das fam�lias mais ricas do mundo, o livro sofreu v�rias atualiza��es � a �ltima delas em 1995 � e chega pela primeira vez ao Brasil recheado de coment�rios de Carmen Mayrink Veiga, a reciclada decana da sociedade carioca. Algumas regras do livro s�o totalmente dispens�veis para a esmagadora maioria dos brasileiros (embora deliciosas para os adeptos do conhecimento in�til). Coisas como a roupa apropriada para participar da ca�a � raposa, quanto se deve dar de gorjeta a cada funcion�rio do transatl�ntico Queen Elizabeth II e a recomenda��o de que, � aula de dan�a, se comparece em traje passeio completo. Inutilidades como essas, entretanto, v�m acompanhadas de dicas muito pr�ticas sobre vida em fam�lia, recep��es de casamento, rela��es de trabalho, at� enterros (se o caix�o for aberto, vista o morto com um bom terno; se for fechado, um pijama resolve a quest�o). O manual tamb�m ensina, claro, a se portar num jantar cerimonioso. Colocou na boca algo imposs�vel de mastigar? Tire com a ajuda do garfo, deposite no prato e cubra com um peda�o de alface. Se derramar o vinho e quebrar a ta�a, seque a mesa com seu guardanapo e, no dia seguinte, d� uma ta�a nova de presente � anfitri�.

Cordiais demais � S�o dicas �teis que facilitam a vida de pessoas que precisam aprender os c�digos de comportamento de variados c�rculos sociais. Tampouco � coisa s� de mulheres, e daquelas bem f�teis, como poderiam pensar os preconceituosos. Suzana Doblinski, que d� aula de etiqueta empresarial em S�o Paulo e nos �ltimos quatro anos formou cerca de 3.500 executivos de grandes empresas, sabe que isso � assunto s�rio. "O comportamento � mesa � o que mais gera d�vidas", diz ela, que opina at� no visual de sua clientela, 90% masculina. Homens de neg�cios, hoje, viajam muito para o exterior, fazem transa��es com empresas estrangeiras estabelecidas no Brasil e precisam saber as regras de comportamento em v�rios lugares do mundo. "Pior que n�o saber manusear os talheres � falar coisas desagrad�veis, como ficar criticando algu�m que est� comendo carne vermelha", diz Claudia Matarazzo, autora de seis livros de etiqueta, com 200.000 exemplares vendidos, e titular de um quadro semanal sobre o assunto no programa Mais Voc�, da Rede Globo.

O embaixador Augusto Estellita Lins, autor do livro Etiqueta, Cerimonial e Protocolo, afirma que o cerimonial � uma arma pol�tica que pode trazer muitos �xitos para um pa�s. "Ou fracassos", alerta. Cita como exemplo a malograda candidatura do Rio de Janeiro para sediar as Olimp�adas de 2004. "O Comit� Ol�mpico Internacional tem protocolos muito rigorosos. Uns dez membros do COI s�o da alta aristocracia europ�ia. Quando visitaram o Rio, os brasileiros, que s�o muito cordiais, foram logo abra�ando, segurando pelo bra�o. Isso atrapalhou bastante. Com esse pessoal � preciso manter uma dist�ncia de meio metro, pelo menos", diz o embaixador, que tamb�m d� aula para empres�rios e pol�ticos em Bras�lia e � contratado at� por prefeituras do interior que querem evitar vexames no trato com executivos estrangeiros.

Protocolo hora a hora � As novelas de televis�o t�m sua parcela de responsabilidade nessa onda de gosto pela etiqueta. Personagens ricos e sofisticados vivem encantando o populacho com preceitos de boas maneiras. O campe�o do g�nero � o novelista Gilberto Braga, criador da empolada Odete Roitman, vivida por Beatriz Segall, que em cena inesquec�vel de Vale Tudo estra�alhou uma convic��o generalizada dos brasileiros ao ensinar � ambiciosa Maria de F�tima (Gloria Pires) que a dona da casa n�o deve servir �gua �s visitas com um pires sob o copo � s� as empregadas dom�sticas o fazem. Em O Dono do Mundo, o casal de novos-ricos formado por Cl�udio Correa e Castro e Beatriz Lyra chegou a fazer um curso informal de etiqueta com a "amiga Zoraide", interpretada por Jacqueline Laurence. J� em Torre de Babel, novela de 1998, o autor Silvio de Abreu fez sua personagem Sandrinha, pilantra interpretada por Adriana Esteves, passar a faca numa salada de alface para mostrar que aquilo n�o se faz. O certo, a personagem aprendeu, � com o garfo e a faca ir dobrando a alface at� fazer uma trouxinha. Trabalhoso, n�o �? Pois, depois de aprender, d� para dispensar. "Isso j� era. Hoje em dia, eu corto a salada com a maior tranq�ilidade", diz Carmen Mayrink Veiga. "Para que perder meia hora dobrando uma folhinha de alface?"

De fato, regras do g�nero parecem ter sido feitas para ser quebradas. Mas, para quebr�-las, � preciso antes conhec�-las. C�digos de conduta existem desde que o mundo � mundo e ajudam a tornar a vida em sociedade mais cordial, civilizada � e esnobe, tamb�m. A etiqueta alcan�ou seu ponto m�ximo na corte francesa do rei Lu�s XIV, no s�culo XVII. Lu�s XIV ampliou o protocolo da corte, antes restrito a cerim�nias solenes, a todas as horas do dia, do despertar � hora de ir dormir. Foi nessa �poca que surgiu o h�bito de dividir a refei��o em pratos sucessivos � primeiro a sopa, depois o peixe, ent�o a ave, a carne e a sobremesa. Diferentes talheres para diferentes pratos tamb�m come�aram a surgir a�. Tudo isso real�ava o fosso entre a nobreza e a patul�ia. Ou seja, a etiqueta, como a crase, acabava existindo para humilhar os ignorantes de seus segredos. "O luxo e a etiqueta exagerados hoje s�o um insulto, um deboche", resume o embaixador Estellita Lins. "As regras de etiqueta mudam muito, s�o flex�veis. E � bom que seja assim", afirma a colunista Danuza Le�o, que, em caso de d�vida, recomenda a boa e b�sica sa�da: "Use o bom senso". Esta, sim, uma regra fundamental.

 
R�pido manual de sobreviv�ncia

Algumas regras de etiqueta mudam, outras continuam as mesmas. Exemplos da conviv�ncia social moderna:

Exceto em casos de parentesco ou extrema intimidade, nunca pe�a para levar algu�m junto a uma festa ou jantar. Se estiver namorando e o anfitri�o n�o souber, insinue e aguarde o convite ampliado. E jamais leve acompanhante inesperado.

O homem paga a conta no primeiro encontro. "Se ela insistir para dividir, n�o aceite", aconselha a consultora de etiqueta Claudia Matarazzo. "� um teste." Depois da primeira vez, siga a sensibilidade. Nos compromissos profissionais, quem paga � quem convida.

Em compensa��o, n�o � mais obrigatoriamente o pai da noiva quem paga a festa de casamento. As duas fam�lias podem e devem dividir as despesas.

Em festa de casamento ou anivers�rio, o convidado que n�o pode ir, e avisa, n�o tem obriga��o de mandar presente.

Perguntas que ficam na ponta da l�ngua, mas continuam proibid�ssimas:

� Quanto custou?

� � verdadeiro ou bijuteria?

� � seu pai? Seu filho? Ah, seu marido?

� Est� gr�vida? Ah, n�o, s� engordou um pouquinho, n�?

J� cirurgia pl�stica n�o � mais tabu. Quem fez quer que voc� perceba a diferen�a. Mas s� elogie se tiver ficado melhor. Caso contr�rio, finja que n�o percebeu.

Nunca aborde uma pessoa que n�o v� h� muito tempo com o aterrorizante: "Lembra-se de mim?" Muito possivelmente, a pessoa n�o se lembra. O certo: "Sou fulano de tal, trabalhamos juntos em tal lugar. Como vai?"

Grandes trag�dias exigem rea��o r�pida. Se o casamento foi cancelado na �ltima hora, comunique aos convidados, por escrito, sem obviamente dizer o motivo. Aten��o: todos os presentes t�m de ser devolvidos (menos os simplesinhos, do ch� de cozinha).

Telefonar ou escrever um cart�o para agradecer depois de ir a uma festa � prova de cordialidade que os brasileiros costumam atropelar, mas continua valendo. Os anfitri�es adoram.

De uma vez por todas: se houver v�rios talheres junto ao prato, eles ser�o usados de fora para dentro, � medida que os pratos forem sendo servidos. E faca � s� para cortar. Para juntar alimentos, nunca.
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