Mergulho no Abismo                         Veja 09/12/1998
Nas profundezas do oceano, onde a luz do sol nunca chega, os petroleiros se arriscam na profiss�o mais perigosa do mundo

A Bacia de Campos, o maior campo petrol�fero brasileiro, no litoral norte do Rio de Janeiro, produz quase 800.000 barris por dia, 60% da produ��o nacional. Por tr�s desses n�meros h� uma hist�ria de aventura que se repete todos os dias nas profundezas do oceano, em lugares habitados por criaturas estranhas e onde a luz do sol nunca chega. Ali, um grupo de homens metidos em macac�es de neoprene negro, com 8 mil�metros de espessura, filamentos de �gua quente correndo pelo revestimento, arrisca a vida fazendo a manuten��o dos tubos e sondas que levam petr�leo � superf�cie. S�o os ninjas do mar. Eles comp�em uma comunidade de 257 mergulhadores que trabalha n�o s� na Bacia de Campos, mas em plataformas da Petrobras espalhadas por todo o litoral brasileiro, da foz do Rio Amazonas ao Rio Grande do Sul. � uma profiss�o que a Organiza��o das Na��es Unidas classifica como a mais perigosa do mundo. No mergulho mais profundo, um deles chegou a 326 metros, o recorde mundial.

A plataforma semi-submers�vel P-18 � uma ilha de ferro plantada na Bacia de Campos. Sozinha, � capaz de produzir 110.000 barris di�rios de petr�leo � o equivalente � carga de 636 carretas-tanque alinhadas numa fila de 16 quil�metros. Ali, nos dias de mergulho, os ninjas do mar passam pela expectativa e cuidados semelhantes aos dos astronautas na v�spera de um v�o espacial. A contagem regressiva come�a 72 horas antes da viagem ao abismo. Na cabine de comando, o "livro negro" de cada um � examinado. S�o anota��es dos �ltimos mergulhos, per�odos de repouso obrigat�rios e autoriza��o de um m�dico especialista para novas incurs�es nas profundezas. Os exames de sa�de s�o refeitos a bordo. Meticulosamente, s�o repassadas todas as tarefas a serem cumpridas no imenso e sombrio mundo submarino, prazos e delimita��o de responsabilidades. Imprevistos s�o simulados nos computadores. Tudo � registrado em ata assinada por todos. "Nenhum desses dias � como os outros", frisa o comandante M�rcio Bonif�cio da Silva, 37 anos, dezenove de Petrobras.

Press�o descomunal � A partir da P-18, os mergulhadores se preparam para atingir 200 metros abaixo do n�vel do mar. A primeira etapa do mergulho come�a na c�mara hiperb�rica, uma caixa met�lica do tamanho de um cont�iner, com beliches para seis pessoas e banheiro, onde os profissionais ficam encarcerados pelo menos dois dias respirando uma mistura de h�lio com oxig�nio. Durante esse per�odo, a c�mara tem a press�o interna gradualmente igualada �s condi��es em que os mergulhadores viver�o no fundo do mar. Essa adapta��o � vital para assegurar a sobreviv�ncia deles. Uma pessoa que tentasse mergulhar, sem passar pela c�mara hiperb�rica, teria o corpo esmagado, como um hamb�rguer, antes de chegar ao fundo. A 200 metros, a press�o � descomunal, 21 vezes mais alta do que a da superf�cie. T�o grande que cada cent�metro quadrado do corpo do mergulhador recebe o peso de 21 quilos. Outra fun��o da adapta��o � fazer o mergulhador inalar h�lio, no lugar do nitrog�nio que normalmente se respira junto com o oxig�nio na superf�cie. O objetivo � evitar a narcose, uma sensa��o de embriaguez que ataca todo mergulhador al�m dos 35 metros de profundidade. "� uma sensa��o de pileque que pode provocar loucuras, como o mergulhador tirar o equipamento de respira��o por se considerar peixe", conta Ant�nio C�sar de Andrade, 36 anos, desde 1981 debaixo d'�gua. O h�lio tamb�m evita a forma��o de bolhas de ar na corrente sangu�nea, capazes de provocar aneurismas, quase sempre fatais.

"Adaptada" com h�lio e oxig�nio nos pulm�es, a primeira dupla de mergulhadores se transfere para uma c�psula esf�rica, denominada sino, pesando 6 toneladas, semelhante �s primeiras c�psulas espaciais. O sino inicia lentamente a descida at� a profundidade combinada. L�, a escotilha � aberta pelo "bellman" � o mergulhador que fica de prontid�o na c�psula para qualquer emerg�ncia. O aquanauta � como os mergulhadores gostam de ser chamados � sai a campo para mais uma miss�o. "Com soldadores ou instrumentos eletr�nicos realizamos desde a manuten��o dos dutos at� experi�ncias cient�ficas", explica o bi�logo Andr� Luiz Nicolau, de 39 anos. Com as imagens captadas por c�maras instaladas nos capacetes de mergulho, os t�cnicos da plataforma descobrem problemas que geralmente n�o podem ser detectados pelos computadores na superf�cie. "Com os olhos deles enxergamos o fundo do mar", afirma o comandante M�rcio da Silva.

Gororoba espumante � A 200 metros de profundidade o mergulhador n�o pode ultrapassar mais de seis horas trabalhando ininterruptamente fora da c�psula. Al�m da press�o, violentas correntes submarinas, similares �s corredeiras de um rio encachoeirado, fustigam os profissionais. �s vezes, eles s�o obrigados a se amarrar a cabos para se manter na �rea do trabalho. Terminado o turno nas profundezas, a primeira dupla volta � c�mara hiperb�rica, estacionada no conv�s da plataforma, mas n�o pode sair de l�. Os her�is tomam banho, trocam o traje inc�modo por uma bermuda e ficam ali por quinze dias, pelo menos. "Ligamos a televis�o, porque ningu�m � de ferro", brincam. Esse per�odo de readapta��o � mais longo que o da descida e n�o pode ser interrompido por nada. O mergulhador tem de ser despressurizado lentamente. Caso contr�rio, literalmente explode ao chegar � superf�cie. Nenhuma emerg�ncia o tira da c�mara. Uma vez, em 1993, um m�dico foi pressurizado e entrou para tratar uma fratura exposta de um mergulhador que n�o podia sair de l�. O m�dico Ricardo Viv�cqua atendeu Lu�s Acioly, v�tima de um acidente a 210 metros de profundidade. Na Bacia de Campos, em 22 anos, 155 mergulhadores acidentaram-se. Trinta morreram e dezessete foram afastados permanentemente da atividade.

Na superf�cie, tamb�m se correm riscos. Na plataforma, al�m de petr�leo s�o produzidos milh�es de metros c�bicos de g�s. Viver ali � sempre um perigo. Os tripulantes parecem sublimar, apesar dos constantes exerc�cios de emerg�ncia e abandono da plataforma, mas vive-se numa bomba flutuante. Um curto-circuito pode levar tudo pelos ares. Mas os cuidados maiores s�o mesmo com os mergulhadores. Na P-18, onde trabalham cerca de 130 pessoas em turnos de quinze dias, a primeira refei��o que sai da cozinha vai sempre para os rapazes enclausurados na c�mara hiperb�rica. Como os reis antigamente, eles t�m sua comida provada antes por um supervisor. N�o pode haver o menor risco de intoxica��o. Muitas frutas acompanham a macarronada, o prato de resist�ncia. Na c�mara, devido ao h�lio, um suco de laranja vira uma gororoba espumante e amarga. O consumo de a��car � aumentado. O supervisor do mergulho, com forma��o param�dica, monitora batimento card�aco, press�o e colhe informa��es sobre o estado geral da equipe. "A margem para imprevistos tem de ficar perto de zero", enfatiza Nicolau que, em seus quinze anos de mergulho, jamais passou por um susto. Enquanto a primeira dupla se refaz, h� sempre outra descendo �s profundezas.

Envelhecimento precoce � O Brasil � recordista mundial na explora��o de petr�leo em �guas profundas. Dos 14 bilh�es de barris das atuais reservas brasileiras, 35% situam-se em profundidades al�m de 1 000 metros. Na virada do ano, os mergulhadores seguir�o para o campo de Roncador, vizinho ao campo de Marlim, onde fica a P-18. � o campo mais profundo do mundo, com reservas j� comprovadas de 422 milh�es de barris, localizadas a 1.850 metros abaixo do n�vel do mar. Nunca ningu�m buscou �leo t�o longe da superf�cie. L�, no in�cio do ano que vem, ser� instalada uma plataforma com capacidade para processar 180 000 barris di�rios. � um novo desafio para esses homens de negro, marcados por algumas seq�elas da profiss�o � envelhecimento precoce, flacidez muscular e propens�o � osteoporose.

Os mergulhadores ganham sal�rios mensais entre 3 000 e 4 000 reais. O n�mero de mergulhadores de profundidade profissionais, no entanto, est� diminuindo. Segundo a soci�loga Sung Sim Kim, que concluiu tese de mestrado sobre os mergulhadores na ind�stria do petr�leo, na d�cada de 80 eles eram mais de 1 000 e hoje n�o passam de 300. A redu��o n�o � por falta de corajosos dispostos a arriscar-se pela profiss�o. "Como as novas reservas de petr�leo descobertas ocorrem em locais cada vez mais profundos, os homens est�o sendo substitu�dos por rob�s", observa a soci�loga. Mas o trabalho dos ninjas do mar ainda � imprescind�vel.
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