Lembre-se: � ele quem manda Veja 20/12/2000 Uma lista de cuidados que podem ser �teis no instante do assalto
Na ter�a-feira da semana passada, a pol�cia paulista reconstituiu o assassinato de uma dona-de-casa, Alexandra Muggia Salem, 44 anos, executada a tiros diante da filha, de 16. No dia 9 de novembro, elas foram abordadas por uma dupla de bandidos quando trafegavam de carro numa avenida de grande movimento de S�o Paulo. Um dos marginais, Alexandre Marcelo dos Reis, apontou o rev�lver contra a cabe�a de Alexandra e anunciou o assalto. Assustada, Alexandra acelerou o ve�culo. O erro lhe custou a vida. Preso, Reis contou aos policiais que sempre atira quando n�o cumprem suas ordens. Portanto, � preciso levar a s�rio a frase que aparece no t�tulo desta reportagem. Para ajudar, existem conselhos pr�ticos � e alguns dos melhores foram reunidos pela psic�loga carioca Marilda Lipp, pioneira no Brasil em pesquisas e tratamento do stress. Assaltada, h� onze anos, Marilda ministra palestras em que fornece um roteiro a quem tiver a infelicidade de ficar sob a mira da arma de um bandido.
Seu trabalho � bom porque n�o integra o universo do achismo, aquele desprez�vel ramo da ci�ncia ligado � especula��o pura e simples. Ela entrevistou bandidos, policiais e v�timas para entender o que se passa na cabe�a das pessoas. Uma vers�o resumida dos resultados do estudo pode ser conferida no quadro ao lado. "Tanto um lado quanto o outro t�m apenas um segundo para tomar a decis�o e isso multiplica a probabilidade de erro", diz Marilda, que estudou dezesseis anos nos EUA, onde obteve doutorado em psicologia pela Universidade George Washington e p�s-doutorado em stress social no National Institute of Health. Numa escala de stress que vai de 1 a 10, o assalto levaria uma nota 9, ficando atr�s apenas de eventos como a morte de parente em condi��es muito pr�ximas e tr�gicas. E esse n�vel de tens�o � vivido pelos dois lados envolvidos � v�tima e marginal. "O n�vel de stress alcan�ado pelo assaltante pode ser equivalente ao da v�tima ou ainda maior", compara Marilda Lipp. Quem n�o controla a pr�pria ansiedade numa situa��o de risco como essa pode irritar o assaltante, que acaba atirando. A maioria das pessoas j� pensou sobre como se portar durante um assalto. O que os especialistas percebem, no entanto, � que, no momento do ataque, a v�tima comete erros inadmiss�veis como o de Alexandra.
As pessoas que moram em uma metr�pole brasileira convivem com a possibilidade concreta de ser alvo de um ataque. Entre os habitantes das grandes cidades, quem n�o possui um parente, amigo ou colega de trabalho que j� esteve sob a amea�a de um rev�lver na cabe�a? Os casos de assalto a m�o armada tornaram-se banais. De acordo com os �ltimos dados, o n�mero de assassinatos por ano no pa�s supera sozinho a soma dos homic�dios ocorridos anualmente nos Estados Unidos, no Canad�, na It�lia, no Jap�o, na Austr�lia. Para evitar o risco de assalto, um quarto dos moradores das capitais mudou o trajeto at� a escola ou at� o trabalho para se esquivar do contato com ladr�es, um ter�o n�o circula por ruas que consideram perigosas e metade dos moradores das capitais evita sair � noite. O pavor fez com que o Brasil se tornasse o terceiro maior mercado de carros blindados do mundo. Perde apenas para a Col�mbia e o M�xico. Tr�s anos atr�s, havia dez empresas de blindagem. Atualmente, s�o cinq�enta.
Segundo Marilda Lipp, autora de oito livros sobre o tema do stress, s� quem j� viveu a experi�ncia de ter um rev�lver apontado em sua dire��o conhece a dimens�o do p�nico que toma conta do indiv�duo naquele momento. Diante da percep��o de perigo, o c�rebro ordena a produ��o de uma dose extra de adrenalina, o horm�nio das emo��es fortes. Come�a a� uma rea��o em cadeia: o cora��o dispara, a respira��o se acelera, os m�sculos se retesam. Em poucos segundos, o corpo est� preparado para uma entre duas rea��es: lutar ou fugir. Manda o bom senso, no entanto, que ao menos nesse caso a sabedoria da natureza seja subvertida. "Quem se comporta adequadamente durante o assalto reduz a praticamente zero o risco de um final tr�gico", assegura o delegado Darci Sassi, que ajudou a psic�loga na fase de coleta de dados, com base em trinta anos de viv�ncia nas ruas da capital paulista.
Marilda classifica os marginais em dois tipos b�sicos: o ladr�o eventual e o assaltante profissional. Cada um deles possui caracter�sticas espec�ficas e adota comportamento pr�prio. O tipo eventual � mais jovem e impulsivo, tem menos experi�ncia, n�o planeja a a��o nem v� com precis�o o que quer da v�tima. O profissional programa sua iniciativa, tem no��o clara do que pretende com o golpe e est� mais preparado para a dura��o prolongada do epis�dio. O eventual marca-se pela incerteza, o profissional, pela seguran�a na investida. "O bandido eventual � como uma crian�a que esperneia porque n�o ganhou o que queria", afirma Marilda. "O profissional comporta-se como se estivesse diante de uma transa��o comercial, dando algum espa�o para negocia��o", explica a psic�loga. Essa � a teoria. Na pr�tica, ambos querem que a v�tima fique parada, � espera das ordens. E que lhes obede�a calmamente, pedindo permiss�o para realizar cada movimento. |