| Lavanderia Suriname Veja 19/08/1998 Um ex-presidente � procurado por tr�fico. O chefe da PM j� foi condenado. O do banco central est� envolvido Entre os vizinhos do Brasil no mapa da Am�rica do Sul, o Suriname sempre foi um dos menos conhecidos e mais pobres. Nos �ltimos anos, esse pequeno pa�s se transformou num enorme problema. Seduzido pelo dinheiro f�cil dos narcod�lares, o Suriname converteu-se no principal porto de envio da coca�na colombiana para a Europa. O rastro de p� j� atinge o homem forte do pa�s, Desi Bouterse, conselheiro de Estado, ex-presidente da Rep�blica e presidente do partido que tem a maioria no Congresso. Ele � r�u de um processo na Holanda por tr�fico de entorpecentes, lavagem de dinheiro e forma��o de quadrilha. H� um ano Bouterse vem driblando um mandado de pris�o preventiva expedido pela Interpol. Nas �ltimas semanas, a principal atividade do governo surinam�s foi procurar desculpas para adiar a visita ao pa�s de uma comitiva de ju�zes holandeses. Respons�veis pela condu��o da investiga��o, eles desembarcariam no in�cio de setembro para interrogar Bouterse. Mas, apelando para tecnicismos processuais, o governo conseguiu postergar a audi�ncia. Bouterse � o procurado mais famoso pela pol�cia internacional, mas a mancha do p� se espalha por todo o governo surinam�s. No mesmo processo figura como r�u ningu�m menos que o presidente do Banco Central, Henk Goedschalk, acusado de lavagem de dinheiro. Outro figur�o envolvido com o narcotr�fico � Etienne Boerenveen, um dos cinco membros do conselho militar que dirigia o pa�s na d�cada de 80. Em 1986, depois de uma investiga��o que durou cinco meses, dois agentes federais americanos disfar�ados de traficantes se encontraram com ele num hotel em Miami. Com um gravador escondido, registraram uma proposta indecente: Boerenveen permitiria o pouso e a decolagem de avi�es de coca�na vindos da Col�mbia rumo aos Estados Unidos desde que recebesse 1 milh�o de d�lares por carregamento. "Falo em nome dos mais altos escal�es do governo", vangloriou-se. Boerenveen, que na �poca era o capit�o, foi condenado a doze anos de cadeia, cumpriu cinco e foi deportado. De volta ao Suriname, foi recebido no aeroporto por Bouterse, promovido a comandante e hoje chefia a PM, que no pa�s � respons�vel pela alf�ndega e pela vigil�ncia de fronteira. Capital das Mercedes � Pouco maior que o Cear�, o Suriname tem uma popula��o equivalente � da cidade de Feira de Santana, na Bahia, e um produto interno bruto (PIB) menor que o faturamento da TAM ou da cervejaria Antarctica (veja quadro ao lado). Ex-col�nia da Holanda que ganhou independ�ncia em 1975, sempre foi um pa�s problem�tico. Nos s�culos XVII e XVIII, seu litoral era um dos esconderijos favoritos dos piratas que atacavam no Caribe. Depois, transformou-se num entreposto do contrabando. Nos �ltimos anos, a vida do pa�s passou a girar cada vez mais em torno da droga. Calcula-se que pelo Suriname passem hoje 60% dos carregamentos de coca�na que chegam � Holanda, principal porta de entrada do p� na Europa. Segundo os relat�rios do Departamento de Estado dos Estados Unidos, parte da droga vem da Col�mbia de avi�o para ser descarregada em pistas clandestinas constru�das nos arredores da capital, Paramaribo. Outro tanto � trazido por traficantes brasileiros, de barco. A droga atravessa o Atl�ntico em navios que carregam peixe congelado, camar�o ou banana. Em Paramaribo, uma cidade miser�vel, n�o � dif�cil deparar com os sinais de uma riqueza que parece fora do lugar. Nas ruas, a maior parte da popula��o anda de bicicleta. O principal transporte para o interior s�o caminh�es com bancos de madeira pregados � ca�amba, no estilo dos paus-de-arara nordestinos. Em meio a esse tr�nsito indigente, por�m, circulam carros de luxo. "Essa deve ser a cidade do mundo com o maior n�mero de Mercedes-Benz por habitante", ironiza um diplomata holand�s. As ag�ncias internacionais de combate ao tr�fico identificaram nos �ltimos anos esquemas que usavam supermercados, restaurantes, financeiras que operam esquemas de "pir�mide" e at� times de futebol para lavar dinheiro. Agora se segue a pista dos cassinos. Dois anos atr�s havia apenas um no pa�s. Um segundo foi aberto recentemente e h� outros tr�s em constru��o. Parece jogatina demais para um pa�s que atrai 45.000 visitantes por ano, dos quais apenas 15.000 em viagem de turismo. Economia da droga � Quando Bouterse, o homem forte do Suriname, esteve no poder pela primeira vez, depois de um golpe militar, as acusa��es que pesavam sobre ele estavam no campo dos direitos humanos. Ele era acusado da morte de quinze l�deres da oposi��o, num massacre do qual teria participado pessoalmente, em 1982. O prontu�rio do ex-ditador na divis�o de entorpecentes foi aberto h� quatro anos, quando promotores holandeses, investigando uma quadrilha que transportou 4 toneladas de coca�na para a Europa, trombaram com os nomes de oficiais do Ex�rcito surinam�s. Embora o processo corra em segredo de Justi�a, sabe-se que alguns traficantes entregaram os chefes em troca de prote��o. "Obtivemos testemunhos muito consistentes contra o senhor Bouterse", disse o chefe do Minist�rio P�blico holand�s, Arthur van Leeuwen. Pela lei, o ex-ditador pode ser condenado a dezesseis anos de cadeia. O dif�cil ser� chegar at� ele. Quando a Interpol concedeu o mandado de pris�o contra Bouterse, ele estava no Brasil. O governo holand�s n�o quis notificar as autoridades, temendo que a extradi��o n�o fosse concedida. Bouterse ent�o retornou a seu pa�s, de onde n�o saiu durante quase um ano. No m�s passado, finalmente arriscou um pulinho no vizinho caribenho Trinidad e Tobago. Os promotores holandeses encaminharam um pedido ao governo de Trinidad, mas ele foi rejeitado sob o argumento de que os pa�ses n�o possuem acordo de extradi��o. Bouterse voltou � p�tria para ser recebido como her�i. "Esse processo n�o pode ser levado a s�rio", diz o ministro em exerc�cio das Rela��es Exteriores do Suriname, Erroll Alibux. "A acusa��o tem motiva��es puramente pol�ticas, porque a Holanda quer continuar mandando no pa�s." O ir�nico nessa confus�o � que Bouterse j� foi preso no Brasil, em 1988. O motivo, ent�o, era mais prosaico. Quando andava pelo centro de S�o Paulo com um grupo de seguran�as armados e uma bolsa cheia de dinheiro, o ex-ditador foi considerado "suspeito" por um grupo de PMs. Os policiais renderam o grupo, espancaram os seguran�as e levaram a comitiva � delegacia. Tudo se encerrou com um pedido de desculpa do Itamaraty. A coca�na, para os surinameses, � uma das poucas maneiras de fazer dinheiro num pa�s em que o desemprego � pr�ximo dos 20% e a renda per capita caiu de 3.000 d�lares anuais para cerca de 800 d�lares, desde a independ�ncia, em 1975. Naquela �poca, a Holanda comprometeu-se a investir 1,6 bilh�o de d�lares em projetos de infra-estrutura no pa�s, at� que ele pudesse caminhar com as pr�prias pernas. Falta entregar cerca de 10% do dinheiro, mas o Suriname ainda n�o sabe como se virar sozinho. Do or�amento do governo, 20% da receita corresponde � ajuda holandesa. A atividade econ�mica que mais absorve m�o-de-obra � o funcionalismo p�blico. O Estado emprega 40.000 pessoas � um em cada onze habitantes do pa�s. A pen�ria nos cofres do governo � t�o grande que o Pal�cio Presidencial, em reforma, teve suas obras paralisadas por falta de verba. A linha a�rea estatal, a Surinam Airways, s� tem um avi�o de passageiros para lig�-la aos pa�ses vizinhos � o outro foi encostado por problemas t�cnicos. A �nica rota da companhia, feita tr�s vezes por semana, liga Paramaribo a Caiena, na Guiana Francesa, e Bel�m, no Par�. Com a economia ruindo e a pol�tica de uma rep�blica de bananas, n�o � de se estranhar que quase a metade da popula��o do Suriname tenha abandonado o pa�s. Como tinham o direito de optar pela cidadania holandesa, 300.000 pessoas foram tentar a vida na Europa depois da independ�ncia. Um dos motivos para o caos reinante no pa�s � a confus�o �tnica. A popula��o � formada por dezenas de grupos de origens diferentes, cujo �nico ponto em comum � a l�ngua oficial, o holand�s. Os negros, descendentes de escravos, em sua maioria cat�licos, comp�em um ter�o da popula��o. Entre eles, h� uma minoria de "bushnegroes" ("negros da floresta"), remanescentes de quilombos, que ainda vivem no interior como se estivessem em aldeias africanas. Outro ter�o descende de hindus e paquistaneses, divididos em grupos religiosos que n�o se d�o l� muito bem. O terceiro grande grupo � formado por javaneses e chineses, que vieram ocupar-se do com�rcio. Existem ainda coreanos, libaneses, brasileiros e colombianos. Os grupos dividem as cal�adas, mas n�o se misturam na sala de estar. "H� conviv�ncia, mas n�o integra��o", admite Desi Truideman, diretor do Centro Cultural do Suriname. As fam�lias hindus n�o permitem que seus filhos se casem com negros. Os mu�ulmanos n�o aceitam casamentos com gente de outras religi�es. Os chineses s� se relacionam com as outras comunidades no com�rcio. Mil�cias particulares � O pa�s parece mais um entreposto comercial do que uma na��o. Boa parte dele � terra de ningu�m. No centro de Paramaribo, as lojas t�m grades separando os clientes dos balconistas, para evitar roubos. A pol�cia � escassa, e os moradores se defendem como podem. "Decidimos criar nossa pr�pria pol�cia porque havia muitos crimes aqui", explica Kenneth Tjon-Kon-Fat, dono de um restaurante ao norte da capital. Kenneth e um grupo de comerciantes fizeram uma coleta de dinheiro, compraram viaturas e armas e montaram uma mil�cia com 31 volunt�rios que patrulham a regi�o � noite de escopetas em punho. No interior do pa�s a situa��o � pior. As autoridades aconselham que n�o se viaje sozinho pelas estradas, porque h� muitos bandoleiros. � no interior, tamb�m, que est� o grupo de imigrantes que mais cresce, o dos brasileiros. Calcula-se que 15.000 garimpeiros do Brasil tenham invadido o Suriname nos �ltimos anos. O pa�s � dos �ltimos locais do continente onde ainda se pode tirar ouro sem grande investimento nem tecnologia avan�ada. Animado com a corrida, o governo criou um imposto de 38% sobre o lucro das vendas do ouro. A medida s� fez crescer o contrabando, feito em barcos de chineses e brasileiros que atracam �s escondidas no litoral. Como um elo da economia informal acaba puxando outro, cerca de 200 brasileiras migraram para trabalhar como prostitutas nas casas noturnas de Paramaribo. Algumas terminam recrutadas pelo tr�fico para transportar remessas de coca�na at� Amsterd�. O julgamento do ex-ditador Bouterse, segundo a Justi�a holandesa, deve acontecer at� o final do ano. Provavelmente � revelia, j� que as autoridades acham improv�vel conseguir prend�-lo. Resta saber se o resultado poder� frear a corrente da ilegalidade na Lavanderia Suriname. |
| Acontece |
| Passagens do Cotidiano Fatos, contos e cr�nicas da rotina di�ria |
| . |
| . |
![]() |
![]() |
| A pousada na reserva florestal de Campos do Jord�o |
| N�o existe oferta melhor na est�ncia mais alta do Brasil! Conforto e sossego a apenas 4,5 km do centro! |
| Venha desfrutar de um ver�o refrescante, onde as temperaturas jamais excedem a 23 graus! |
| Fa�a um tour fotogr�fico pela pousada clicando aqui |