| Escravos da M�quina Veja 01/07/1998 A experi�ncia de um jornalista brasileiro como trabalhador estrangeiro no Jap�o Os brasileiros que trabalham no Jap�o t�m uma oportunidade de ouro. Ganham sal�rio de japon�s � isto �, dinheiro gordo de oper�rio do Primeir�ssimo Mundo �, t�m � disposi��o, a pre�o de banana, toda a parafern�lia eletr�nica de �ltima gera��o e experimentam o gosto do capitalismo avan�ado, com todas as suas vantagens. Certo? Apenas em termos, e bem relativos. A vida de um trabalhador brasileiro no Jap�o nada tem de confort�vel ou pr�spera. O dia-a-dia nas f�bricas � pesado, repetitivo e autorit�rio. O relacionamento com os japoneses � quase sempre formal e restrito ao local de trabalho. A maioria dos dekasseguis, como s�o chamados os trabalhadores estrangeiros, s� se atreve a gastar essencial, guardando o dinheiro suado para o dia de voltar para casa. Nem luxo, nem eletr�nicos, nem lazer. S� poupan�a. O que os faz levantar cada manh� para um novo dia de trabalho nesse ambiente hostil, de autoritarismo e discrimina��o social, � o sonho de abrir um neg�cio por conta pr�pria ou a casa nova que pretendem comprar no Brasil. Vale a pena tanto sacrif�cio? Talvez tenha valido quando a prosperidade nip�nica causava inveja e se podia dobrar o sal�rio com horas extras. A situa��o mudou nos �ltimos tr�s anos. A recess�o fez minguar a oferta de empregos e praticamente acabou com as horas extras. A procura por trabalhadores estrangeiros caiu 80% desde mar�o. Os sal�rios, que chegavam facilmente a 5.000 d�lares mensais, desabaram para menos de 3.000 � pouco, num pa�s onde se paga 1 d�lar por uma laranja. Pior ainda, ganha-se em ienes, moeda que n�o p�ra de se desvalorizar diante do d�lar. A sa�da em massa rumo ao Jap�o tomou impulso na virada da d�cada, quando se vivia no Brasil um per�odo de grande desesperan�a. Hoje h� 220.000 brasileiros, quase todos descendentes de imigrantes japoneses, suando o macac�o na terra do sol nascente. No meu caso, vesti o macac�o por curiosidade e, um pouco, por nostalgia. Tinha trabalhado tr�s meses como jornalista em T�quio em 1993. Andei de trem-bala, fui a recep��es do embaixador brasileiro, comi sushi at� me fartar. Em abril do ano passado estava de volta ao Aeroporto de Narita, aos 53 anos, desta vez para trabalhar como oper�rio. Filho de um japon�s que chegou no colo dos pais ao Brasil e de uma nissei, meu vocabul�rio em japon�s n�o alcan�ava 100 palavras. Por sorte, paguei a passagem do pr�prio bolso e levei algum dinheiro extra. A maioria dos dekasseguis passa meses reembolsando o custo da viagem e afunda num esquema diab�lico de vales com a empreiteira de m�o-de-obra � s�o elas que recrutam os trabalhadores no Brasil e providenciam emprego e alojamento no Jap�o. Tudo tem um pre�o, evidentemente. G�s, luz, moradia e at� o aluguel da bicicleta, a empreiteira nada fornece de gra�a. Clima pesado � O rec�m-chegado logo descobre que seu ambiente de trabalho � regido por duas �nicas palavras: hayaku (mais r�pido) e dam� (est� errado). Os japoneses s�o r�gidos na quest�o de hor�rio e met�dicos no que fazem. Durante muito tempo se pensou nessas caracter�sticas como m�ritos. Visto de dentro, o sistema de trabalho japon�s peca pela inflexibilidade e pela falta de criatividade. No meu primeiro emprego � na Kubota, f�brica de tratores e implementos agr�colas em Utsunomiya na prov�ncia de Tochigi �, o sal�rio era equivalente a 12 reais por hora, mas sem 13�, carteira assinada, fundo de garantia ou f�rias. Eu apertava parafusos, empurrava m�quinas para a linha de produ��o, buscava pe�as, levava caixas vazias para o dep�sito. Quanto mais trabalhava, mais ouvia hayaku. Fiz ent�o uma coisa imperdo�vel nas rela��es trabalhistas locais: reclamei do abuso e sugeri mudan�as. O sistema japon�s detesta queixas e abomina mudan�as. Meu chefe na Kubota destacou um funcion�rio para me seguir por toda parte, registrando meu trabalho com uma c�mera de v�deo. Acabou aceitando, de m� vontade, minhas reivindica��es � mas fiquei marcado como encrenqueiro. Muito ruim, visto que a regra � jamais questionar a autoridade. Um subordinado t�pico s� ousa cumprimentar ou, se tiver oportunidade, elogiar o chefe. Os estrangeiros s�o tratados com arrog�ncia, aos gritos. Numa ind�stria, um chefete costuma indicar as tarefas puxando o empregado pela gola do uniforme. Os brasileiros se adaptam ou entram na lista negra. Foi este, evidentemente, meu caso. Pedi demiss�o pouco tempo depois, for�ado pelo ambiente pesado. A partir da�, fui pulando de emprego em emprego. Uma maratona de dez meses por cinco f�bricas. Numa metal�rgica em Nogi, tamb�m em Tochigi, recebi o encargo de limpar tanques de produtos qu�micos. A fuma�a que emana dos tanques causava tosse, sinal evidente de que se estava lidando com produtos perigosos � sa�de. Como me recusei a continuar, o supervisor mandou outro brasileiro, um homem de 57 anos, que se arriscou sem reclamar. Em Nogi, excepcionalmente, tive direito a um quarto s� para mim. Espa�o � artigo de luxo at� para os japoneses, mas os alojamentos oferecidos pelas empreiteiras exageram. Dividi com outro brasileiro um quarto t�o ex�guo que era preciso que um sa�sse para o outro entrar. S� dava certo porque eu trabalhava de dia e ele � noite. Nos dias de folga, a solu��o era perambular pelas ruas para n�o incomodar quem dormia. Fora do trabalho, s�o raras as rela��es de amizade entre estrangeiros e japoneses, que s� agora come�am a se acostumar � presen�a de gente diferente em seu pa�s. Se entra numa loja chique, o brasileiro, facilmente reconhecido pela roupa, postura ou modo de andar, passa pelo constrangimento de ser vigiado o tempo todo por balconistas e seguran�as. Para sobreviver, a maioria assimila o comportamento nip�nico. Os brasileiros tornam-se, como os japoneses, pe�as na grande m�quina chamada Jap�o e s� pensam no trabalho e no p�-de-meia. A vida no Brasil � dura para a grande maioria da popula��o, mas � dif�cil enfrentar condi��es de trabalho como as existentes na f�brica de biscoito Tristar-Seika, na cidade de Takasaki, na Prov�ncia de Gunma � meu quarto emprego �, que aboliu o intervalo de descanso previsto em lei e s� permite uma ida di�ria ao banheiro. Vivi dez meses como oper�rio no Jap�o. Voltei em fevereiro e, desta vez, n�o sinto nenhuma saudade. Alojamento em Fumabashi: s� foi poss�vel acomodar duas pessoas em espa�o t�o ex�guo porque uma trabalhava de dia e a outra � noite. Para n�o incomodar o colega, o morador de folga ficava perambulando pelas ruas Na metal�rgica em Nogi: ordens s�o "mais r�pido" e "est� errado", mas n�o h� equipamento de prote��o para limpar res�duos t�xicos Higobassi com colegas japoneses na f�brica Kubota: lista negra para o dekassegui que reclama ou contesta a r�gida hierarquia nip�nica |
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