Epop�ia Selvagem                               Veja 29/07/1998
A aventura de montar um poliduto de 300 quil�metros na floresta

Construir uma rede subterr�nea de tubos com 300 quil�metros de extens�o � uma tarefa dif�cil que exige t�cnica e f�lego. Empreend�-la sob as florestas e rios da regi�o amaz�nica � ainda mais complicado e requer, al�m de disposi��o e tecnologia em dobro, esp�rito de aventura. Uma obra desse tipo acaba de ficar pronta na regi�o. � um poliduto da Petrobras que liga a esta��o petrol�fera de Urucu, no cora��o da floresta, ao Terminal Solim�es, no munic�pio de Coari, a 640 quil�metros de Manaus. Sua constru��o foi uma epop�ia que incluiu equipamentos in�ditos e muitos sustos para os oper�rios que trabalharam na selva. Alguns foram perseguidos por on�a. Outro foi surpreendido pelo bote de uma sucuri. Encerrada a perip�cia, o transporte de petr�leo e g�s de cozinha da esta��o � refinaria de Manaus, agora, leva apenas quatro dias, nove a menos do que no esquema anterior, em que o trecho de navega��o por rios era bem mais longo. O novo poliduto, que custou 63 milh�es de d�lares, representa uma economia di�ria de 60.000 d�lares aos cofres da empresa.

Para a aventura de montar e enterrar sob a floresta cerca de 24.000 tubos de 12 metros de comprimento cada um, num total de 18.000 toneladas de a�o, 950 homens trabalharam doze horas por dia, durante dez meses. Como a regi�o n�o tem cidades pr�ximas e o deslocamento de pessoal era freq�ente, barcos foram adaptados como canteiros de obras e receberam dormit�rios, refeit�rios, cozinhas, ambulat�rios, lavanderias e at� sal�es de jogos. "Realizar um projeto dessas dimens�es numa regi�o totalmente isolada e coberta pela floresta � uma empreitada que beira � insanidade", afirma o engenheiro Jos� Carneiro Rego, um dos coordenadores da obra.

Capacete longe � Durante cinco dias, uma on�a seguiu os trabalhadores a curta dist�ncia. Como o projeto teve preocupa��es ecol�gicas, uma das regras era n�o matar animais. O �nico jeito de se livrar da amea�a foi fazer barulho. O pessoal da seguran�a passou um dia inteiro batendo panelas. Num outro dia, o encarregado Vital dos Santos abaixou-se para olhar uma maloca e teve seu capacete arremessado longe por uma sucuri de 6 metros de comprimento que apareceu de dentro do buraco. Vital esperou ela sair do esconderijo, la�ou-a e, junto com sete colegas, conseguiu colocar a cobra sobre um caminh�o para libertar o bicho bem longe das frentes de trabalho.

As dificuldades apresentadas pela natureza, no entanto, n�o se limitaram aos bichos selvagens. A floresta densa e alta, os v�rios pontos de terreno alagadi�o e o fato de o poliduto ter de ser enterrado, em alguns trechos sob o leito dos rios que atravessa, foram obst�culos ainda mais complicados de transpor. Para colocar os tubos, foi preciso abrir uma veia de 300 quil�metros de extens�o por 15 metros de largura na floresta. "Em muitos pontos, mudamos o tra�ado planejado para preservar �rvores milenares e castanheiras", declara o engenheiro da Petrobras Carlos Alberto de Lima. Na �poca das chuvas, de novembro a maio, recorreu-se a um equipamento nunca antes usado no Brasil, o overcraft, que se desloca em terra, �gua e terrenos pantanosos sobre um colch�o de ar, transportando m�quinas, tratores e trabalhadores. O tempo gasto para instalar os canos em �reas de lagos e sob o leito de rios � vinte vezes maior do que o despendido em um terreno seco.
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