Ela N�o Morreu Veja 05/05/1999 Nos 100 anos de A Interpreta��o dos Sonhos, a psican�lise est� longe de ser uma velha caqu�tica
H� 100 anos era publicado simultaneamente na �ustria e na Alemanha um livro que representaria um ponto de inflex�o na hist�ria do pensamento, marcando o in�cio de um novo ramo do saber. A Interpreta��o dos Sonhos, do austr�aco Sigmund Freud, est� para a psican�lise como a Divina Com�dia, de Dante Alighieri, est� para a literatura italiana. � seu primeiro monumento, ao mesmo tempo refer�ncia para todas as realiza��es futuras e demonstra��o impressionante dos recursos de um campo a ser arado pela imagina��o criadora. Em sua obra-prima, Freud cumpre uma das aventuras mais solit�rias e arriscadas j� empreendidas por algu�m: a descoberta de seu pr�prio inconsciente e a formula��o de leis que regem n�o apenas esse inconsciente individual, mas o de todos n�s. Ao escavar os meandros da mente, ele deduz a regra geral de que o sonho � uma realiza��o de desejos disfar�ados. H� um s�culo, a descoberta do inconsciente infligiu ao narcisismo humano uma ferida s� compar�vel �s provocadas pelo polon�s Nicolau Cop�rnico, que tirou a Terra do centro do universo, e pelo ingl�s Charles Darwin, que provou nossa ascend�ncia animal. N�o � toa as id�ias freudianas ainda causam perplexidade e s�o alvo de discuss�es acirradas.
Mesmo em tradu��es mais ou menos boas (e a brasileira � das piores), pode-se perceber o sopro de g�nio que atravessa o livro. Como um guia alpino, Freud conduz seu leitor pelas encostas e desfiladeiros da psique. � introdu��o, que passa em revista a insuficiente literatura ent�o existente sobre o assunto, segue-se a descri��o de um sonho do pr�prio Freud (o da "inje��o em Irma"). O autor o analisa minuciosamente, segundo o m�todo que prop�e para a interpreta��o de todos os sonhos: o das associa��es livres a partir de cada elemento on�rico. Os quatro cap�tulos seguintes examinam o material de que s�o feitos os sonhos � lembran�as infantis e recentes, est�mulos f�sicos e desejos de todos os tipos � e os mecanismos pelos quais esse material, o conte�do latente, se transforma no que sonhamos, o conte�do manifesto. Por fim, ele apresenta o modelo do que � a mente, para que se possa deduzir do seu funcionamento como e por que ela � capaz de fabricar sonhos, devaneios, fantasias � e neuroses.
Narciso ferido
Ao escavar os meandros da mente, Freud deduz a regra geral de que o sonho � uma realiza��o de desejos disfar�ados. H� um s�culo, a descoberta do inconsciente infligiu ao narcisismo humano uma ferida s� compar�vel �s provocadaas por Cop�rnico, que tirou a Terra do centro do universo, e por Darwin, que provou nossa ascend�ncia animal
Ilusionismo � Por que, al�m de sonhos de pacientes seus, Freud resolveu incluir exemplos tirados de sua pr�pria vida on�rica? Pela simples raz�o de que assim podia dispor de muit�ssimas associa��es para cada sonho, o que lhe permitia escolher os fragmentos mais did�ticos e esclarecedores para a teoria que desejava expor. Nessa opera��o, acabou revelando v�rios detalhes de sua vida emocional. Aos olhos do leitor atento, aparece a figura de um homem ambicioso, apaixonado por seus amigos e por suas id�ias, culto, sagaz e dotado de grande talento liter�rio. Ali�s, o �nico pr�mio que recebeu em sua longa carreira foi o Goethe, por sua contribui��o � l�ngua e � literatura alem�s.
A Interpreta��o dos Sonhos mapeia pela primeira vez o territ�rio do inconsciente. O livro procura fazer isso de modo objetivo e, tanto quanto poss�vel, demonstrativo. Para Freud, a psican�lise deveria ser uma ci�ncia, com um corpo de conhecimentos � a teoria psicanal�tica � capaz de ser utilizado por outros pesquisadores. O sonho se prestava a tal objetivo, por ser um acontecimento ps�quico comum a todas as pessoas e porque, em sua forma��o, atuam os mesmos processos observados nas manifesta��es patol�gicas, como as neuroses. A insist�ncia freudiana no car�ter cient�fico da psican�lise � compreens�vel por dois motivos. Em primeiro lugar, foi uma forma de defender-se dos ataques de seus advers�rios, que desde o in�cio acusaram Freud de ilusionismo intelectual, como se todas as suas descobertas fossem pura fic��o. Al�m disso, em 1899, ano de publica��o de A Interpreta��o dos Sonhos, a psiquiatria ainda estava na inf�ncia e a psicologia cl�nica simplesmente inexistia. Portanto, a jovem "ci�ncia do inconsciente" era mesmo o que havia de melhor e mais fundamentado para investigar o funcionamento mental.
Um s�culo depois do lan�amento de seus pressupostos, teria a psican�lise perdido definitivamente o status de ci�ncia? Eis uma pergunta que, para ser respondida com honestidade, exige uma vis�o menos r�gida tanto do lado dos detratores de Freud como por parte de seus seguidores. Antes de mais nada, � preciso ter presente que o questionamento das id�ias freudianas parte principalmente dos pa�ses de l�ngua inglesa. Para isso contribu�ram fatores como a no��o de ci�ncia que vigora na cultura anglo-sax�. Essa no��o enfatiza o car�ter experimental, a possibilidade de duplica��o dos experimentos, uma certa id�ia de "objetividade" e outras caracter�sticas segundo as quais a psican�lise n�o pode ser considerada como disciplina cient�fica. Por outro lado, os progressos da pesquisa levaram a meios relativamente eficazes de interven��o em doen�as como a esquizofrenia ou a depress�o. Assim, de modelo e ideal de compreens�o dos fen�menos ps�quicos, a psican�lise se viu rebaixada � condi��o de monstruoso equ�voco e de algo "ultrapassado". Na verdade, as coisas s�o mais complexas. A psican�lise n�o � uma ci�ncia como a f�sica, mas tampouco esse � o �nico tipo de ci�ncia existente. O fato de que n�o corresponde a tal modelo n�o significa que seja um amontoado de teorias absurdas. Ela se organiza como um corpo articulado, com pressupostos, m�todos, hip�teses, regras de dedu��o e valida��o. De forma id�ntica a outras disciplinas que lidam com a realidade ps�quica ou social, como a economia, a hist�ria e a sociologia.
Como teoria da mente, ela � extremamente engenhosa e flex�vel. Prova disso s�o os numerosos acr�scimos que os sucessores de Freud fizeram � heran�a que ele deixou. No que se refere � pr�tica cl�nica, apresenta-se como um m�todo fecundo e eficaz para certas problem�ticas, em especial as neuroses, enquanto outras, como as pervers�es, se mostram avessas a sua interven��o. � importante notar que a an�lise � uma experi�ncia, cujo valor terap�utico depende tamb�m do interesse do pr�prio paciente em sua vida interior e na rela��o particular que se estabelece entre ele e o analista. Ela n�o � um experimento, em que certas vari�veis seriam manipuladas com vistas � verifica��o ou exclus�o de dada previs�o. E isso pela boa e simples raz�o de que as pr�prias descobertas da an�lise modificam a din�mica ps�quica do paciente. Um ano depois de iniciado o trabalho, ele j� n�o � o mesmo paciente das primeiras sess�es.
Al�m de ser um corpo de conhecimentos e um m�todo cl�nico, a psican�lise � tamb�m um fato cultural extraordin�rio. Durante todo este s�culo, ela permeou as rela��es entre as pessoas, a educa��o das crian�as, a fic��o, o cinema, o imagin�rio coletivo, a maneira pela qual nos vemos. Tamb�m inspirou numerosas pr�ticas terap�uticas, que se afastaram em grau maior ou menor de seu perfil original, mas certamente contribu�ram para aliviar o sofrimento emocional dos seres humanos. Como instrumento de investiga��o e de cr�tica da pr�pria cultura, ela ainda hoje se mostra f�rtil e inventiva, permitindo desvelar aspectos da cria��o art�stica e das pr�ticas sociais. Longe de ser uma velha senhora, caqu�tica, enrugada e delirante sobre seus supostos atrativos, a psican�lise se mostra como aquilo que desde A Interpreta��o dos Sonhos Freud desejava: um modo de conhecimento e de autoconhecimento, com seus limites, mas tamb�m com uma vitalidade que desmente os progn�sticos sombrios acerca de seu iminente falecimento. |