Culpam o Brasil...                            Veja 29/03/2000
Imersa em uma grande crise econ�mica, incapaz de exportar seus produtos com lucro para o mundo, a Argentina descobre um bode expiat�rio: o vizinho

Cartaz contra o Brasil
numa manifesta��o de
protesto em Buenos
Aires: alvo mais f�cil







Experimente ficar dez anos sem aumento real de sal�rio. Dif�cil? E se, al�m disso, voc� estiver devendo dois ter�os do que ganha? E se tiver de pagar 2 d�lares por um cafezinho e 4 d�lares por um copo de suco de laranja? Talvez esses exemplos ajudem a entender o atual estado de alma dos argentinos, porque � isso o que est� acontecendo por l�. Para a classe m�dia de nosso bravo vizinho do sul, trocar de carro ficou t�o caro quanto � para a classe m�dia brasileira conseguir a casa pr�pria. Colocar mob�lia nova na sala de uma casa argentina requer uma gin�stica financeira parecida com a de uma fam�lia assalariada brasileira decidida a estacionar um carrinho zero de 1.000 cilindradas na garagem. Agora, olhe um pouco para tr�s. A Argentina j� foi uma das na��es mais ricas do mundo. Era um territ�rio de estilo europeu que, por assim dizer, tivera a m� sorte de estar encravado entre vizinhos pobret�es na Am�rica Latina. A Argentina regrediu com governos populistas, como o de Juan Domingo Per�n, sucedido em clima de opereta bufa pela mulher, Isabelita, e depois por militares cru�is e loucos, que levaram o pa�s a uma guerra surrealista com os ingleses pela posse das Ilhas Malvinas. Sua economia tornou-se menor que a do Estado de S�o Paulo. Com a implanta��o de um austero plano de estabilidade econ�mica, em 1991, a Argentina venceu a hiperinfla��o e se empinou de novo. N�o chegou a levantar v�o brilhante, a exemplo das aves dom�sticas que ficam muito pesadas para escapar do ch�o, mas tudo corria relativamente bem. Havia esperan�a no futuro. Foi ent�o que o vizinho do norte, o Brasil, resolveu desvalorizar sua moeda, um golpe que os argentinos acusam at� hoje. E com rancor.
O atual esporte nacional na Argentina � culpar o Brasil, que os pol�ticos platinos agora chamam de a "gigante economia do norte", pelas dificuldades econ�micas enfrentadas internamente. Comenta-se naquele pa�s que suas ind�strias est�o fechando as portas e se transferindo para o Brasil. E que produtos brasileiros, mais baratos gra�as � desvaloriza��o do real, est�o amea�ando os artigos argentinos, mais caros. Essas queixas j� engordam passeatas em Buenos Aires. "Made in Brazil, no!", dizem os cartazes nas manifesta��es de rua. "Os brasileiros s�o como maus vizinhos que entram em nossa casa para roubar os m�veis", vocifera Carlos Ruckauf, governador da prov�ncia de Buenos Aires, raposa oportunista que � uma esp�cie de Leonel Brizola platino. Como sempre ocorre em qualquer pa�s metido em crises econ�micas duradouras e profundas, os problemas reais se misturam aos imagin�rios. N�o existe �xodo de neg�cios argentinos para o Brasil. Menos de vinte empresas, na maioria multinacionais, decidiram transferir parte de sua manufatura para Estados brasileiros nos �ltimos dois anos. Mesmo assim, uma pesquisa recente do jornal Clar�n revelou que, para 63% dos argentinos, o maior problema econ�mico do pa�s � justamente a fuga de empresas para o Brasil.

A coisa deve estar preta por l�, pois mesmo cabe�as racionais, como a do ex-superministro da Economia, Domingo Cavallo, andam meio zonzas. "A culpa da crise � do Brasil. O Fernando Henrique preferiu empobrecer seu povo, desvalorizando a moeda, e agora quem paga � a Argentina", disse Cavallo, que, candidat�ssimo a qualquer cargo nas pr�ximas elei��es, anda num pique cada vez menos liberal e mais protecionista. Espertamente, Cavallo reverbera a cr�tica gritada nas ruas. Nas esquinas, culpa-se o Brasil pela desvaloriza��o do real. Em menos de dois anos, a moeda brasileira perdeu 50% do valor em rela��o ao d�lar e, conseq�entemente, em rela��o ao peso argentino, que tem sua cota��o atrelada �s verdinhas americanas. Essa mudan�a significou dois baques para a economia argentina da noite para o dia. Primeiro, os produtos brasileiros ficaram 50% mais baratos em Buenos Aires. Segundo, os produtos argentinos, que inundavam as prateleiras dos supermercados brasileiros e os p�tios das revendedoras de autom�veis, tornaram-se 50% mais caros para os brasileiros. As exporta��es para o Brasil ca�ram um ter�o, aprofundando a crise econ�mica argentina a um ponto que por l� se passou a enfrentar a pior recess�o da d�cada. O �ndice de desemprego chegou a 14%.

Esses s�o os problemas reais, mas a desconfian�a em rela��o ao Brasil est� inflada, mesmo que algumas das principais autoridades do pa�s mantenham uma vis�o realista das dificuldades. Na semana passada, o presidente Fernando de la R�a procurou esfriar as suspeitas que correm soltas contra o Brasil, principalmente nos meios empresariais, informando que, mesmo com a redu��o dos neg�cios entre os dois vizinhos do Mercosul, o Brasil ainda � o maior parceiro comercial da Argentina, sua �nica grande fonte de super�vits nas trocas comerciais. Trinta por cento das exporta��es argentinas s�o compradas pelo Brasil, lembrou De la R�a. Ele n�o disse, mas poderia t�-lo feito, que os problemas que seus compatriotas est�o enfrentando hoje decorrem de escolhas erradas que fizeram durante muitas e muitas d�cadas seguidas. A partir de meados do s�culo XX, a Argentina se transformou num pa�s estatizado e sindical a ponto de ficar economicamente invi�vel. O atrelamento do peso ao d�lar, h� dez anos, foi uma tentativa, bem-sucedida, de fugir ao descontrole inflacion�rio provocado por todas as escolhas equivocadas dos governos anteriores ao de Carlos Menem. Mas, agora, os argentinos est�o diante de uma encruzilhada. Ou desvalorizam o peso, o que provocaria uma quebradeira geral, j� que as d�vidas no pa�s, na maior parte, est�o lastreadas em d�lar. Ou reduzem pre�os e sal�rios para tornar sua economia mais competitiva, o que � politicamente invi�vel.

Sobre esse pano de fundo econ�mico, h� a psique argentina, com sua tend�ncia a funcionar na cad�ncia de tango. Buenos Aires tem 19.000 psic�logos, um para cada 160 habitantes, tr�s vezes mais que S�o Paulo. O seriado de maior audi�ncia da televis�o argentina � Vulner�veis, que narra as neuroses e os sofrimentos de um grupo submetido a psicoterapia. "O argentino costuma carecer de consci�ncia moral, mas n�o de consci�ncia intelectual. Passar por imoral lhe importa menos que passar por tolo", disse certa vez a maior gl�ria das letras latino-americanas, o escritor argentino Jorge Luis Borges, que morreu em 1986. O que Borges vislumbrou na alma de seus conterr�neos n�o deixa de ser uma esp�cie de malandragem, uma varia��o do famoso "jeitinho brasileiro". No caso da falsa crise com o Brasil, esse jeitinho est� ajudando a empanar as raz�es mais palp�veis das agruras econ�micas do pa�s � a falta de competitividade de seus produtos no mercado mundial. O Brasil � o �nico grande mercado com que a Argentina ainda faz neg�cios com lucro. Com os demais parceiros comerciais, ao final do ano, a conta fica negativa para o lado argentino.

Rotular povos e pa�ses por suas caracter�sticas mais marcantes � um exerc�cio intelectual vago e impreciso. Mas n�o deixa de ser curioso. O japon�s � disciplinado? �. O alem�o � met�dico? Sem d�vida. O americano � pr�tico? �. O brasileiro � um povo alegre? Sim. E o argentino? Bem, o argentino � uma mente em constante ebuli��o, mas, sem d�vida, a melancolia predomina na alma platina. Uma melancolia misturada a um orgulho nacional que tende talvez a crescer em meio �s dificuldades pr�ticas. Carlos Gardel, o genial int�rprete de tangos, morreu em um acidente a�reo na Col�mbia em 1935, mas at� hoje se diz que ele "canta cada vez melhor". O jogador de futebol Diego Maradona abandonou os gramados deixando um rastro escandaloso de envolvimento com coca�na. A imprensa local n�o gosta de discutir o real problema de Maradona. Em vez disso, gastam-se p�ginas e mais p�ginas debatendo os males card�acos do jogador. N�o � raro encontrar, em conversa de bar, algu�m defendendo a hip�tese de que "Dieguito", gord�ssimo e com a sa�de em frangalhos, possa voltar a jogar uma Copa do Mundo.

Aquilo que alguns estrangeiros interpretam como "arrog�ncia" nos argentinos muitas vezes � um sentimento mais complexo. Outras, um reflexo de conquistas bem reais que o pa�s realizou. O presidente Domingo Sarmiento impulsionou, a partir de 1870, a educa��o p�blica e gratuita, e o analfabetismo baixou de 35% em 1914 para 13% em 1947. Mais de cinq�enta anos depois, o Brasil tem um �ndice igual, de 13%. O metr� de Buenos Aires � de 1913, o primeiro subterr�neo da Am�rica Latina. Orgulhosos por ser educados em um continente de analfabetos, os argentinos fizeram for�a para ser "europeus na Am�rica". Estiveram perto. O que sobrou desse projeto pode ser resumido para efeito humor�stico na frase famosa: "O argentino � um italiano que fala espanhol e pensa que � ingl�s".

O Brasil � um eterno pa�s do futuro, um projeto de grandeza que at� hoje n�o se realizou. A Argentina realizou a meta de tornar-se um pa�s rico, o s�timo mais rico do mundo na primeira d�cada do s�culo XX, mas regrediu. No primeiro caso, o brasileiro, tende-se a produzir um quadro de frustra��o. No segundo, o argentino, a tend�ncia prov�vel � de que � frustra��o se some alguma revolta. Enquanto o Brasil mal sa�a da escravid�o, Buenos Aires era uma das cidades mais luxuosas do mundo. Importava arquitetos renomados da Europa, tinha uma vida cultural invej�vel, permitia a seus riqu�ssimos fazendeiros viagens opulentas �s capitais do mundo. Sucessivos governos argentinos procuraram receber preferencialmente imigrantes do norte da Europa, os mais claros, e n�o "galegos e italianos do sul", como se reclamava na �poca de Sarmiento. Em sua sofreguid�o aristocr�tica, a elite platina procura at� hoje praticar esportes como o p�lo, o golfe e o t�nis, de enorme apelo no pa�s. A assimila��o da cultura europ�ia gerou grandes escritores, como Jorge Luis Borges, Julio Cort�zar e Adolfo Bioy Casares. Os argentinos ganharam cinco pr�mios Nobel e seu cinema, para a inveja dos brasileiros com uma c�mara na m�o e um pedido de financiamento oficial na cabe�a, j� levou um Oscar. Os argentinos t�m mais bibliotecas e l�em mais. S�o 123 jornais por 1.000 habitantes, contra quarenta no Brasil.

A exist�ncia dessa superioridade cultural evidente n�o explica todo o fen�meno do distanciamento dos argentinos de seus vizinhos. Quem acha que muitos argentinos nutrem certo preconceito contra os brasileiros, por eles chamados de "macaquitos", n�o imagina como bolivianos, peruanos e paraguaios s�o tratados por l�. Os bairros onde vivem s�o alvo de manifesta��es xen�fobas de grupos de vizinhos que pedem sua expuls�o, sindicatos fazem campanhas dizendo que os imigrantes lhes est�o roubando empregos e at� apresentadores de TV, sem o menor pudor, atribuem o aumento da criminalidade aos estrangeiros. Os n�meros comprovam que os estrangeiros s�o uma pequena minoria entre a popula��o carcer�ria.

Por mais que queira fugir disso, a Argentina � hoje um pa�s latino-americano t�pico. Observando-se o tr�nsito de Buenos Aires, � imposs�vel deixar de notar mais semelhan�as com a Cidade do M�xico do que com Paris. Quase metade da frota automobil�stica tem mais de dez anos de uso, contra 26% no Brasil, que est� longe de ser um exemplo de modernidade sobre rodas. A internet tem oito vezes mais usu�rios no Brasil. "Com metade dos internautas da Am�rica Latina no Brasil � l� que temos de estar", diz o argentino Germ�n Dyzenchauz, de 27 anos, que montou o site Invicto.com, destinado a atrair torcedores de futebol.

Antes uma ilha de desenvolvimento e charme ao sul do Equador, a capital, Buenos Aires, de 3 milh�es de habitantes, re�ne hoje um ex�rcito de 100.000 favelados em suas franjas. Na Zona Sul da cidade, a mortalidade infantil alcan�a 35 mortos por 1.000 nascidos vivos, m�dia t�pica de lugar subdesenvolvido, como o Brasil, por exemplo. Na Grande Buenos Aires aglomeram-se atualmente 8 milh�es de pessoas, mais de 20% da popula��o do pa�s. S�o migrantes barrados pelo alt�ssimo custo de vida da capital, uma das cinco mais caras do mundo. Ali o desemprego j� atinge um em cinco moradores. Na cidade de La Matanza, tradicional reduto peronista de 1,3 milh�o de habitantes, h� dezenas de f�bricas abandonadas cercadas de favelas, em um cen�rio desoladoramente t�pico da Am�rica Latina. Nessa regi�o, a viol�ncia vem crescendo muito, e viraram cena de rotina assaltos com ref�m. O n�mero de roubos e furtos aumentou 65% nos �ltimos cinco anos em todo o pa�s. Mas ainda assim Buenos Aires � mais segura e agrad�vel que o Rio de Janeiro ou S�o Paulo.

A observa��o de fen�menos negativos como esses mostra que os esfor�os de moderniza��o da Argentina, especialmente a privatiza��o acelerada feita nos dez anos do governo Carlos Menem, n�o deram resultados pr�ticos not�veis. A Argentina carrega o fardo pesado da gastan�a p�blica e do caudilhismo. Juntas, as prov�ncias, os Estados do pa�s, acumulam d�vidas de 18 bilh�es de d�lares. H� d�cadas controlados por caudilhos corruptos e populistas, esses territ�rios vivem uma situa��o desastrosa. Nos Estados de Formosa e do Rio Negro, as d�vidas s�o superiores a um ano de or�amento. Em Corrientes, atualmente sob interven��o federal depois de quase quarenta anos governada pela mesma fam�lia, o governo local est� quebrado, e Buenos Aires � que vem bancando o or�amento. Na maioria das prov�ncias do Norte, o desemprego chega a 25%. "Nesses lugares, o normal � que o governo empregue mais funcion�rios do que precisa, para evitar conflitos sociais", diz o analista pol�tico Carlos Pagni. Em Santiago del Estero, o governador Carlos Ju�rez, de 83 anos, foi eleito cinco vezes, a primeira em 1949. Atualmente, a vice � sua esposa, Marina de Ju�rez, chamada na prov�ncia de "La Sen�ra". Nenhum ramo da economia de Santiago del Estero supera o volume de dinheiro manejado pelo Estado, que � o maior empregador local, ao melhor estilo interior do Nordeste brasileiro. Segundo a organiza��o n�o-governamental Transpar�ncia Internacional, em uma pesquisa feita entre analistas, empres�rios e popula��o sobre a percep��o de corrup��o entre 74 pa�ses, a Argentina fica em 65� lugar, bem atr�s do Brasil, que ocupa a 46� posi��o. Nem mesmo a decantada qualidade da educa��o resistiu � decad�ncia dos �ltimos anos. "Somos orgulhosos da forma��o de cultura geral da educa��o argentina, mas hoje ela � enciclopedista. N�o se incorporaram novas tecnologias nem habilidades de equipe. Nem as escolas, nem os professores se modernizaram. Apesar do baixo analfabetismo, podemos ficar para tr�s", diz o economista Mart�n Redrado, diretor da Funda��o Capital.

As prov�ncias reclamam dos incentivos fiscais da "guerra de subs�dios" desatada pelos Estados brasileiros, que julgam prejudic�-las, surrupiando-lhes as ind�strias. Quase todas quebradas, as prov�ncias argentinas dependem do governo nacional para sobreviver. N�o cobram ICMS � o imposto similar, o IVA, � nacional � e sempre est�o no vermelho. Ou seja, s�o dependentes do governo central para as despesas m�nimas. Quando vem de Buenos Aires a not�cia de que a pol�tica econ�mica brasileira est� enfraquecendo os cofres da Uni�o, fica-se � beira de uma revolta. Os governadores peronistas, como o ex-piloto de F�rmula-1 Carlos Reutemann, de Santa F�, e o ex-embaixador no Brasil Jos� Manuel de la Sota, de C�rdoba, agarraram-se � receita agora em moda de culpar o vizinho.

A campanha contra o Brasil pode ser mais bem compreendida nesse cen�rio de paralisia e desesperan�a que a Argentina atravessa. A rea��o antibrasileira come�ou com um comunicado da Uni�o Industrial Argentina (UIA), em dezembro passado, afirmando que mais de 100 empresas argentinas j� tinham fechado suas f�bricas locais e mudado para o Brasil. A imprensa platina comprou a id�ia e nos tr�s meses seguintes divulgava diariamente a "fuga de empresas". "O Mercosul do jeito que est� n�o serve", diz o presidente da UIA, Osvaldo Rial, n�o por coincid�ncia um deputado peronista (de oposi��o), assim como o governador Ruckauf. At� hoje, a UIA n�o divulgou o nome das empresas. Rial diz que a rela��o � confidencial, mas os pr�prios dirigentes da entidade assumem que essa lista n�o existe. Das cerca de vinte empresas que se foram, a maioria j� tinha f�bricas nos dois pa�ses. Ou seja, apenas fecharam sua unidade argentina. Quase todas, como Goodyear e Pirelli, s�o multinacionais de autope�as. Ao mesmo tempo, o Brasil � o �nico grande mercado com o qual a Argentina tem super�vit em sua balan�a comercial. Entre 1995 e 1999, o vizinho dos pampas lucrou mais de 6 bilh�es de d�lares com o com�rcio bilateral, enquanto sofreu d�ficit de 32 bilh�es de d�lares com a Uni�o Europ�ia, os Estados Unidos e o Jap�o. Apesar do super�vit com o Brasil, h� o mito de que existe uma invas�o de produtos brasileiros que destruir�o certos setores da economia argentina j� afetados pela recess�o interna e que n�o se modernizaram, como cal�ados e t�xteis. Os produtores de frango, outros atingidos, fizeram um protesto que reuniu 3.000 manifestantes e fechou estradas na prov�ncia de Entre Rios. O Itamaraty j� acusou o golpe e tem informado o governo brasileiro da mudan�a de temperatura na Argentina. "� injusto que a Argentina culpe o Brasil. N�o houve a invas�o de produtos brasileiros que se temia, nem o �xodo de empresas para o Brasil � real", diz Sebasti�o do R�go Barros, embaixador brasileiro em Buenos Aires. "� espantoso que a Argentina critique o Brasil, com quem tem super�vit, esquecendo-se de que a competitividade argentina � sofr�vel. Com o resto do mundo eles s� t�m d�ficits."

Antes da desvaloriza��o do real, o casamento com a Argentina celebrado no acordo do Mercosul era um sucesso. Pouco antes da medida que liberou o c�mbio no Brasil em janeiro do ano passado, os argentinos respondiam nas pesquisas de opini�o que "o Brasil � o maior aliado da Argentina". O Mercosul vinha sendo um �timo neg�cio para seus dois maiores s�cios. Quando viviam separados, em 1980, cada um por si, o com�rcio bilateral era de 1,8 bilh�o de d�lares. Em 1998, em plena lua-de-mel, atingiu 15 bilh�es de d�lares. Mesmo em 1999, com o in�cio das rusgas pela desvaloriza��o do real, o valor das trocas ultrapassou os 11 bilh�es de d�lares. Nesta semana, ataques surgidos de quase todos os lados contra o Brasil � como culpado de todos os males da Argentina � deixaram claro que, para certos setores do pa�s, a solu��o � o div�rcio.

Colocar a culpa no Brasil pelos problemas nacionais n�o vai ajudar muito a Argentina. A situa��o por l�, com Brasil ou sem Brasil, est� complicada. O desemprego s� aumenta e o trabalho sem carteira assinada representa 48% das pessoas ocupadas. A d�vida externa pulou de 60 bilh�es de d�lares em 1989 para 145 bilh�es, um indicador do crescimento do gasto p�blico no pa�s. O d�ficit p�blico bateu em 11 bilh�es de d�lares no ano passado e, para encher o cofre, o presidente Fernando de la R�a lan�ou m�o de uma reforma tribut�ria que aumentou o imposto de renda e come�a a cobrar de quem antes era isento, al�m de subir impostos sobre bebidas, cigarros, planos de sa�de e telefones celulares. Segundo um estudo do Indec, o IBGE local, a classe m�dia perdeu 51,4% da renda que tinha em 1974.

Nas altas rodas do governo de ambos os lados, o discurso ainda � o da concilia��o. Fernando Henrique Cardoso encontrou-se com seu colega argentino, Fernando de la R�a, na posse do rec�m-eleito presidente do Chile. Durante o encontro, ambos reafirmam a inten��o de reativar o Mercosul. "O Brasil n�o visa � desindustrializa��o da Argentina", disse Fernando Henrique Cardoso. "� injusto que se demonize um pa�s amigo e irm�o como o Brasil, o Mercosul deve ser aprofundado", ecoou o chanceler argentino Adalberto Rodriguez Giavarini. Em linguagem diplom�tica o panorama � bonito. Quando se analisam os fundamentos econ�micos, a vis�o se torna mais confusa. "O vazio pelo fracasso do Mercosul foi ocupado por pol�ticos oportunistas, empres�rios em crise e setores sem competitividade", analisa o economista Roberto Lavagna, diretor da consultoria Ecolatina e ex-secret�rio de Industria e Com�rcio no governo Alfons�n. "O problema da Argentina n�o � o Brasil, o nosso problema � que temos falta de competitividade no mundo", critica o diretor do Centro de Estudos Nova Maioria, Rosendo Fraga. "N�o houve protestos frente � Embaixada do Brasil e minhas pesquisas dizem que 70% dos argentinos n�o querem o fim do Mercosul. Mas culpar o Brasil virou um fen�meno midi�tico e pol�tico, j� que � mais f�cil discutir isso do que a conversibilidade peso-d�lar, que jamais � discutida."

  Os economistas acreditam numa sa�da para o impasse entre as duas economias. "O Mercosul n�o pode ser s� tarifa zero entre as partes. Na Uni�o Europ�ia sempre houve medidas para atender aos interesses espec�ficos de setores e regi�es. � ingenuidade achar que o mercado vai regularizar tudo sozinho", critica o economista Lavagna. "Falta uma pol�tica industrial e de servi�os, um programa de fus�o e reconvers�o de empresas dos dois lados. Por que o Brasil e a Argentina n�o criam uma pol�tica comum de a�o, j� que possuem empresas por toda a Am�rica Latina? Por que a ind�stria t�xtil n�o se une, se o inimigo comum � o Sudeste Asi�tico?"

Os dois vizinhos, por enquanto, preferem brigar, como no futebol, em vez de se unir. Tanto Brasil quanto Argentina t�m balan�as comerciais deficit�rias nas negocia��es com quase todos os mercados do mundo. S�o ambos v�timas de barreiras protecionistas na Europa e nos Estados Unidos e a ind�stria dos dois lados da fronteira luta para ser mais competitiva. "Ficam discutindo sobre frangos e cal�ados, enquanto h� temas muito mais interessantes, como a fus�o das bolsas de valores de S�o Paulo e Buenos Aires", diz o analista Rosendo Fraga. "Nossos dois governos deveriam adotar uma agenda positiva, que some em vez de dividir. Se esperarem para discutir as reclama��es setoriais no segundo semestre, o reaquecimento previsto de ambas as economias acalmaria os �nimos. Acho que o real se revaloriza e o Brasil volta a comprar da Argentina." O embaixador R�go Barros concorda: "A retomada do crescimento no Brasil vai arrefecer os problemas". E haver� paz. Sim, at� que a inquieta alma argentina encontre outro motivo para se entristecer.


 
Com raiva do vizinho
Carlos Ruckauf, governador da prov�ncia de Buenos Aires, que curiosamente n�o inclui a capital, � o mais oportunista dos porta-vozes do sentimento antibrasileiro na Argentina. Ruckauf luta para aprovar um projeto que obriga as licita��es em sua prov�ncia a favorecer as empresas locais. "Quero um movimento para nos defender dos brasileiros", diz. Ruckauf � o autor de um projeto de lei destinado a banir das concorr�ncias p�blicas, pelos pr�ximos vinte anos, as companhias argentinas que instalarem manufaturas no Brasil. � uma vers�o dos pampas da Lei Helms-Burton, o mecanismo legal dos Estados Unidos usado para punir empresas estrangeiras que negociem com Cuba.

Numa mostra do grau de animosidade existente contra o Brasil na Argentina, as id�ias de Ruckauf t�m sido muito aplaudidas. Segundo o jornal Clar�n, ele � o segundo pol�tico com maior aprova��o popular no pa�s (54%), logo atr�s do presidente Fernando de la R�a. �, desde j�, candidato peronista � sucess�o presidencial em 2003. De posse das pesquisas indicando o Brasil como o lobo mau da vida econ�mica argentina, Ruckauf aumentou em v�rios decib�is suas cr�ticas ao Mercosul. Ganha as manchetes dos jornais com suas bravatas. Espertamente ele varre para baixo do tapete os dados contr�rios � sua tese. Afinal, 40% das exporta��es da prov�ncia t�m como destino o Brasil, e alguns dos maiores investimentos brasileiros no pa�s, como as f�bricas da Sadia e da Brahma, est�o instalados em Buenos Aires. "� um grande neg�cio para Ruckauf atacar o Brasil. Ele � um pol�tico midi�tico, que s� trabalha com pesquisas na m�o. N�o � ideol�gico ou nacionalista, simplesmente serve a esses interesses", afirma Carlos Pagni, analista do jornal �mbito Financiero, um dos mais respeitados do pa�s.

A hist�ria dele � t�o suspeita quanto a repentina raiva pelo Brasil. Ex-sindicalista, foi ministro do Trabalho de Isabelita Per�n. Ministro do Interior e vice de Menem, brigou e se reconciliou com o chefe in�meras vezes, at� se candidatar ao governo da prov�ncia de Buenos Aires. Venceu prometendo "meter bala nos bandidos" e chamando sua advers�ria Graciela Fernandez Meijide, hoje ministra de A��o Social de De la R�a, de "at�ia, abortista e anticrist�". Colocou como secret�rio de Seguran�a P�blica ningu�m menos que o ex-tenente-coronel Aldo Rico, um not�rio liberticida e golpista.


Depress�o platina
"O ego humano � um pequeno argentino que todos carregamos dentro de n�s", teria dito certa vez o escritor colombiano Gabriel Garc�a M�rquez. Sem autoria identificada, h� outra cita��o mais c�ustica, repetida nos pa�ses vizinhos: "O melhor neg�cio do mundo � comprar um argentino pelo pre�o que ele vale e vend�-lo pelo pre�o que ele acha que vale". � preciso reconhecer. Os argentinos, justa ou injustamente, ganharam a fama de arrogantes. Eles pr�prios j� reconheceram que os vizinhos t�m l� certa raz�o.

J� no s�culo XIX, em 1845, o presidente argentino Domingo Sarmiento escreveu: "Os demais povos da Am�rica nos jogam na cara nossa presun��o e vaidade � mas pobre do povo que n�o tem f� em si mesmo". Cavando o terreno em outra dire��o, descobre-se que os argentinos tamb�m gostam de atribuir os pr�prios fracassos a agentes externos. "Culpamos primeiro a m�e, seja judia, italiana ou espanhola. Depois culpamos os militares, o peronismo, a Inglaterra, o Brasil. Somos muito neur�ticos", diz Eliseo Subiela, um dos cineastas mais populares do pa�s, com a autoridade de quem faz psican�lise h� 35 anos. Segundo uma pesquisa do jornal Clar�n, 95% dos argentinos acham que no pa�s se fala muito e se faz pouco. Previsivelmente, 76% dos entrevistados na enquete concordam que os argentinos se consideram superiores aos demais povos.

Com seus 19 000 psic�logos, Buenos Aires � considerada a capital mundial da psican�lise. "Somos angustiados e tr�gicos", diz o ator Jorge Marrale, que interpreta o terapeuta Guillermo Segura na s�rie de sucesso Vulner�veis, que exibe na televis�o uma galeria variada de neuroses. Na Argentina, a realidade supera a fic��o no campo das obsess�es. � quase inacredit�vel a dan�a macabra que se armou com cad�ver de gente famosa no passado recente do pa�s. Na d�cada de 80, o t�mulo do presidente Juan Domingo Per�n foi arrombado por desconhecidos que amputaram e roubaram suas m�os. O corpo embalsamado da primeira mulher dele, Evita, que morreu de c�ncer aos 33 anos de idade em 1952, foi seq�estrado pelos militares que derrubaram Per�n. Para evitar que a tumba de Evita se convertesse em centro de peregrina��o de peronistas, os militares golpistas mantiveram o corpo dentro de um furg�o que rodou inc�gnito pelas ruas de Buenos Aires durante meses. Mais tarde foi levado clandestinamente para a Europa, indo parar numa cova an�nima na It�lia. Dali, foi exumado e levado para a Espanha. Evita n�o descansou. Com a reelei��o de Per�n, o corpo voltou triunfalmente a Buenos Aires. Finalmente foi enterrado no cemit�rio da Recoleta. Nos anos 70, guerrilheiros esquerdistas roubaram de um cemit�rio o cad�ver do general e ex-presidente Pedro Arambur�, um dos cabe�as do golpe contra Per�n em 1955. Eles tentaram negociar com os militares: exigiram como resgate pelos restos de Arambur� a devolu��o do corpo de Evita. N�o deu certo.

Em compara��o com a trajet�ria claudicante dos vizinhos, os argentinos tiveram um passado de exuber�ncia. Eles vivem hoje a s�ndrome do pa�s que atingiu a gl�ria e a viu escapar. Seus her�is, colhidos pela fatalidade no auge da fama e do poder, tipificam essa situa��o. Carlos Gardel n�o � o �nico exemplo. Evita Per�n foi vencida pelo c�ncer no auge da adora��o popular, quando atribu�am a ela curas milagrosas. "Che" Guevara, �dolo das esquerdas, foi morto quando levava sua revolu��o comunista para um beco sem sa�da nas selvas da Bol�via. Essa sensa��o de perda precoce deitou ra�zes na sociedade. Pesquisas mostram que cerca de 75% dos argentinos julgam que o pa�s ainda n�o tem uma democracia madura, 60% t�m medo de perder o emprego e 50% sustentam que o sistema de sa�de era melhor cinq�enta anos atr�s.
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