| Brazil Desfocado Veja 09/09/1998 Aumenta o n�mero de estrangeiros que estudam o pa�s, mas cai a qualidade de seus trabalhos Nos anos 60 e 70, a melhor Hist�ria do Brasil foi feita com sotaque ingl�s. O regime militar havia sufocado a pesquisa acad�mica: acervos ficaram fechados, documentos jogados �s tra�as, professores se exilaram ou foram expulsos da universidade. Somente uma pequena casta de especialistas encontrava espa�o para atuar. Eles vinham sobretudo dos Estados Unidos e ficaram conhecidos como brasilianistas. Al�m de trazer novos m�todos de estudo, eles tinham acesso a fontes inacess�veis para os pr�prios brasileiros. Nenhum nativo de bom senso, por exemplo, pediria para vasculhar, no auge da ditadura, os arquivos do Minist�rio da Guerra. O pesquisador americano Joseph Love, da Universidade de Illinois, teve essa ousadia. E os documentos lhe foram franqueados. Nas d�cadas de 60 e 70, os brasilianistas fizeram hist�ria em grande estilo e deixaram cl�ssicos como Os Militares na Pol�tica, de Alfred Stepan, e Brasil: de Get�lio a Castelo, de Thomas Skidmore (veja quadro). Trinta anos mais tarde, por�m, h� uma not�cia boa e uma ruim sobre os estrangeiros que estudam o Brasil. A boa � que, pelo mundo afora, o n�mero de interessados no pa�s de Peri e Ceci aumentou. Nos Estados Unidos, at� mesmo uma associa��o de estudiosos foi fundada � a Brazilian Studies Association, Brasa, que congrega um batalh�o de pessoas de diversas �reas. A m� not�cia � que h� tempos n�o aparece uma obra de brasilianista que possa ser considerada um marco. Os historiadores deixaram de lado os grandes temas e passaram a se ocupar com coisas como culin�ria e batucada, na linha da chamada "hist�ria das mentalidades". Mesmo os brasilianistas da antiga gera��o n�o produzem mais trabalhos � altura dos que escreveram no passado. Thomas Skidmore, por exemplo, lan�ou na semana passada no Brasil o livro Uma Hist�ria do Brasil (Paz e Terra; 356 p�ginas; 29 reais), que sai em outubro tamb�m nos Estados Unidos. Os �nicos que v�o beneficiar-se da obra s�o estudantes que, do pa�s, s� conhe�am futebol e samba. O manual � t�o resumido e superficial que n�o traz nada de �til para o leitor minimamente familiarizado com a Hist�ria brasileira. E a mix�rdia tende a aumentar. "Infelizmente, o interesse pelas hist�rias pol�tica e econ�mica de perfil mais ambicioso decaiu bastante", observa Joseph Love. Seguindo as modas correntes na cidadela acad�mica, os estudantes est�o interessados em �reas "alternativas". Em outras palavras, vale tudo, de rela��es raciais a Caetano Veloso. Assim, David Treece, brasilianista ingl�s de 39 anos que ensina literatura e dirige o Centro para Estudo da Cultura e Sociedade Brasileira do King's College, em Londres, menciona teses sobre as comunidades do sert�o, sobre a rela��o entre o artista pl�stico H�lio Oiticica e a cidade do Rio de Janeiro e sobre a m�sica de Caetano Veloso, todas produzidas sob os ausp�cios da entidade que comanda. Mais "tradicional", o presidente da Brasa, Dain Borges, de 44 anos, � autor de um estudo elogiado sobre as rela��es familiares na Bahia entre 1870 e 1945. Mas ele observa que, nos Estados Unidos, muitos alunos se encantaram com o Brasil aprendendo capoeira e ouvindo ax� music e pretendem abordar esses temas em seus trabalhos de doutorado. � lament�vel notar como s�o poucos os pesquisadores que se voltam para os riqu�ssimos arquivos brit�nicos e americanos, em que est�o guardadas informa��es preciosas sobre os contatos diplom�ticos com o Brasil nos s�culos XIX e XX. Sempre que esse material � remexido novidades v�m � tona, como demonstra o livro Pol�cia e Pol�tica, da americana Martha Huggins, que acaba de ser lan�ado aqui pela Editora Cortez e trata da participa��o da CIA no golpe militar brasileiro de 1964. � uma obra sem d�vida mais �til para entender o pa�s do que qualquer coisa que se escreva sobre os parangol�s de H�lio Oiticica. A mudan�a do foco de interesse dos brasilianistas n�o se deveu apenas a modismos mas tamb�m � falta de verbas para realizar estudos de maior f�lego. � bom lembrar que, nas d�cadas de 60 e 70, os Estados Unidos estavam preocupados com o avan�o do comunismo na Am�rica Latina e resolveram estudar a s�rio o continente. O governo americano criou bolsas de pesquisa para que professores de universidades prestigiadas como Yale e Stanford se embrenhassem por aqui. S� que, em meados dos anos 70, o dinheiroduto foi cortado. Com raras exce��es, como William Perry, que se tornou figur�o da Presid�ncia de Ronald Reagan, o governo americano n�o deu tarefas "maiores" aos brasilianistas, cuja influ�ncia ficou restrita ao ambiente acad�mico. E mesmo a� as coisas n�o s�o f�ceis. Como observa Kenneth Maxwell, respons�vel por um estudo fundamental sobre a Inconfid�ncia Mineira, A Devassa da Devassa, "na volta, os brasilianistas tendem a ficar isolados e muitos encontram dificuldades at� para se empregar". O brasilianismo, na verdade, � uma fatia estreita dos chamados estudos latino-americanos. Nos Estados Unidos, por exemplo, h� cerca de 700.000 alunos universit�rios matriculados em cursos de l�ngua espanhola e menos de 6.000 matriculados em cursos de portugu�s. O M�xico � o queridinho dos acad�micos americanos, pela �bvia raz�o de ser um pa�s vizinho e potencialmente explosivo. Os brasilianistas, enquanto isso, sentem-se "deserdados" e "marginalizados", como nota John Tolman, diretor executivo da Brasa. A pr�pria funda��o dessa entidade, em 1992, causou certa pol�mica. Parecia uma causa pequena demais para muitos professores, diretores de universidade e entidades de financiamento � pesquisa. Mas o neg�cio acabou dando certo. A Brasa j� realizou quatro congressos e promete o quinto para o ano 2000, em solo brasileiro. Seu n�mero de associados teve um crescimento exponencial (sessenta em 1992, cerca de 1.400 hoje em dia) e ela promove interc�mbios entre brasileiros, americanos e europeus. Al�m da sede, na Universidade do Novo M�xico, a entidade criou uma sucursal em Washington, junto da embaixada brasileira, para ajudar na elabora��o de a��es educacionais. E a Brasa n�o est� sozinha. H� outras institui��es interessadas no Brasil, como o Cam�es Center, comandado por Maxwell, na Universidade Columbia, em Nova York. Na Inglaterra, al�m do centro dirigido por David Treece, h� o Centre for Brazilian Studies da Universidade de Oxford, inaugurado em outubro do ano passado. "Mas � bom os brasileiros n�o se animarem demais", lembra John Tolman. "Vai ser dif�cil o Brasil mudar sua imagem estereotipada nos Estados Unidos e na Europa. At� Portugal divulga sua cultura de maneira mais efetiva." Se depender dos trabalhos que v�m sendo produzidos pela Brasa e cong�neres, ser� mesmo uma dificuldade. Cl�ssicos do brasilianismo A Devassa da Devassa, de Kenneth Maxwell. Livro que revisou a cronologia da Inconfid�ncia Mineira e mudou a interpreta��o do movimento, apoiado em ampla pesquisa documental. A Ferro e Fogo, de Warren Dean. Estudo ambicioso e inovador na linha da rec�m-criada "hist�ria ambiental". Mostra como a Mata Atl�ntica foi ocupada e destru�da durante os v�rios ciclos econ�micos do pa�s. A Locomotiva � S�o Paulo na Federa��o Brasileira 1889-1937, de Joseph Love. Obra que demonstra a import�ncia dos Estados e do regionalismo no Brasil do come�o do s�culo, analisando temas que v�o da pol�tica � cultura. Os Militares: da Abertura � Nova Rep�blica, de Alfred Stepan. Complemento de Os Militares na Pol�tica, que, lan�ado em 1970, no auge da repress�o, se tornou um dos trabalhos mais completos e reveladores a respeito do Ex�rcito brasileiro. Siderurgia e Desenvolvimento Brasileiro, de Werner Baer. Lan�ado em 1970, o livro defende, com teses pol�micas, a cria��o de ind�strias pesadas em pa�ses subdesenvolvidos. Brasil: de Get�lio a Castelo, de Thomas Skidmore. Obra mais conhecida de todo o brasilianismo. Focalizando as elites, mostra como a "instabilidade pol�tica" da era Vargas levou ao regime militar. |
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