Filosofia pr�-fumo                                                                 Veja 14/01/1998
Ensa�sta americano recorre � filosofia e � arte para defender o h�bito de fumar

Richard Klein, professor de franc�s na Universidade Cornell, nos Estados Unidos, e editor de Diacritics, uma publica��o acad�mica de alto e esot�rico conceito, tinha um problema: como parar de fumar? At� fins da d�cada de 80, era imposs�vel lecionar, em qualquer parte do mundo, sobre aspectos de futuro do subjuntivo ou da influ�ncia de Fran�ois Villon sobre a obra de Jean Genet sem estar envolto numa nuvem de giz e de fumo de Gauloises ou de Gitanes. Nos Estados Unidos, depois da Guerra do Golfo (a� est� uma boa tese: algu�m j� examinou?), fumo deixou de ser, conforme diz nosso tango-vers�o na voz de Nelson Gon�alves, "um prazer suave, embriagador", para se transformar no inimigo p�blico n�mero 1, deslocando da posi��o o abomin�vel homem das areias, Saddam Hussein, que, segundo consta, n�o bebe e n�o fuma. Richard Klein, em vez de pregar um daqueles hediondos band-aids no bra�o, ou mascar a grosseira goma de nicotina, encontrou uma solu��o mais � altura de seu m�tier: escrever um livro sobre o assunto, sobre cigarro.

O resultado � este fascinante e  tal qual o tabagismo  muitas vezes tamb�m insuport�vel livro Sublimes (Rocco; tradu��o de Cigarros S�o Ana Luiza Dantas Borges; 264 p�ginas; 26 reais). Klein examinou o h�bito de acender um cigarrinho � luz do f�sforo, do Dunhill brilhante (as met�foras desajeitadas s�o resultado inevit�vel da leitura do volume) da literatura, filosofia e hist�ria cultural. Klein lutou contra o v�cio (jura ter sa�do vencedor) e enfrentou o Jean-Paul Sartre de O Ser e o Nada (empate). O resultado do embate � erudito, elegante e eleg�aco, sem jamais baixar � alitera��o, que � coisa de fumante sem imagina��o, car�ter ou for�a de vontade. Segundo Klein, os fumantes n�o fumam apenas pelo prazer da nicotina, mas principalmente porque os cigarros oferecem um prazer belo, sombrio e proibido, inevitavelmente doloroso, uma vez que lhes sugere uma certa no��o de eternidade. � nesse ponto que nos despedimos de Nelson Gon�alves ("fumando espero aquela que mais quero") e damos um efusivo al� a Emmanuel Kant e seu conceito de sublime, que j� est�, inclusive, subindo a escada e batendo na porta.

Richard Klein, na introdu��o, defende o valor da hip�rbole, argumentando que, �s vezes, s� por meio do exagero � poss�vel chegar � verdade. Hoje em dia, mais do que quando foi escrito o livro, em 1993, n�o se pode louvar os cigarros sem se parecer doentio ou perverso, restando apenas elogi�-los desmesuradamente de forma a melhor avaliar esses "pequenos tubos de deleite", conforme a eles se referia o falecido (n�o de c�ncer no pulm�o, enfisema ou infarto) escritor ingl�s Dennis Potter, que n�o foi chamado por Klein para depor no banco de testemunhas do livro. Portanto: cigarro � sublime no conceito kantiano do termo, � uma peculiaridade do belo, um prazer misturado a um certo estremecimento. Klein coopta Kant e, de posse dessa defini��o de sublime, afirma que, assim, � poss�vel at� transformar nossa rela��o com o tempo. A certa altura, Klein escreve  devia em vez disso ter dado uma tragadinha  o seguinte: "Os cigarros s�o batutas ardentes com que voc� pode convocar o futuro e reg�-lo". Nelson Gon�alves tamb�m deixou registrado na cera que o canto de Carlos Gardel "era a batuta de um maestro que fazia pulsar os cora��es". Letra de David Nasser. Carlos Gardel est� citado no livro de Klein. David Nasser, n�o.

Fetiche moralista 
Richard Klein organizou o livro assim: pref�cio, agradecimentos, introdu��o, seis cap�tulos e uma  palavras dele  "Conclus�o pol�mica". O primeiro cap�tulo, "O que � um cigarro?", define o conceito ou no��o de cigarro, com o aux�lio de Sartre e do poeta parnasiano Th�odore de Banville. No segundo cap�tulo, o que d� t�tulo ao livro, temos a celebra��o da natureza da beleza dos cigarros atrav�s de escritos po�ticos v�rios em termos kantianos. O terceiro cap�tulo, possivelmente o mais interessante deles, "O paradoxo de Zeno", prop�e uma leitura atenta do cap�tulo inicial do soberbo romance de Italo Svevo A Consci�ncia de Zeno. No quarto cap�tulo, temos Carmem, de Prosper M�rim�e e Bizet e dos ma�os de cigarro. No quinto cap�tulo, os cigarros como amigos dos soldados. No sexto e �ltimo cap�tulo, "L'air du temps", Klein evoca a ambi��o de todo fumante, que � desfrutar os prazeres do fumo sem nenhuma de suas desvantagens. Aqui, em vinte e poucas p�ginas, Richard Klein, com o aux�lio de uma escritora francesa, Annie Leclerc, e um psiquiatra americano, Harvey Greenberg, arma uma hilariante leitura do filme Casablanca, que at� mesmo o mais sofisticado leitor � capaz de pensar tratar-se de goza��o, par�dia de Woody Allen. Segundo Annie, Humphrey Bogart fuma um cigarro falocr�tico, que oculta sua arrog�ncia, sua mentira, sua impot�ncia, sua invers�o, seu �dio. Que cigarrinho ter� puxado nossa simp�tica Annie? Ser� que ela fuma como eu fumo?

Na pol�mica conclus�o, Richard Klein cita exemplos hist�ricos anteriores e sugere que, quando ele escreve o livro, a campanha antitabagista nos Estados Unidos era mais fetiche moralista do que real preocupa��o com a sa�de. Klein previa ent�o uma regress�o no sentido contr�rio, ou seja, uma rea��o contra o lobby que combate o fumo e os grandes fabricantes de cigarros. Klein errou. Felizmente, ao menos estatisticamente, ele acerta mais do que erra. N�o � pouca coisa, levando-se em conta que, antes mesmo de chegar � d�cima p�gina do livro, o autor j� registrara uma assustadora d�vida de gratid�o para com Jacques Derrida, sua obra e amizade.
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