Clich�s do Brasil no Cinema Estrangeiro
Veja 07/04/1999
Tese mostra que a cultura brasileira fornece clich�s que retratam o pa�s em filmes estrangeiros

Todo mundo sabe como os povos s�o retratados no cinema. O mexicano aparece sonolento, sempre embaixo do sombreiro. O italiano � rom�ntico, meio ing�nuo, tagarela. Depois da II Guerra, o alem�o se tornou dur�o, r�gido, um pouco bobo. J� o franc�s � rom�ntico, artista, superficial. H� dois anos, em Paris, o professor Antonio Carlos Amancio da Silva, da Universidade Federal Fluminense, resolveu pesquisar a imagem do Brasil no cinema estrangeiro. Amancio leu mais de 3.000 sinopses, assistiu a 202 filmes e escreveu uma tese de doutorado: "Em busca de um clich� � panorama e paisagem no cinema estrangeiro".

O levantamento do professor mostra aquilo que se sabe: seja em obras do in�cio do s�culo, como O Terr�vel Brasileiro, filme franc�s de 1909 que tratava de um tri�ngulo amoroso; seja em Carmen Miranda, estrela que nasceu badulaque de exporta��o mas ganhou vida pr�pria nos anos 40 e 50; seja ainda em produ��es da linha porn�-chique, no estilo Emmanuelle 4, o que se v� na tela sobre o Brasil � um desfile de clich�s e estere�tipos. Essas duas palavras s�o feias, mas n�o custa lembrar que guardam id�ias condensadas sobre lugares e pessoas. O cinema estrangeiro repete que somos um pa�s habitado por uma gente simp�tica mas muito pobre, com antepassados canibais e mulatas irresist�veis, que segue religi�es primitivas e pratica dan�as pitorescas, num lugar onde a natureza � deslumbrante mas as leis n�o funcionam. No pacote de obras estudadas, o professor recolheu as maiores amostras de quem faz mais filmes. Examinou 88 americanos, 43 franceses, dezenove italianos e dezesseis ingleses, al�m de outros menos numerosos.

Escrita em "academ�s" moderado, a tese cont�m um belo ensinamento ao rastrear a mitologia que comp�e a imagem externa do pa�s. Amancio demonstra que esses clich�s, que s�o capazes de irritar mesmo quando se admite que cont�m um fundo de verdade, n�o nasceram em laborat�rio -- mas t�m como fonte de inspira��o nossa pr�pria cultura, num mecanismo que permite ao cinema estrangeiro desenhar o Brasil a partir de modelos que os pr�prios brasileiros oferecem. Em um ter�o dos filmes estudados, Amancio encontrou paisagens deslumbrantes, mulheres sensuais, popula��o um tanto ing�nua. Em Meu Amor Brasileiro, de 1953, a americana Lana Turner sente-se "diferente" assim que desembarca no Rio de Janeiro, "como se algo maravilhoso fosse acontecer. H� qualquer coisa no ar". Uma d�cada depois, aprende-se que "isto aqui � o para�so: mulheres, �lcool e m�sica", como diz um personagem de O Homem do Rio, filme de 1964, com Jean-Paul Belmondo. Essa vis�o de pa�s deslumbrante e sensual n�o � nova e seduz grandes intelectuais que estudaram o pa�s durante este s�culo. Mas sua primeira vers�o encontra-se na Carta do Descobrimento, de Pero Vaz de Caminha. "� dele o primeiro olhar europeu sobre o Brasil," explica Amancio. "Essa vis�o ficou, para estrangeiros e para brasileiros."

No in�cio do s�culo XIX, artistas que integravam miss�es estrangeiras n�o se cansaram de retratar a Ba�a de Guanabara, cen�rio onde vivia a fam�lia real portuguesa. Em 1889, Vitor Meirelles causou sensa��o na Exposi��o Universal de Paris ao mostrar a mesma paisagem em tela panor�mica. Exibida na ent�o capital do mundo, num momento em que as m�quinas culturais do s�culo XX come�avam a ser ligadas, a Ba�a de Guanabara transformou-se na imagem oficial do Brasil. "Foi ali que nosso pa�s foi inventado para as plat�ias internacionais", diz o professor. "Nenhuma outra paisagem brasileira seria t�o filmada na hist�ria do cinema." Em 1946, em Interl�dio, com os atores Cary Grant e Ingrid Bergman, o diretor Alfred Hitchcock fez uma hist�ria de suspense que caberia em qualquer lugar. Mas o filme tinha o charme especial de mostrar Copacabana e caprichar num detalhe � Ingrid Bergman � envenenada tomando uma x�cara de caf� brasileiro. O exotismo, marca de boa parte das produ��es estrangeiras sobre o Brasil, n�o � gratuito � funciona como atrativo adicional para plat�ias sempre �vidas por novidade.

Nas aventuras policiais, uma cena � comum: se marginais americanos gostam de fugir de autom�vel para o M�xico, os bandidos europeus de alto gabarito preferem tomar um avi�o para o Rio. Estrangeiros honestos, em viagem pelo pa�s, tamb�m correm o risco de ser v�timas do ambiente fora-da-lei. "Ser� que eles n�o t�m leis no Brasil?", pergunta Tom Hanks em Um Dia a Casa Cai. Tanto � verdade que a maioria das pessoas enxerga a impunidade como caracter�stica do cotidiano brasileiro que esse tipo de coment�rio n�o provoca protesto nem incredulidade nas plat�ias � s� ajuda a divertir. O ingl�s Ronald Biggs, assaltante do trem pagador, mito criminoso n�mero 1 da Inglaterra no p�s-guerra, n�o apenas escolheu o Brasil para viver ao fugir da pol�cia. Foi al�m. Em 1989 participou de um filme para mostrar como a vida era boa no Rio. A descoberta, no in�cio da d�cada passada, de que o criminoso nazista Josef Mengele vivera escondido no Brasil s� veio confirmar, como not�cia da vida real, aquilo que as plat�ias haviam visto numa obra de fic��o, Os Meninos do Brasil, best-seller levado ao cinema em 1978 com Gregory Peck no papel principal. Amancio conta que estava no meio da pesquisa quando descobriu que a chave para decifrar clich�s e estere�tipos se encontra em refer�ncias hist�ricas � a origem dessa vis�o sobre impunidade est� nos degredados da coloniza��o portuguesa. "Voc� vai separando as figuras do cinema e v� que elas t�m correspond�ncia com algum personagem real", explica.

Z� Carioca n�o � uma inven��o de Walt Disney. Hollywood colocou o charuto em sua boca e o mandou morar numa favela de morro do Rio. Mas os papagaios s�o atra��es do Brasil desde as primeiras caravelas portuguesas. Eram disputados por contrabandistas e, como sabiam imitar a fala humana, chegavam a ser tratados como aves sagradas. Examinando trabalhos de categoria t�o diversa, Amancio encontrou um servi�o de primeira, de um cineasta capaz de procurar um pa�s verdadeiro por tr�s da casca de estere�tipos. � o franc�s Marcel Camus, que filmou Orfeu Negro, com base em poema de Vinicius de Moraes e m�sica de Tom Jobim. Orfeu Negro faturou o Oscar de filme estrangeiro e tamb�m o Festival de Cannes. Lan�ou Vinicius no circuito europeu e firmou o trip� do mais vigoroso mito cinematogr�fico do Brasil: negro, favela e m�sica. Mais tarde, Camus ainda filmaria Os Bandeirantes, em que produziu imponentes imagens da funda��o de Bras�lia, e Otalia da Bahia, baseado em Jorge Amado. "Com clich�s ou n�o, nenhum cineasta estrangeiro filmou nosso pa�s com tanto empenho e com tanto amor", diz Amancio.
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