Calor de Rachar
Veja 07/01/1998
Por culpa do El Ni�o, o Brasil tem o ver�o mais quente das �ltimas d�cadas

Os 8 quil�metros da Lagoa Rodrigo de Freitas, uma das �reas de lazer mais movimentadas do Rio de Janeiro, passaram as �ltimas duas semanas entregues �s moscas. O motivo � o calor. O Rio sempre foi uma cidade de clima quente, mas neste in�cio de ver�o a temperatura ultrapassou os limites do suport�vel. Na orla mar�tima, os moradores trocaram o fuso hor�rio e abandonaram as caminhadas matinais. Agora, o tr�fego intenso de pedestres acontece s� � noite. Durante quatro dias seguidos na semana passada, a temperatura chegou a 40,6 graus. O recorde dos �ltimos vinte anos foi quebrado no dia 23, �s v�speras do Natal: 41,6 graus. Foram as temperaturas mais altas do pa�s numa semana em que o excesso de calor virou assunto nacional. Em S�o Paulo, por duas vezes a temperatura passou dos 33,6 graus  marca recorde para o m�s de dezembro. Mesmo Curitiba, cidade de clima ameno acostumada a m�ximas de 25 graus em dezembro, teve suas tardes de balne�rio tropical com term�metros em 31 graus. O Brasil virou um forno.

Tanto calor � uma conseq��ncia indireta do El Ni�o, o aquecimento anormal das �guas do Oceano Pac�fico que virou o clima mundial de pernas para o ar. O El Ni�o provocou fortes chuvas no sul do pa�s, mas n�o permitiu que as frentes frias vindas da Argentina e do Chile alcan�assem a Regi�o Sudeste. S�o elas que alimentam as chuvas no ver�o, principalmente as de fim de tarde. "� normal que o Sudeste tenha altas temperaturas no ver�o porque os ventos que v�m do Pac�fico se dispersam antes de chegar � regi�o", explica Carlos Nobre, chefe do Centro de Previs�o do Tempo e Clima do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Inpe. "A novidade neste ano, causada pelo El Ni�o, � que as chuvas est�o muito irregulares." Em 1997, o �ndice pluviom�trico ficou baix�ssimo no Rio de Janeiro, caindo � metade em alguns bairros. O Alto da Boa Vista, onde normalmente a m�dia � de 2.277 mil�metros por ano, registrou 1.396 mil�metros no ano passado. Em Salvador, o �ndice pluviom�trico previsto para dezembro era de 130 mil�metros, mas choveu apenas um quinto disso. Enquanto isso, na Regi�o Sul est� chovendo mais do que o normal.

49 graus  De acordo com as estimativas do Inpe, o pa�s deve continuar com temperaturas m�ximas pr�ximas e at� superiores aos 40 graus at� mar�o. � extremamente improv�vel, por�m, que chegue aos 49 graus registrados na semana de Natal pelo term�metro de rua na Central do Brasil, no Rio. Influenciados pelo sol direto, pela radia��o do asfalto e pelos gases dos canos de descarga dos carros, esses term�metros de rua marcam �ndices bem superiores aos que os institutos de meteorologia colhem em seus medidores � sombra. Um fen�meno, por�m, � quase certo. As maiores temperaturas deste ver�o devem ocorrer no litoral do Sudeste, e n�o no Nordeste. Isso porque as brisas que sopram do Oceano Atl�ntico para as praias nordestinas s�o mais fortes e mais frias do que no resto do pa�s. Durante o ver�o, o Recife recebe ventos do alto-mar, com temperatura na casa de 28 graus. J� no Rio de Janeiro e praticamente em toda a Regi�o Sudeste, os ventos sopram do continente e est�o t�o fracos que n�o conseguem conduzir o ar frio. Na pr�tica, isso significa que as temperaturas m�ximas no litoral nordestino devem chegar a 33 graus, 7 a menos do que no Sudeste.

O calor provocou uma corrida at� as cidades praianas. No litoral paulista, mais de 1,5 milh�o de pessoas disputaram um palmo de areia para fincar seu guarda-sol. Faltou �gua, os telefones entraram em pane e houve congestionamentos monstros durante todo o feriad�o. Temendo o caos da superpopula��o, a prefeitura de B�zios, no litoral fluminense, chegou a pedir que os turistas n�o fossem para a cidade. N�o adiantou. B�zios recebeu 150.000 visitantes e passou o rev�illon com racionamento de �gua e eletricidade. Em compensa��o, o calor fez a festa de muita gente. Os hot�is cariocas tiveram lota��o completa no feriad�o. "Quanto mais sol, melhor", diz o prefeito do Rio de Janeiro, Luiz Paulo Conde. Nas lojas de eletrodom�sticos, a procura por aparelhos de ar condicionado e ventiladores foi tanta que o consumidor esperou at� tr�s dias para receb�-los em casa. Em todo o pa�s, a ind�stria estima que as vendas desses aparelhos cresceram 10% com a onda de calor. Uma das estrelas do ramo � um ar-condicionado importado da It�lia, que pode ser instalado em qualquer lugar, sem que se precise quebrar a parede. Custa 1.200 reais e est� repetindo o sucesso que o Vaporetto fez no ano anterior. As vendas tamb�m explodiram nas sorveterias. O consumo cresceu 30% em dezembro, em rela��o ao mesmo m�s do ano passado. "Se o calor continuar, n�o sei se vou dar conta", diz a dona da sorveteria carioca Mil Frutas, Renata Saboya.
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