Horas de Agonia                      Veja 08/11/2000
O p�nico a bordo, nas hist�rias sobre dois acidentes a�reos e um seq�estro

Fim do seq�estro: um
assassinato e manobras
nunca vistas com um 737 







Um ter�o da popula��o tem medo de voar e n�o est� nem a� para estat�sticas que provam a seguran�a do transporte a�reo. Essa turma deve manter do livro Caixa-Preta (Editora Objetiva, 352 p�ginas, 29,90 reais) a mesma dist�ncia a que gosta de estar de um avi�o. A ser lan�ado nesta segunda-feira, esse trabalho de Ivan Sant'Anna � piloto amador durante 25 anos � traz um relato minucioso de tr�s grandes hist�rias de p�nico da avia��o brasileira. Ex-operador da bolsa de valores que j� cravou um best-seller com Rapina, Sant'Anna investigou nos �ltimos tr�s anos duas quedas e um seq�estro de avi�o. Entrevistou dezenas de sobreviventes e parentes de v�timas, gravou depoimentos, leu bilhetes de despedida escritos � �ltima hora, examinou cartas aeron�uticas e plantas de jatos e estudou relat�rios m�dicos, inqu�ritos e laudos cadav�ricos. No livro, narra os detalhes dos acidentes e o drama vivido nas aeronaves durante as trag�dias. O leitor tem a impress�o de que o autor estava dentro do avi�o, assistindo aos acontecimentos, porque Sant'Anna reconstituiu os desastres pelo ponto de vista dos sobreviventes.

O primeiro acidente narrado ocorreu em Paris, a 5 quil�metros do Aeroporto de Orly. Em 1973, um Boeing 707 da Varig com 134 pessoas a bordo pegou fogo em v�o por causa de um cigarro jogado no cesto de toalhas de um dos banheiros. O piloto teve de fazer um pouso for�ado a um minuto da pista de Orly. Sobreviveram dez dos dezessete tripulantes e um dos 117 passageiros. A fuma�a propagou-se a partir do banheiro criando cenas de horror. S� houve um caso de morte provocada pela queda. Todos os outros mortos foram v�timas de asfixia ou das chamas. Sobreviveram mais tripulantes porque boa parte deles se trancou na cabine de comando, mantendo-se mais isolada da fuma�a. Esse acidente matou personalidades como a atriz Regina L�clery, o senador Filinto Muller e o cantor Agostinho dos Santos.

Esse cap�tulo do livro revela que houve fraude na tradu��o para o portugu�s do relat�rio das autoridades francesas. O documento original afirmava que os cestos de pap�is do banheiro do avi�o estavam fora das especifica��es. Na vers�o divulgada pelo Minist�rio da Aeron�utica brasileiro constava que os materiais seguiam regulamentos americanos. "O texto divulgado pela Aeron�utica tamb�m tem elogios � tripula��o, coisa que n�o aparece no original", diz Sant'Anna.

Cada parte da obra tem mapa, ilustra��es e fotografias. Esse recurso ajuda a compreender as manobras feitas pelo piloto protagonista da segunda hist�ria, que conta o seq�estro de um Boeing 737-300 da Vasp no trajeto Belo Horizonte�Rio de Janeiro, em 1988. Pouco depois da decolagem, o tratorista desempregado Raimundo Nonato come�ou a disparar contra a porta da cabine dos pilotos com um rev�lver calibre 32. Nonato culpava o presidente Jos� Sarney pela pen�ria em que estavam ele pr�prio e o Brasil e decidira atirar-se com um jato repleto de passageiros sobre o Pal�cio do Planalto. Os tiros feriram um tripulante e um passageiro, e o comandante Fernando Murilo de Lima e Silva rendeu-se ao seq�estrador. Uma vez na cabine, Nonato mandou que se tomasse o rumo de Bras�lia. O co-piloto tentou pegar o r�dio de comunica��o, tomou um tiro na cabe�a e morreu instantaneamente.

Por mais de tr�s horas, o comandante Murilo negociou com o seq�estrador, voando sobre Bras�lia, Goi�nia e An�polis. Diante da intransig�ncia de Nonato e da possibilidade de ficar sem combust�vel, chegou a fazer duas manobras quase suicidas tentando desequilibrar e desarmar o seq�estrador. Na primeira, fez o avi�o girar sobre si mesmo at� ficar de ponta-cabe�a e retornar � posi��o original. Depois, um parafuso, deixando-o cair com o nariz para baixo enquanto girava. Essa manobra foi t�o brusca que parte do estabilizador do Boeing se desprendeu e caiu sobre um conjunto de casas em Goi�nia. Engenheiros da f�brica afirmam que � o �nico registro de manobra desse tipo com um Boeing 737. As piruetas foram testemunhadas por um ca�a da Aeron�utica que acompanhava o v�o e contadas pelo comandante Murilo, que, na confus�o, acabaria pousando na capital goiana. Em terra, Nonato exigiu um avi�o menor para fugir, acabou levando tr�s tiros numa cilada e morreu alguns dias depois, internado no Hospital Santa Genoveva, em Goi�nia. Como vinha se recuperando bem dos ferimentos, a morte se tornou um mist�rio que s� viria a ser desvendado pelo legista Fortunato Badan Palhares, da Universidade Estadual de Campinas, que autopsiou o corpo e atestou que ele morreu de infec��o por anemia falciforme, uma doen�a cong�nita.

Alguns trechos de Caixa-Preta parecem obra de fic��o. Autor de quatro romances, Sant'Anna n�o resiste ao mais pitoresco na personalidade de alguns personagens. Na terceira hist�ria do livro, que narra o caso do avi�o que caiu na floresta de Mato Grosso em 1989, ao final de um v�o em que o piloto se perdeu sobre a Amaz�nia, h� uma mulher hist�rica, o b�bado chato, o crente em prece, o sujeito irritantemente calmo, o que depois da queda pergunta quanto foi o jogo do Brasil e uma mulher com b�ssola que s� reza voltada para os pontos cardeais. Nada disso tira a dramaticidade do relato. A Amaz�nia � uma das raras regi�es do planeta sobre as quais se voa, em v�rios trechos, sem monitoramento. Em 1989, nem mesmo o centro de controle de v�o de Bel�m tinha radar. O Boeing 737-200 da Varig decolou de Marab� com destino a Bel�m, mas, por um erro de leitura de rota do comandante C�zar Garcez, tomou a dire��o oposta. Depois de tr�s horas e meia de idas e vindas, o combust�vel acabou e Garcez pousou o avi�o com 54 pessoas a bordo no meio da floresta. Doze morreram.

Garcez foi um dos protagonistas que se recusaram a dar entrevista para Sant'Anna. O piloto vive em Florian�polis e n�o quer falar mais sobre o acidente. Sant'Anna compensou a falta do depoimento lendo todas as p�ginas do inqu�rito. Garcez foi condenado a quatro anos de pris�o, recorreu e aguarda em liberdade o julgamento de recurso. Outro piloto que se recusou a conversar com Sant'Anna foi o segundo comandante do Boeing que caiu em Orly, Ant�nio Fuzimoto. Num esfor�o para convenc�-lo a falar, o escritor mandou-lhe um pacote com seus livros e recebeu um telefonema pedindo que fosse busc�-los de volta, apenas. A mesma estrat�gia, contudo, deu certo com Ricardo Trajano, o passageiro sobrevivente do acidente em Orly. Trajano escapou da morte por contrariar orienta��es da tripula��o. Seu lugar era numa das primeiras filas atingidas pela fuma�a, mas ele preferiu pousar de p�, encostado � porta da cabine de comando. Um ano depois do desastre, j� recuperado, Trajano entrou na loja da Varig no Copacabana Palace, no Rio, e disse para uma perplexa vendedora: "No ano passado, comprei uma passagem para Londres, mas o avi�o caiu e n�o cheguei l�. Acho que tenho direito a outra". Levou a passagem.
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