| Est� Virando �gua Veja 29/03/2000 Aquecimento da Ant�rtica transforma radicalmente a geografia e os h�bitos da fauna no P�lo Sul Icebergs na Pen�nsula Ant�rtica: por causa do calor, maior quantidade de gelo solto As varia��es de temperatura no P�lo Sul s�o sempre observadas com aten��o, pois funcionam como uma esp�cie de term�metro do comportamento do clima no restante do globo. Nas �ltimas d�cadas os cientistas andam espantados com o ritmo permanente de aquecimento da regi�o. Comparada � decada de 40, a m�dia anual de temperatura da Pen�nsula Ant�rtica subiu entre 1,6 e 2,2 graus Celsius. Levando-se em conta que � um per�odo longo, parecem n�meros insignificantes. Mas essa altera��o sutil tem sido suficiente para provocar mudan�as radicais na paisagem local. O continente gelado est�, literalmente, virando �gua. Plataformas gigantescas de gelo flutuante simplesmente derreteram. Blocos de icebergs com quil�metros de extens�o se desprendem das bordas do continente a um ritmo acima do normal. Nenhum cientista arrisca o palpite de que, um dia, o P�lo Sul vai sumir do mapa, derretido feito picol� debaixo de um sol escaldante. "Mas n�o h� d�vida alguma de que as coisas est�o esquentando por aqui", afirma o glaciologista Francisco Eliseu Aquino, um dos membros do Projeto Ant�rtico Brasileiro. A base brasileira est� instalada na Ilha Rei George, que perdeu um naco de 7% de sua crosta gelada nos �ltimos cinq�enta anos. As transforma��es provocadas pelo aumento da temperatura j� s�o bastante vis�veis em todo o continente ant�rtico (veja anima��o em Shockwave Flash). Na �ltima d�cada, tr�s grandes plataformas de gelo que flutuam em seu litoral, batizadas de Wordie, Larsen A e Pr�ncipe Gustav, viraram �gua. Duas outras, a Larsen B e a Wilkins, tamb�m parecem condenadas ao derretimento. Uma das conseq��ncias mais �bvias do degelo cont�nuo da calota polar � o aumento do n�vel dos oceanos. Segundo estimativas recentes, mantido o ritmo atual de aquecimento no continente, ocorreria uma eleva��o m�dia de 60 cent�metros no n�vel dos mares nos pr�ximos 100 anos. O aquecimento tem conseq��ncias dram�ticas para a fauna da regi�o, come�ando pelo krill, um pequeno crust�ceo de apenas 6 cent�metros de comprimento que est� na base da alimenta��o de boa parte das esp�cies que vivem no continente gelado. O krill atualmente enfrenta dificuldades para se desenvolver, pois depende do mar congelado para sobreviver nos tr�s primeiros anos de vida. Durante o inverno, ele se alimenta basicamente de microalgas que ficam presas nas grossas camadas de gelo. A forma��o dessa crosta, importante para a manuten��o da vida mar�tima, est� amea�ada. Em meados do s�culo XX, quatro em cada cinco invernos ant�rticos produziam grandes camadas de gelo mar�timo. Hoje, isso ocorre apenas em dois a cada cinco. "Os estudos em andamento apontam para uma rela��o direta entre o aquecimento do continente e as possibilidades de sobreviv�ncia do crust�ceo", diz o bi�logo Vicente Gomes, da Uuniversidade de S�o Paulo. A escassez de krill est� afetando a dieta dos ping�ins ad�lies. H� 600 anos essa esp�cie de ave domina a fauna do continente. Censos recentes indicam que os ad�lies t�m sofrido baixas seguidas. Nos �ltimos dois anos sua popula��o diminuiu 10%. Al�m disso, eles t�m h�bitos extremamente sistem�ticos, a ponto de sempre fazer o ninho no mesmo lugar, ano ap�s ano. Por isso, os pesquisadores suspeitam que os ping�ins n�o estejam conseguindo adaptar-se �s mudan�as de relevo provocadas pelo derretimento no continente. Algumas esp�cies de mam�feros, como os elefantes-marinhos, est�o deixando de migrar do continente nos per�odos de inverno. A raz�o, segundo os cientistas, � que a ocorr�ncia de climas mais amenos tem permitido a v�rios grupos desses animais permanecer ali o ano inteiro. O que est� acontecendo na Ant�rtica � apenas a ponta do iceberg. Fen�menos semelhantes est�o ocorrendo em v�rios pontos do planeta, ainda que de propor��es menos dr�sticas. A calota polar do �rtico perdeu 6% de sua �rea entre 1978 e 1996. A cada ano, somem em torno de 34.000 quil�metros quadrados, o equivalente a uma Holanda. A crosta polar tamb�m ficou mais fina. "Nos �ltimos trinta anos, a espessura m�dia do gelo flutuante encolheu de 3,1 metros para 1,8", afirma Lisa Mastny, pesquisadora do Instituto Worldwatch de Washington. Em algumas partes da Groenl�ndia, a transforma��o � mais dram�tica. L�, a camada de gelo sobre o solo vem perdendo 1 metro por ano de espessura desde 1993. O impacto � percebido no vizinho Canad�. No norte do pa�s, a regi�o cujo solo fica permanentemente congelado recuou 100 quil�metros no �ltimo s�culo. Diferentemente da Ant�rtica, que � um continente coberto de gelo, o �rtico pode ser definido como um grande mar congelado, capaz de refletir 90% dos raios solares que incidem sobre sua superf�cie. Quando encontra um buraco nessa camada, a luz atinge diretamente a �gua, que absorve a maior parte dessa energia. Quanto mais esquenta a �gua, mais gelo derrete e mais calor � absorvido pelo mar, criando um c�rculo vicioso. Fora dos p�los, o gelo tamb�m est� derretendo. As geleiras que descem os vales das grandes cordilheiras est�o encolhendo. Pesquisadores do Servi�o de Monitoramento Mundial de Geleiras estimam que um quarto das geleiras do mundo pode desaparecer at� 2050. Dentro de um s�culo, s� restar�o alguns peda�os isolados no Alasca, na Patag�nia e no Himalaia. Esse degelo generalizado � o sinal mais aparente do aquecimento clim�tico do planeta. A Terra est� experimentando o per�odo mais quente dos �ltimos 600 anos, afirmam alguns pesquisadores. Em 1998, a temperatura m�dia da superf�cie do planeta chegou a 14,57 graus Celsius, um recorde desde que as medi��es come�aram a ser feitas, no final do s�culo XIX. A causa de todo esse processo de aquecimento ainda � controversa. V�rios fatores devem estar concorrendo para alterar o clima do planeta. Uma das possibilidades � que o Sol esteja passando por um per�odo de intensa atividade e emitindo mais calor em dire��o ao nosso planeta. Geralmente, esses ciclos solares duram mil�nios. Mas, para os especialistas do Painel Intergovernamental sobre Mudan�as Clim�ticas, reunido todo ano pela Organiza��o das Na��es Unidas, o principal vil�o � o efeito estufa. Ele estaria ocorrendo porque altas concentra��es na atmosfera de gases produzidos pela sociedade industrial, como o metano e o di�xido de carbono, aprisionam na superf�cie da Terra o calor irradiado pelo Sol. � exatamente o que faz o teto de vidro em uma estufa de jardim. "H� um consenso cada vez maior entre os cientistas de que as varia��es naturais sozinhas n�o explicam o que est� acontecendo", diz Jos� Ant�nio Marengo, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. N�o se tem certeza se o derretimento dos p�los � conseq��ncia direta da polui��o. Mas sua participa��o nesse processo � ineg�vel. Nos �ltimos dois s�culos, a concentra��o de di�xido de carbono na atmosfera cresceu 30%, gra�as � fuma�a das chamin�s, do escapamento dos carros e dos inc�ndios florestais. Cientistas estimam que, hoje, a concentra��o de carbono � a mais alta dos �ltimos 160.000 anos. Se as emiss�es continuarem no mesmo ritmo, avaliam os cientistas, neste s�culo a Terra vai esquentar mais r�pido do que em qualquer outro per�odo nos �ltimos dez mil�nios. |
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