Inferno na Terra Veja 07/10/1998 Dzerzhinsk, a cidade mais polu�da do mundo, tem o solo envenenado e um lago de �gua quente devido � rea��o qu�mica
Todo entardecer � como se um cobertor de chumbo descesse sobre a cidade. O c�u fica impregnado de fuma�a escura e espessa. O ar � irrespir�vel. As poucas �rvores ainda vivas s�o franzinas e sem folhas. Os animais desapareceram. S� alguns p�ssaros resistem, mas parecem desanimados e sem rumo. O solo tem trechos vermelhos, verdes e amarelos, recortados por riachos de um l�quido branco e espesso. Assim � Dzerzhinsk, uma cidade industrial a 400 quil�metros de Moscou, apontada pela organiza��o ambientalista Greenpeace como a mais polu�da do mundo. At� 1991, a exist�ncia desse imenso parque fabril, erguido nos anos 30, era segredo de Estado. Ali se produziam as armas qu�micas da antiga Uni�o Sovi�tica, com resultados devastadores para o meio ambiente. Durante d�cadas, as chamin�s de Dzerzhinsk despejaram no ar toneladas de gases letais como o do pesticida DDT, o g�s de mostarda e outros que provocam bolhas na pele e levam � morte.
Com a derrocada do comunismo no Leste Europeu e o fim da Guerra Fria, os produtos usados para fabricar armas foram armazenados em grandes barris, hoje enferrujados e jogados ao l�u por toda a cidade. Com o tempo, muitos dilataram e vazaram. O que escapou ajudou a transformar um grande lago local no Mar Branco, um reservat�rio inflam�vel de res�duos qu�micos. O apelido se deve � espuma branca que cobre toda sua superf�cie. Bi�logos dizem que o lago cont�m a mais alta concentra��o mundial de dioxina, produto cancer�geno. Mesmo quando a temperatura cai a menos 40 graus Celsius no inverno, o lago fica aquecido por causa dos efluentes qu�micos. Apesar do enorme perigo que isso representa, muitos moradores de Dzerzhinsk nadam nessas �guas porque "s�o muito agrad�veis e nunca congelam", segundo o depoimento de um deles.
Gosto met�lico � Atualmente, os produtos qu�micos feitos ali s�o menos assustadores, mas a lista inclui venenos como uma vers�o russa do agente laranja, merc�rio, cloro e chumbo. Grande parte das f�bricas de Dzerzhinsk usa cloro e elimina dioxina como res�duo. Essa subst�ncia � suspeita de causar, al�m de c�ncer, doen�as do f�gado, da pele e danos ao sistema imunol�gico. Ela tamb�m prejudica o aparelho reprodutor das mulheres e pode passar para os beb�s atrav�s do leite materno. Amostras de solo da regi�o analisadas apresentaram n�vel de dioxina 1800 vezes superiores ao permitido na R�ssia. A �nica provid�ncia que a prefeitura local tomou at� agora foi oferecer uma m�scara de g�s gr�tis para cada morador. Pouca gente se interessou pela oferta. Quem chega a Dzerzhinsk logo sente dor de cabe�a e um certo gosto met�lico na boca. J� os moradores dizem nem perceber o mau cheiro. Est�o acostumados, afirmam.
Tosse e c�ncer � A conviv�ncia com a degrada��o ambiental � t�o �ntima que j� n�o assusta. V�rias pessoas aquecem suas casas nas redondezas da cidade com carv�o retirado do solo e impregnado de dioxina. Ao ser queimado, o g�s venenoso � liberado no ar. Pequenas planta��es fornecem legumes e tub�rculos de apar�ncia estranha. Perto das f�bricas existem lagos artificiais onde pescadores pegam peixes magrelos para comer e vender. At� dois anos atr�s, os residentes de Dzerzhinsk bebiam �gua de uma fonte local. Ela tinha cheiro ruim e uma apar�ncia vermelho-amarronzada. Em 1996 foi constru�do um sistema de �gua encanada. Mas, ainda hoje, se algu�m deixar �gua num jarro durante a noite, ela amanhece com listras verdes e vermelhas.
Os 300.000 habitantes da cidade, embora pare�am n�o dar muita aten��o ao desastre que os circunda, sentem na pele as conseq��ncias da polui��o. A expectativa de vida � de apenas 42 anos para os homens e 47 para as mulheres, muito menos que a m�dia nacional, que � de 58 e 71 anos, respectivamente. A maternidade registra uma taxa de defeitos de nascen�a tr�s vezes superior � do pa�s. Os problemas de sa�de v�o de tosse, dores cr�nicas nas pernas, f�gado ineficiente e dificuldade de respira��o a c�nceres. "Eu sei que estou envenenado e que todo mundo aqui est�", afirma Valerie Kuraev, de 59 anos. "Mas nascemos nesta terra e � preciso continuar vivendo. Pensando bem, n�s apenas existimos. Isto n�o � realmente uma vida."
Para n�o espantar os investidores estrangeiros, as autoridades locais costumam minimizar ou negar os danos ao meio ambiente e � sa�de. O chefe do departamento de sa�de da cidade, Vladimir Karpov, afirma que a situa��o � "normal e n�o difere da de qualquer outra cidade russa". Em 1996, o governo considerou duas vilas vizinhas �s ind�strias "inabit�veis" e apagou-as dos registros oficiais. Apesar de os nomes de Igumnovo e Petryaevka terem sido banidos dos mapas, as vilas n�o foram evacuadas. Segundo Lev Fyodorov, um especialista russo em dioxina, ningu�m deveria viver nessa �rea. "De fato, toda a popula��o de Dzerzhinsk deveria ser removida e uma enorme cerca, colocada ao redor e fechada para sempre", diz ele.
Ironicamente, a �nica perspectiva de melhora dos �ndices de polui��o de Dzerzhinsk est� no agravamento da crise econ�mica que assola a R�ssia. A atividade industrial caiu dois ter�os nos �ltimos anos e os n�veis de polui��o acompanharam o decl�nio. "As crian�as costumavam brincar de esconde-esconde no nevoeiro cor de laranja poucos anos atr�s", conta a aposentada Valery Gnusarkov. Ainda assim, quase ningu�m na cidade aprova a melhora do ar. Os habitantes querem que as f�bricas trabalhem em sua capacidade plena, caso contr�rio podem perder o emprego. Jovens de outras localidades continuam chegando � cidade em busca de trabalho. A maioria dos trabalhadores recebe entre 100 e 200 d�lares por m�s e sabe que oportunidades assim s�o raras na nova R�ssia. |