| Trag�dia Anunciada Veja 11/02/1998 Alpinistas brasileiros desafiam conselhos e adversidades e morrem em avalanche nos Andes Faltavam poucos minutos para as 8 horas da noite de ter�a-feira, o sol ainda brilhava forte sobre a Cordilheira dos Andes, quando o r�dio VHF do montanhista paranaense D�lio Zippin Neto, 30 anos, come�ou a emitir ru�dos. Deitado dentro de uma barraca cravada sobre uma plataforma de gelo, a 4.000 metros nas encostas do Monte Aconc�gua, na fronteira da Argentina com o Chile, Dalio estremeceu ao atender ao chamado. "Por favor, algu�m nos ajude, houve um acidente grave", gritava do outro lado Othon Leonardos, um brasiliense de 23 anos. "O Mozart morreu! O Mozart morreu!", repetia. "O Alexandre est� l� embaixo!" Naquele momento, Othon estava pendurado sobre um abismo, seguro apenas por uma corda que lhe estra�alhava os m�sculos da perna. Abaixo dele, dois outros montanhistas os cariocas Mozart Cat�o e Alexandre Oliveira estavam mortos. Os tr�s foram colhidos por uma avalanche de pedras e gelo quando tentavam alcan�ar o cume do Aconc�gua, a montanha mais alta da Am�rica do Sul, com 6.959 metros. Quando o acidente aconteceu, Othon, Mozart e Alexandre estavam a 6.150 metros, a apenas 800 metros de seu objetivo. D�lio e outro integrante da expedi��o, o tamb�m paranaense Ronaldo Frazen J�nior, tinham ficado no acampamento-base, a 6 quil�metros de dist�ncia, e se salvaram. Quando a avalanche aconteceu, Mozart e Alexandre foram arrastados montanha abaixo. Othon ficou pendurado por uma corda de 60 metros com o corpo virado para o pared�o gelado. Nessa posi��o, conseguiu pegar o r�dio na mochila e discar o n�mero 142800, a freq��ncia do Parque Provincial do Aconc�gua, na qual seus companheiros do acompamento-base estavam sintonizados. Suspenso sobre o abismo, com as pernas quebradas pelo impacto da corda na hora da avalanche, ele ainda conversou com D�lio e Ronaldo pelo r�dio durante duas horas e meia. Depois morreu congelado. "Quando o r�dio parou de fazer ru�do, por volta das 22h30, percebi que n�o havia mais esperan�a", contou D�lio a VEJA no vilerajo argentino de Puente del Inca, situado na base do Aconc�gua, na �ltima sexta-feira. "Antes de morrer, ele me pediu para dizer ao pai e � m�e que os amava. Tamb�m pediu que tom�ssemos uma garrafa de vinho por ele. Depois ficou em sil�ncio." Imprud�ncia O que produziu a trag�dia da semana passada nos Andes foi em boa parte resultado da imprud�ncia. Os cinco brasileiros tinham ido aos Andes com a miss�o de escalar o Aconc�gua pela chamada face sul. � um percurso considerado muito perigoso, n�o tanto pelo esfor�o exigido na escalada, mas pelos riscos que envolve. O trecho em que se encontravam os alpinistas � uma parede vertical de rocha e gelo a�oitada por ventos fort�ssimos. � noite, a temperatura cai para 30 graus negativos. O pior s�o as avalanches. Nesta �poca do ano, elas acontecem ao ritmo de dez por dia, o que torna qualquer tentativa de chegar ao topo um desafio extremamente arriscado. Al�m do gosto puro e simples pela aventura, os brasileiros estavam no Aconc�gua motivados pelo dinheiro do patroc�nio. Mozart Cat�o, o chefe da expedi��o, tinha um contrato de 90.000 reais com a Petrobr�s pelo qual se comprometia a divulgar o nome da empresa em todas as apari��es em fotos e v�deos. Pelos termos do contrato, ele recebeu parte do dinheiro antes de partir. A outra receberia s� na volta, com a condi��o de conseguir chegar ao topo da montanha. "N�s queremos retorno em m�dia, se a expedi��o n�o vai para a frente n�s cancelamos o contrato", diz Milton Costa Filho, coordenador de projetos internacionais da Petrobr�s. "Quando chegamos a Mendoza, na Argentina, o Litos Sandres, um montanhista que j� fez a face sul, recomendou que n�o fossemos", conta o sobrevivente D�lio. "Disse que seria uma roleta-russa. Mas o Mozart queria porque daria mais divulga��o." Rivalidade Dos tr�s alpinistas mortos, Mozart era o mais experiente. Tinha sido o primeiro brasileiro a chegar ao topo do Monte Everest, a montanha mais alta da Terra, em 1995. A fa�anha foi realizada junto com o paranaense Waldemar Niclevicz, mas os dois brigaram logo depois de descer do Everest. Rivais desde ent�o, estavam envolvidos numa corrida na qual cada um pretendia ser o primeiro brasileiro a escalar o ponto mais alto de cada um dos sete continentes. Waldemar havia completado o desafio em novembro do ano passado, ao escalar o Monte Carstenz, na Indon�sia. Mozart, que n�o tinha conseguido autoriza��o do governo indon�sio para escalar o Carstenz tamb�m a �nica montanha que lhe faltava , decidiu dar o troco propondo ao seu patrocinador o projeto para se tornar o primeiro brasileiro a superar a face sul do Aconc�gua. "O que matou Mozart foi a disputa que ele travava com o desafeto Waldemar Niclevicz", diz o empres�rio Oskar Metsavaht, amigo de Mozart. Desde 1926, ano em que a estat�stica come�ou a ser feita, o Aconc�gua j� matou 85 montanhistas 79 homens e seis mulheres. Somente nesta temporada, que come�ou em novembro e vai at� o fim de fevereiro, morreram oito. Entre as v�timas est� o capit�o do Ex�rcito brasileiro V�rcio Yudi Fujihara, 37 anos. Ele desapareceu no in�cio de janeiro, quando subia a Rota dos Polacos, na face leste. Fazia parte de uma equipe de tr�s montanhistas. No meio da escalada, o mau tempo fez com que seus dois companheiros desistissem. Fujihara continuou sozinho e nunca mais foi visto. Nos �ltimos sete anos, a aflu�ncia de visitantes ao Aconc�gua tem crescido cada vez mais. "O problema � que virou moda", reclama Pablo Perell�, chefe da guarda do parque onde est� situada a montanha. "As ag�ncias de turismo vendem o monte como lugar de trekking. E ele n�o serve para isso." Das 2.800 pessoas que passaram por l� neste ano, apenas onze se aventuraram pelas escarpas da face sul. Entre elas est�o os tr�s brasileiros mortos na semana passada. O primeiro alpinista a chegar, oficialmente, ao cume do Aconc�gua foi Matthias Zurbriggen, em 1897. Existem, no entanto, evid�ncias arqueol�gicas de que suas trilhas eram freq�entadas por tribos ind�genas da regi�o, como os aimar�s e os incas. Estes �ltimos deram � montanha o nome de Aconcahua, que em qu�chua quer dizer sentinela branca. Existem tr�s maneiras de atingir o cume da montanha: pelas faces oeste, leste e sul. As duas primeiras s�o as mais f�ceis e numa delas praticamente n�o h� escalada. Chega-se ao pico caminhando. A face sul � diferente. O trajeto alterna geleiras o ano inteiro, inclusive no ver�o, com trechos em rocha. "As t�cnicas e equipamentos para escalada em rocha e em neve s�o muito diferentes, e essa mistura torna a face sul muito complicada", diz o paulista Luiz Alberto Martinez, que h� dez anos escalou o Aconc�gua. Tontura e v�mito O maior perigo, no entanto, s�o as mudan�as bruscas no clima. A montanha � continuamente varrida por ventos de mais de 200 quil�metros hor�rios e, neste ano, em fun��o do El Ni�o, as geleiras no topo est�o muito inst�veis, resultando em freq�entes avalanches. O paulista Luiz Makoto Ishibe, 37 anos, um dos mais experientes montanhistas brasileiros, conta que esteve na face sul do Aconc�gua duas vezes, mas cancelou a subida por causa do mau tempo. Numa das ocasi�es, esperou dez dias at� que os ventos amainassem. "N�o existe escalada com hora marcada", diz ele. "A montanha n�o tem hor�rio. Se entrar mau tempo, n�o se enfrenta a montanha, simplesmente se espera." Antes da viagem dos cinco brasileiros � Argentina, Makoto conversou com Ronaldo Frazen, seu amigo, e aconselhou-o a n�o continuar a aventura se estivesse nevando. Ronaldo desistiu da subida e salvou-se. Waldemar Niclevicz tamb�m esteve duas vezes na face sul do Aconc�gua e n�o chegou ao topo. As tentativas terminaram sempre debaixo de impressionantes tempestades de neve. "Para subir a face sul � preciso que o tempo esteja muito bom", diz Niclevicz. "N�o pode haver nevasca nem sol forte." D�lio e Ronaldo, os dois sobreviventes da trag�dia, contam que desistiram de ir at� o topo quatro dias antes porque n�o conseguiram se aclimatar � altitude. "Comecei a sentir tonturas e �nsia de v�mito e percebi que n�o conseguiria ir at� o fim", conta D�lio. No momento do acidente, Mozart, Alexandre e Othon estavam na Rampa Messner, um plat� de gelo, onde montariam o acampamento para passar a noite e tentar vencer os 800 metros finais no dia seguinte. Ao ouvir o chamado de Othon pelo r�dio, depois do acidente, D�lio e Ronaldo pediram ajuda � pol�cia da montanha. Foram informados de que, �quela hora da noite, n�o havia meios de levar nenhum socorro ao local. Sem alternativa, os dois ficaram tentando animar o companheiro pelo r�dio. "Falamos para ele tentar pegar na mochila o saco de dormir e o bivaque, um isolante t�rmico", conta Ronaldo Frazen. "Ele pegou, mas n�o conseguiu coloc�-lo e jogou a mochila fora." Com o cair da noite, por volta de 9 horas, o frio aumentou. Nesse momento, Othon relatou que j� n�o sentia os p�s e as pernas congeladas. "Depois ele foi ficando cada vez mais cansado e sua voz foi sumindo", contou Ronaldo na sexta-feira. "No dia seguinte, ainda dava para ver de bin�culo dois pontos amarelos na montanha. Eram as roupas deles sobre o gelo." Manobra fatal A cada ver�o europeu, os Alpes transformam-se num parque de divers�es mortal. Sessenta pessoas, em m�dia, morrem a cada temporada escalando montanhas. A maioria dos acidentes � causada por imprud�ncia dos montanhistas. Nada se compara, no entanto, � trag�dia ocorrida na �ltima ter�a-feira na esta��o de inverno de Cavalese, na prov�ncia de Trento, norte da It�lia. Em v�o rasante, um avi�o da Marinha americana se chocou com os cabos de a�o que sustentavam o telef�rico da esta��o, causando a morte de vinte turistas. O avi�o, um EA-6B Prowler, voava a apenas 90 metros do ch�o, desrespeitando as regras de seguran�a para v�os de treinamento, que estipulam altura m�nima de 300 metros do solo naquela regi�o. Os vinte mortos estavam na cabine do telef�rico que os levava ao topo da montanha. Uma segunda cabine, que fazia a descida s� com o condutor, ficou pendurada por uma hora at� a chegada do helic�ptero de resgate. O avi�o americano tinha decolado da Base A�rea de Aviano, localizada entre Veneza e Belluno, em miss�o de treinamento, levando o piloto e tr�s t�cnicos. Depois do desastre, foi recolhido para um hangar da base de Aviano, onde est� sendo vigiado por fuzileiros navais americanos e guardas italianos. Apesar do choque com os cabos de a�o, o aparelho sofreu apenas pequenas avarias na parte superior da cauda, o que indica as manobras do piloto para cruzar a estrutura do telef�rico por baixo. |
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