Tesouro nos Trilhos Veja 22/03/2000 Abertura do metr� de Atenas desencava 10 000 pe�as hist�ricas e constru��es milenares
Vasos e ossos encontrados numa tumba de 2 500 anos: fragmentos funer�rios gregos
Durante quase vinte s�culos, o Rio Iridanos foi para os modernos atenienses apenas uma obscura cita��o nos textos do fil�sofo Plat�o e do poeta Hes�odo. Eles legaram � posteridade a informa��o de que o curso d'�gua nascia nas colinas Lycabettus, na regi�o nordeste da capital grega, e desapareceu durante a domina��o romana, no s�culo II. As escava��es de novas linhas de metr� finalmente puseram fim ao mist�rio. Arque�logos acharam o leito do antigo rio canalizado h� pelo menos dezoito s�culos numa obra em frente ao Parlamento grego, junto a um hotel de luxo. A descoberta da localiza��o exata do Iridanos � apenas uma pequena parte do fant�stico passado da cidade que veio � tona em mais de cinco anos de trabalho. Mais de 10.000 pe�as de ineg�vel valor hist�rico j� foram resgatadas do fundo da terra numa opera��o que envolveu cinq�enta arque�logos e escarafunchou 70.000 metros quadrados, o equivalente a mais de seis campos de futebol. A pesquisa se desenvolveu a uma profundidade m�dia de 18 metros e o resultado pode ser visto numa grande exposi��o de 500 pe�as rec�m-inaugurada no Museu de Arte Antiga. "S�o descobertas excepcionais que nos d�o um retrato do que foi a cidade desde o per�odo neol�tico at� os dias de hoje", diz a arque�loga Liana Parlama, chefe da equipe que trabalhou na �rea do Parlamento, a Pra�a Syntagma.
Das 21 esta��es previstas nas novas linhas do metr�, pelo menos cinco ficam em �reas de grande import�ncia arqueol�gica, pois est�o dentro do per�odo das muralhas da cidade antiga. A regi�o de Syntagma � a mais importante delas. Abaixo do piso de pedra e dos jardins, na parte mais funda das escava��es, foram encontrados ind�cios de ocupa��o regular a partir do s�culo VI a.C. Ao lado do leito do rio, estava uma estrada dois s�culos mais nova, que ligava a cidade �s regi�es produtoras de vinho, em Messogaea. Um pouco mais ao norte, acharam-se oficinas equipadas para produzir est�tuas de bronze. O terreno tamb�m foi usado como cemit�rio 500 anos antes de Cristo. Os achados pertencem a v�rias �pocas � desde o per�odo arcaico da cultura grega at� o helen�stico, passando pela Idade Cl�ssica, tempo em que Atenas floresceu como cidade-Estado, com seus fil�sofos, poetas e artistas. Alguns metros acima desta cidade grega antiga est� o que resta de uma outra Atenas, ocupada pelos romanos e que voltou a ser uma polis exuberante quando governada por Adriano, no s�culo II.
Antes de se tornar imperador, Adriano desenvolveu verdadeira paix�o pela Gr�cia cl�ssica. Quando viveu em Atenas, tratou de embelezar a cidade e deixou sua marca em templos, portais, pr�dios suntuosos e aquedutos. O per�odo est� se materializando agora em um exuberante complexo de termas que usava a �gua do Iridanos, sob a Pra�a Syntagma. Constru��es similares foram descobertas nas redondezas, uma delas com mais de quinze salas de banho e paredes de at� 4 metros de altura, intactas e repletas de afrescos. "Os banhos romanos s�o o que mais nos impressionaram", diz Liana Parlama. Em frente � Biblioteca de Adriano, junto � esta��o de Monastiraki, os arque�logos descobriram que a pra�a que existia ali foi constru�da sobre um curso de �gua canalizado com tijolos. "� uma das obras hidr�ulicas mais importantes de toda a Antiguidade", comemora o pesquisador Niki Alavizou, respons�vel pela escava��o.
Cavoucar o subsolo de uma velha cidade europ�ia para meter l� dentro um sistema de trens n�o � tarefa simples. Roma � o exemplo mais conhecido desse tipo de dor de cabe�a. Planejado desde o governo de Benito Mussolini, o metr� da cidade anda a passos de tartaruga e tem apenas 39 quil�metros de extens�o, onze a menos que o de S�o Paulo. A cada avan�o dos tatuz�es, topa-se com uma preciosidade arqueol�gica de valor inestim�vel. Torna-se necess�rio refazer as contas, mudar a rota e seguir adiante, como aconteceu quando a linha que ia da esta��o Termini at� a Piazza della Reppublica encontrou as bel�ssimas termas do imperador Diocleciano, datadas do s�culo III. O mesmo ocorre em Atenas. Numa ocasi�o, a escava��o provocou uma avalanche de vasos de cer�mica, est�tuas e objetos de arte envolvidos em lama e �gua. Outras acabaram em acidentes, como o ocorrido junto a um po�o de ventila��o nos Jardins Nacionais, um grande parque no centro da cidade. Um trecho de 13 metros da Muralha Valeriana, constru�da h� 1.600 anos, foi destru�do. A estrutura, feita para resistir aos ex�rcitos mais poderosos da �poca, n�o suportou uma barbeiragem do tatuz�o, que furou al�m da conta.
H� tr�s anos, quando os t�neis chegavam ao cemit�rio Kerameikos, as obras provocaram uma gritaria tremenda no mundo inteiro. Com sepulturas de mais de 2.500 anos, essa � a mais importante �rea de sepultamentos da cidade, junto do lado externo da antiga muralha. Os engenheiros haviam decidido que o metr� passaria 10 metros abaixo do terreno do cemit�rio, mas tiveram de mudar de plano diante dos protestos. Depois de quatro meses de bate-boca, decidiu-se mudar a rota. Mesmo assim, topou-se com 1.200 tumbas pelo caminho. Os arque�logos descobriram v�rios t�mulos de soldados da Guerra do Peloponeso, entre Atenas e Esparta, e um marco de pedra no qual se acredita estar gravado um texto escrito pelo poeta Eur�pedes. Acharam-se tamb�m 230 piras funer�rias, prova de que entre os costumes dos antigos gregos estava tamb�m o de incinerar seus mortos. N�o � sem raz�o que o metr� ateniense consumiu at� agora mais de 2 bilh�es de d�lares. |