A Primeira Brasileira                         Veja 25/08/1999
A reconstitui��o de um cr�nio de 11 500 anos, o mais antigo da Am�rica, revoluciona as teorias sobre a ocupa��o do continente

 
F�SSIL COPIADO � O cr�nio de Luzia, exposto no Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, foi submetido a uma tomografia por uma equipe de pesquisadores ingleses. As imagens foram processadas em computador e o cr�nio foi reconstru�do de material sint�tico 
FACE DE ARGILA � O novo cr�nio foi levado para Manchester, onde Richard Neave refez com argila a face de Luzia. Para modelar o queixo e as bochechas usou camadas de massa que variaram entre 15 e 20 mil�metros
A SURPRESA � O resultado foi uma fisionomia com tra�os negr�ides. Luzia tinha olhos arredondados, nariz largo e queixo bastante proeminente. Detalhes como l�bios e orelhas foram concebidos por aproxima��o com os tipos negr�ides atuais (africanos e abor�gines australianos)

Luzia era uma mulher baixa, de apenas 1,50 metro de altura. Comparada aos seres humanos atuais, tinha uma complei��o f�sica relativamente modesta para seus 20 e poucos anos de idade. Sem resid�ncia fixa, perambulava pela regi�o onde hoje est� o Aeroporto Internacional de Confins, nos arredores de Belo Horizonte, acompanhada de uma d�zia de parentes. N�o sabia plantar um p� de alface sequer e vivia do que a natureza agreste da regi�o lhe oferecia. Na maioria das vezes se contentava com os frutos das �rvores baixas e retorcidas, uns coquinhos de palmeira, tub�rculos e folhagens. Em ocasi�es especiais, dividia com seus companheiros um peda�o de carne de algum animal que conseguiam ca�ar. Eram tempos dif�ceis aqueles e Luzia morreu jovem. Foi provavelmente v�tima de um acidente, ou do ataque de um animal, e n�o teve direito nem mesmo a sepultura. O corpo ficou jogado numa caverna, enquanto o grupo seguia em sua marcha errante pelo cerrado mineiro. Durante 11.500 anos, Luzia permaneceu num buraco, coberta por quase 13 metros de detritos minerais. Agora, passados mais de 100 s�culos, a mais antiga brasileira est� emergindo das profundezas de um s�tio arqueol�gico para a notoriedade do mundo cient�fico.

Desenterrado em 1975, o cr�nio de Luzia � o mais antigo f�ssil humano j� encontrado nas Am�ricas. Transportado de Minas Gerais para o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, permaneceu anos esquecido entre caixas e refugos do acervo da institui��o. Foi ali que o arque�logo Walter Neves, da Universidade de S�o Paulo, USP, o encontrou alguns anos atr�s. Ao estud�-lo, fez descobertas surpreendentes. Os tra�os anat�micos de Luzia nada tinham em comum com o de nenhum outro habitante conhecido do continente americano. A medi��o dos ossos revelou um queixo proeminente, cr�nio estreito e longo e faces estreitas e curtas. De onde teria vindo Luzia? Seria ela remanescente de um povo extinto, que ocupou a Am�rica h� milhares e milhares de anos e acabou dizimado em guerras ou cat�strofes naturais? A hip�tese de Walter Neves acaba de ser refor�ada por um trabalho feito na Universidade de Manchester, na Inglaterra. Com a ajuda de alguns dos mais avan�ados recursos tecnol�gicos, os cientistas ingleses reconstitu�ram pela primeira vez a fisionomia de Luzia. O resultado � uma mulher com fei��es nitidamente negr�ides, de nariz largo, olhos arredondados, queixo e l�bios salientes. S�o caracter�sticas que a fazem muito mais parecida com os habitantes de algumas regi�es da �frica e da Oceania do que com os atuais �ndios brasileiros.

Massacre � A reconstitui��o da face de Luzia, que VEJA publica com exclusividade, foi encomendada � Universidade de Manchester pela rede de televis�o inglesa BBC. � a principal atra��o de um document�rio que ser� exibido na Inglaterra na pr�xima quarta-feira, 1� de setembro. O rosto foi modelado em argila mediante um minucioso trabalho de pesquisa que incluiu exames do cr�nio por meio de tomografias computadorizadas. A imagem final da primeira brasileira, obtida nesse processo, � mais do que uma simples curiosidade cient�fica. Ela est� produzindo uma revolu��o nas teorias a respeito da ocupa��o da Am�rica pelos seres humanos.

At� algum tempo atr�s, acreditava-se que antes de Colombo e de Cabral o continente americano tivesse sido ocupado uma �nica vez, pelos antepassados dos �ndios atuais. Eles teriam sa�do da regi�o onde ficam hoje a Mong�lia e a Sib�ria, cerca de 12.000 anos atr�s. Atravessaram o Estreito de Bering, entre a �sia e a Am�rica do Norte, valendo-se de uma ponte de gelo ainda remanescente da �ltima era glacial. Aos poucos, espalharam-se pelo continente, at� chegar � Patag�nia, passando pelo Brasil. A descoberta de Luzia derruba essa explica��o. Ela mostra que antes dessa marcha empreendida h� 12 000 anos uma outra leva, bem mais antiga, chegou � Am�rica. Luzia seria descendente desse grupo. Aparentados dos atuais abor�gines australianos, esses primeiros colonizadores teriam sa�do do sul da China atual e atingido o continente americano cerca de 15.000 anos atr�s � tr�s mil�nios antes da segunda leva migrat�ria. Como nessa �poca a Idade do Gelo ainda n�o havia chegado ao fim, teriam usado canoas para fazer a navega��o costeira e contornar os enormes maci�os glaciais que bloqueavam a passagem entre a �sia e a Am�rica do Norte. Viveram aqui milhares de anos, isolados do resto do mundo, at� desaparecer na disputa por ca�a e territ�rio com a leva migrat�ria seguinte, esta sim ancestral dos �ndios de hoje.

Luzia � um apelido dado por cientistas h� pouco mais de um ano, quando se comprovou que era o cr�nio mais antigo encontrado no continente americano. Um rep�rter perguntou a Walter Neves se o f�ssil seria a vers�o americana de Lucy, a mais famosa ancestral humana, de 3,2 milh�es de anos, achada na Eti�pia e hoje em exposi��o no Museu do Homem em Paris. Neves respondeu que, devido � proced�ncia brasileira, a descoberta estava mais para Luzia do que para Lucy. Desde que alcan�ou notoriedade internacional, a caveirinha ganhou lugar de honra no Museu Nacional. Tamb�m � l� que deve ser exibida, a partir do m�s que vem, sua face reconstitu�da na Inglaterra.

Tesouro na caverna � O grupo do qual Luzia fazia parte � conhecido como "Homens de Lagoa Santa", n�mades coletores que viveram na regi�o onde hoje se localiza esse munic�pio, perto de Belo Horizonte. Os primeiros ossos foram recolhidos ali pelo naturalista dinamarqu�s Peter Wilhelm Lund, na primeira metade do s�culo passado. Boa parte deles se encontra atualmente no museu da Universidade de Copenhague. At� as pesquisas feitas pelo arque�logo Walter Neves ningu�m sabia a dimens�o do tesouro que as cavernas escondiam. "Quando fizemos os primeiros estudos com os cr�nios, ainda nos anos 80, ficamos boquiabertos com as compara��es", lembra Neves. "Era inconceb�vel que tiv�ssemos cr�nios antigos de negr�ides. O esperado era encontrarmos popula��es mongol�ides, que s�o as caracter�sticas dos ancestrais dos nossos �ndios."

Nos �ltimos anos, a nova tese sobre a ocupa��o da Am�rica, formulada por Walter Neves e seu parceiro de pesquisa H�ctor Pucciarelli, ganhou for�a com a descoberta de outros cr�nios humanos em diversos pontos do continente. S�o todos de origem mais recente do que a de Luzia, mas, igualmente, apresentam caracter�sticas n�o compat�veis com as dos mongol�ides e �ndios atuais. � o caso do homem de Kennewick e de Spirit Caveman, achados na Am�rica do Norte e datados de cerca de 9.000 anos. As mesmas configura��es cranianas de Luzia foram encontradas em f�sseis de cerca de 9.000 anos perto da cidade colombiana de Tequendama e na Terra do Fogo, do outro lado do Estreito de Magalh�es, nos confins da Am�rica do Sul. No Brasil, j� se sabe que no munic�pio de Monte Alegre, no Par�, escarpas rochosas eram habitadas havia mais de 11.000 anos. L�, numa regi�o chamada Pedra Pintada, a arque�loga americana Anna Roosevelt, uma das maiores especialistas em arqueologia amaz�nica do mundo, encontrou uma cole��o impressionante de pinturas rupestres. No vale do Rio Perua�u, norte de Minas, tamb�m foi localizada pelo arque�logo Andr� Prous, da Universidade Federal de Minas Gerais, uma bel�ssima cole��o de desenhos e pinturas nos pared�es rochosos que datam da mesma �poca.

Todas essas novidades arqueol�gicas ajudaram a reformular as antigas teorias sobre a ocupa��o da Am�rica. Hoje, os principais centros de estudos j� trabalham com a hip�tese de que quatro ondas migrat�rias vindas da �sia chegaram ao continente americano. A primeira � a defendida por Neves e Pucciarelli. A segunda onda � formada pelos povos mong�is, de 12.000 anos atr�s, que deram origem aos �ndios de hoje. A terceira � dos chamados nadenes, povo que se estabeleceu na costa oeste americana. A quarta � a corrente migrat�ria composta pelos esquim�s. Os arque�logos calculam que essas duas �ltimas chegaram � Am�rica entre 5.000 e 10.000 anos atr�s.

Mesma conclus�o � Para reconstituir o rosto de Luzia, pesquisadores ingleses estiveram no Brasil no in�cio do ano e fizeram uma s�rie de exames tomogr�ficos no cr�nio exposto no Museu Nacional. Levados para Londres, os resultados desses exames foram reprocessados em um computador na University College London. Dessa maneira, os pesquisadores obtiveram uma imagem tridimensional e, a partir dela, produziram um cr�nio id�ntico ao encontrado em Lagoa Santa. O modelo foi ent�o encaminhado ao professor Richard Neave, da Universidade de Manchester, especialista em reconstitui��es faciais. As caracter�sticas aferidas por Neave dentro de seu sistema de cataloga��o populacional bateram com o modelo negr�ide defendido por Neves. "Foram dois m�todos diferentes que levaram a um mesmo resultado", afirmou Neave a VEJA.

Quando foi resgatado, em 1975, do s�tio arqueol�gico de Lapa Vermelha, Lagoa Santa, o cr�nio de Luzia estava emborcado, com a arcada superior voltada para cima. Um pouco mais abaixo, na dire��o do fundo da gruta, a equipe da qual fazia parte o arque�logo Andr� Prous achou outros ossos: a mand�bula, costelas, fragmentos das pernas e dos bra�os. Ao todo, recolheram um ter�o de um esqueleto humano completo. "N�o era uma sepultura como outras que j� hav�amos encontrado", relembra Prous. "O corpo foi atirado no fundo da caverna ou caiu l� acidentalmente." Esses dados, um tanto quanto prec�rios, dificultaram, na ocasi�o, a data��o do achado a partir das camadas de dep�sitos geol�gicos da gruta � um m�todo muito utilizado em outros s�tios arqueol�gicos.

Logo depois, Prous achou outro s�tio arqueol�gico, a cerca de 60 quil�metros de dist�ncia de Lagoa Santa, no sop� da Serra do Cip�, em um lugarejo chamado Santana do Riacho. De l� sa�ram dezenas de esqueletos com caracter�sticas id�nticas e contempor�neos ao de Luzia. Tamb�m foram identificadas algumas ferramentas, como pedras de quartzo lascadas que funcionavam como pontas de flecha e raspadeiras. S�o hoje as pistas que os cientistas t�m para decifrar o enigma dos "Homens de Lagoa Santa". A partir da quantidade de ossos encontrados em Lapa Vermelha e Santana do Riacho, os arque�logos estimam que o grupo que vivia na regi�o n�o ia al�m de umas poucas dezenas de indiv�duos. Na �poca, a temperatura da regi�o era cerca de 5 graus Celsius mais fria do que a atual. Ainda passeavam por ali animais extintos como a pregui�a-gigante, ou megat�rio, e um bicho semelhante ao tatu, chamado gliptodonte, e at� mesmo mastodontes. E tamb�m os tigres-dentes-de-sabre, predadores terr�veis da fase final do pleistoceno. Segundo Prous, n�o � poss�vel dizer se os grandes animais eram ca�ados pelos homens de Lagoa Santa.

Pesquisas conduzidas pelo arque�logo Neves nos ossos encontrados por Prous mostraram resultados intrigantes quanto aos h�bitos alimentares desse povo. A an�lise da denti��o dos f�sseis permitiu cotejar o n�mero de c�ries com uma tabela internacional para medir o perfil alimentar. Por essa tabela, �ndice de c�ries de zero a 2% do total dos dentes indica um perfil de povos ca�adores e coletores, com baix�ssimas taxas de a��car na dieta. Entre 2% e 10% indica uma fase de transi��o, em que h� uma agricultura incipiente, com plantas que j� introduzem a��cares na dieta. Com 30% de c�ries chega-se ao perfil do �ndio brasileiro, com uma agricultura j� estabelecida. Entre os homens de Lagoa Santa obteve-se um �ndice de 10%. Ent�o eles tinham agricultura incipiente? N�o. Os primeiros ind�cios de agricultura entre os povos mais antigos do Brasil datam de 4.000 anos. O grupo de Luzia tinha c�ries porque comia mais vegetais do que carne e vivia mais da coleta do que da ca�a.

A nova face dos primeiros habitantes do continente vem � tona num momento em que as origens da humanidade est�o sendo sucessivamente chacoalhadas por outras descobertas. Nunca a arqueologia, a gen�tica, a biologia e a antropologia foram t�o longe na escala do tempo em busca dos ancestrais humanos. Desde 1994, quatro novas esp�cies de homin�deos foram acrescentadas � �rvore da evolu��o, entre elas a mais antiga j� encontrada, a do Ardipithecus ramidus, de 4,4 milh�es de anos. Testes de DNA contabilizaram as varia��es gen�ticas entre homens e chimpanz�s no decorrer do tempo e apontaram que a humanidade se separou dos macacos num per�odo entre 4 e 6 milh�es de anos atr�s. Descobriu-se o mais antigo s�tio com ferramentas, na �frica, datado de 2,5 milh�es de anos, e tamb�m que entre 1 milh�o e 2 milh�es de anos atr�s o c�rebro dos poss�veis ancestrais humanos cresceu drasticamente, devido � introdu��o de uma dieta mais rica em prote�nas na alimenta��o.

Enigmas insol�veis � Outras pesquisas t�m oferecido respostas para enigmas que at� ent�o eram considerados insol�veis. Com o uso da an�lise comparativa de DNA, o geneticista S�rgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais, conseguiu encontrar o lugar de onde sa�ram os antepassados dos �ndios americanos. H� cinco anos, ele identificou o c�digo gen�tico comum a dezessete povos ind�genas americanos. Depois, localizou o mesmo padr�o gen�tico em popula��es vizinhas do Lago Baikal, na Sib�ria. Agora, Pena promete voltar seu arsenal de alta tecnologia em dire��o aos homens de Lagoa Santa. Enviou amostras �sseas recolhidas na regi�o para o Instituto Max Planck de Antropologia, em Leipzig, na Alemanha, dirigido pelo especialista Svante P��bo, o mesmo que isolou o DNA de um homem de Neandertal, em 1997. O objetivo � identificar ossos dos parentes de Luzia que possam conter amostras do c�digo gen�tico em condi��es de an�lise. Pena quer comparar o DNA de mais de 10.000 anos atr�s com o dos �ndios atuais. S� assim ser� poss�vel saber se existe uma fra��o m�nima, por menor que seja, de Luzia entre n�s.

 
O Brasil h� 11 000 anos
Luzia e seu grupo viviam num pa�s muito diferente do que conhecemos hoje. A temperatura era pelo menos 5�C mais fria que a atual. Animais gigantescos reinavam em savanas, campos e florestas, formando uma fauna ex�tica que acabou extinta

O CLIMA � O final do per�odo pleistoceno foi marcado por grandes altera��es clim�ticas. A Idade do Gelo chegou ao fim, o n�vel dos oceanos subiu drasticamente e o clima frio passou por um gradual aquecimento

OS HABITANTES � Coletores que se alimentavam de frutos, tub�rculos e folhagens. Ca�avam eventualmente. Viviam em grupos de cerca de dez pessoas. Suas ferramentas eram primitivas, mas capazes de tecer redes. Faziam pinturas rupestres

A PAISAGEM � Com o clima mais frio do que o atual, o Brasil era dominado por campos e cerrados. A Floresta Amaz�nica ainda n�o existia. Pr�ximo aos rios havia �rvores de at� 6 metros de altura
 
TANQUE PR�-HIST�RICO � O gliptodonte parecia um tatu gigante, com um casco encoura�ado. Mam�fero, comia insetos e plantas e tinha uma arma poderosa: a cauda repleta de espinhos

ELEFANTE PELUDO � O mastodonte chegou ao Brasil pelo istmo do Panam� h� 1 milh�o de anos. Era um av� peludo dos atuais elefantes, mas tinha orelhas menores e couro muito mais resistente

LABORAT�RIO DA EVOLU��O � Parente do camelo, a macrauqu�nia tinha tamanho de um Ford Ka e apar�ncia de um cavalo com uma tromba curta. Seus f�sseis fascinaram Charles Darwin

RINOCERONTE SEM CHIFRE
� O toxodonte viveu na Am�rica do Sul por quase 2 milh�es de anos. Tinha mais de 1,50 metro de altura e era parecido com um rinoceronte sem chifres 

PREDADOR � O tigre-dentes-de-sabre tinha presas gigantescas, de at� 20 cent�metros. Era uma vez e meia o tamanho de um le�o atual. Foi extinto cerca de 10 000 anos atr�s 
   
PREGUI�A GIGANTE � O megat�rio vivia em bandos pelo continente. Chegava a atingir 4 metros de altura (quase o tamanho de uma casa) quando se apoiava sobre as patas traseiras

Caverna do tesouro                            Veja 02/02/2000
F�sseis achados na Toca da Boa Vista revelam como era o sert�o nordestino na Pr�-Hist�ria

A maior caverna do Hemisf�rio Sul, a Toca da Boa Vista, no norte da Bahia, guarda em suas entranhas in�meras j�ias cient�ficas. � um labirinto absurdamente seco e quente, com galerias de quase 50 metros de profundidade de onde come�a a ser desenterrado um passado de 20.000 anos. Foi de l� que o ge�logo Augusto Auler arrancou h� cerca de um m�s um detalhado retrato de como era a paisagem pr�-hist�rica naquele peda�o do Brasil. Ele se valeu de fragmentos de rochas e f�sseis retirados da caverna para mostrar que, no in�spito sert�o baiano, no auge do �ltimo per�odo glacial, existia uma densa floresta tropical, repleta de rios e cascatas. A temperatura era pelo menos 5 graus inferior � atual. Um mundo surpreendente, com animais j� extintos como os macacos Protopithecus brasiliensis, pregui�as gigantes e tigres-de-dente-de-sabre, que est� virando pelo avesso as velhas teorias sobre o clima daquela �poca. "Achava-se que era muito seco, com vegeta��o menos exuberante", diz Auler. "Pelo menos no Nordeste, estamos descobrindo que as coisas n�o eram bem assim."

A Toca da Boa Vista � uma das forma��es geol�gicas mais misteriosas do Brasil. Tem 87 quil�metros de corredores e sal�es cobertos de estalactites e estalagmites numa �rea de apenas 3 quil�metros quadrados. � um cen�rio cinematogr�fico, com vest�gios de antigos lagos e rios subterr�neos, que est� atraindo a aten��o de paleontologistas e ge�logos do mundo inteiro e primatologistas famosos, como o americano Walter Hartwig. Ele veio ao Brasil estudar os f�sseis do macaco Protopithecus. Junto com o paleontologista brasileiro C�stor Cartelle, da Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG, coletou ossos de mais de trinta esp�cies de animais entre lhamas, gatos-do-mato e morcegos que hoje n�o existem mais na regi�o. Os pesquisadores acreditam que os bichos foram arrastados para as profundezas da caverna por torrentes de �gua vindas da superf�cie. Os f�sseis, alguns de at� 12.000 anos, estavam depositados sobre o solo da caverna. Tudo foi coletado sem que houvesse necessidade de escava��o.

Uma das raz�es para que esse tesouro se tenha mantido intocado � a dificuldade de acesso � caverna, descoberta h� doze anos. Sua extens�o aumenta a cada expedi��o espeleol�gica. A �ltima delas, feita pelo Grupo Bambu� de Pesquisa Espeleol�gica em janeiro, acrescentou 11 quil�metros de labirintos ao mapeamento anterior. "Acreditamos que sejam mais de 100 quil�metros", conta Auler, que tamb�m participou da expedi��o. Se tiver mesmo esse tamanho, ser� uma das dez maiores cavernas do mundo, recheada de pistas de um passado ainda por ser desvendado.
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