| Onde Tudo Come�ou Veja 27/10/1999 Descobertas arqueol�gicas revelam a import�ncia da civiliza��o eg�pcia para o Ocidente e a egiptomania volta � moda Na foto abaixo, as pir�mides, a esfinge de Giz� (� dir.) e a m�scara mortu�ria encontrada no tesouro de Tutanc�mon (� esq.): calcula-se que apenas 30% da hist�ria do Egito tenha sido descoberta at� hoje As listas dos livros mais vendidos no mundo, os movimentos de Hollywood e as exposi��es de arte que v�m sendo promovidas nos maiores museus do planeta apontam para o Egito. Existe uma onda de egiptomania no ar. O filme A M�mia, uma esp�cie de chanchada de terror, j� faturou 402 milh�es de d�lares � a trig�sima maior bilheteria da hist�ria do cinema. O Pr�ncipe do Egito, desenho animado do est�dio de Steven Spielberg em sociedade com a Disney, j� rendeu 218 milh�es de d�lares. Os tr�s primeiros volumes da s�rie Rams�s, romances escritos pelo egipt�logo franc�s Christian Jacq, est�o entre os mais vendidos em todos os pa�ses que os lan�aram. Foram comprados cerca de 6 milh�es de exemplares no mundo � mais de 60.000 no Brasil. Aproveitando a onda, o escritor Erich Von D�niken, um gar�om que ficou riqu�ssimo com Eram os Deuses Astronautas?, de 1968, acaba de tirar do forno outra fantasia. O del�rio de Von D�niken tem como pano de fundo o Egito: Chariots of the Gods: Unsolved Mysteries of the Past (o livro ainda n�o tem tradu��o em portugu�s, mas o t�tulo seria "Carruagens dos Deuses: Mist�rios N�o Resolvidos do Passado"). O Egito voltou � moda. O mais interessante � que nem todos os livros, filmes e exposi��es s�o suficientes para louvar a hist�ria eg�pcia e sua influ�ncia no mundo atual. A primeira festa de anivers�rio de que se tem not�cia aconteceu h� 5.000 anos, no Egito. A primeira forma de reprodu��o musical foi obtida com o vento que passava atrav�s de uma est�tua gigante do deus Memnon, repetindo sempre a mesma m�sica, 1.500 anos antes de Cristo. A primeira medida quase precisa da circunfer�ncia da Terra foi feita por um bibliotec�rio grego, Erat�stenes, h� 2.200 anos, na cidade portu�ria eg�pcia de Alexandria. A gata borralheira que encontra seu pr�ncipe e vira Cinderela, o jogo da amarelinha e as bolinhas de gude nasceram no Egito. Tamb�m surgiram na antiga civiliza��o do norte da �frica o p�o feito com fermento e a cerveja. Modelos ainda toscos de planos de sa�de e os primeiros m�dicos a praticar regularmente a cura. Os tribunais, os cosm�ticos, os perfumes e as perucas. "O Egito � o verdadeiro ber�o da civiliza��o. Tem mais de 3.000 anos de hist�ria que s� vem sendo estudada h� 150 anos. Ainda n�o sabemos quase nada", diz Antonio Brancaglione J�nior, egipt�logo brasileiro que d� aulas na Universidade de S�o Paulo e cuida do acervo eg�pcio do Museu de Arte de S�o Paulo, o Masp. O que veio do Egito jogo de bolinhas de gude cadeira de quatro pernas papel carimbo jogo da amarelinha contos como Cinderela e Simbad, o Marujo cerveja calend�rio defini��o das esta��es do ano conceitos de verdade, equil�brio e justi�a estrutura do Estado, clero e Ex�rcito astronomia festa de anivers�rio dan�a do ventre H� duas faces nessa febre eg�pcia. Uma delas � mais et�rea. � o fasc�nio pelo esot�rico, pelo misterioso. O poder das pir�mides, as revela��es das cartas de baralho dos jogos de tar�, a curiosidade pelas maldi��es dos fara�s s�o fen�menos comuns em finais de s�culo. Este n�o � exce��o. Tem muita gente que acredita ser reencarna��o de fara�, que psicografa mensagens em hier�glifos, que faz reuni�es festivas com trajes eg�pcios. A outra face � mais interessante do ponto de vista do conhecimento. A tecnologia evoluiu muito nos �ltimos anos. Hoje, com radares, sonares e sat�lites, j� se descobriu muita coisa nova (ou melhor, antiq��ssima). Muito mais dever� surgir nos pr�ximos anos. Segundo c�lculos do governo eg�pcio, 70% da hist�ria do pa�s continua encoberta por areia, p�ntanos, avenidas e casas. Algumas tumbas de reis, como a de Rams�s VIII, nunca foram encontradas. O delta do Rio Nilo, onde vivia 40% da popula��o do Egito antigo, ainda n�o foi escavado como se deve. Nos �ltimos tempos foram registradas grandes descobertas, como o que sobrou do farol de Alexandria, o pal�cio de Cle�patra, um navio de Napole�o, o moderno conquistador do Egito, que afundou carregado de tesouros numa batalha contra os ingleses, e um cemit�rio com mais de 10.000 m�mias de gente comum. Foram achadas at� placas com escrita mais antiga que os hier�glifos, que foram gravadas 5.400 anos atr�s. Um site na internet d� acesso a um mundo de informa��es sobre o pa�s e sua hist�ria (veja nota na se��o Hipertexto). Tudo isso acrescenta um pouco ao conhecimento que se tem da hist�ria eg�pcia � e da humanidade � e derruba alguns mitos. Quem ouviu na escola, por exemplo, que as imensas pedras que formam as pir�mides foram carregadas por escravos negros e hebreus aprendeu errado. Os estudiosos j� sabem que as pir�mides foram constru�das por camponeses que, na �poca da cheia do Nilo, impedidos de se dedicar � agricultura, eram recrutados para o trabalho pesado da constru��o. Os camponeses iam carregar pedra por livre e espont�nea vontade. Eles topavam. Afinal, tinham direito a alimenta��o e a uma esp�cie de seguro-sa�de: se adoecessem, eram atendidos por m�dicos que ficavam de plant�o na �rea da empreitada. A paix�o pelo Egito atinge o Ocidente em ondas. A primeira ocorreu na �poca de Napole�o Bonaparte. Durante toda a Idade M�dia e o Renascimento, o Egito, sob o dom�nio �rabe, esteve fechado para o mundo. Napole�o ficou fascinado com o que encontrou, entre o final do s�culo XVIII e o in�cio do XIX. Carregou consigo pe�as que originaram as cole��es dos museus do Louvre, na Fran�a, Brit�nico, em Londres, e de Turim, na It�lia. Dava m�mias de presente para os amigos decorarem suas casas. Naquele tempo, ter uma m�mia na sala era coisa chique. No final, a banaliza��o era tanta que as m�mias come�aram a ser mo�das e seu p� usado como po��o medicinal � uma forma de canibalismo praticada em plena Europa. A segunda onda veio em 1922, entre as duas guerras mundiais, quando j� havia jornais, tel�grafo e cinema. Foi nesse tempo que as novidades cient�ficas come�aram a ganhar as manchetes dos jornais. A descoberta do t�mulo de Tutanc�mon, o rei Tut do desenho animado de Spielberg, provocou furor. A�, n�o se sabe bem como, inventou-se a hist�ria da maldi��o dos fara�s, baseada no fato de que os arque�logos que primeiro entraram na tumba foram infectados por um fungo (uma col�nia de fungos, na verdade, que crescera durante milhares de anos no ambiente fechado) e morreram. Bram Stoker, o escritor que ficou conhecido pela sua hist�ria do Dr�cula, escreveu na �poca A J�ia das Sete Estrelas, um livro que serviu de base para todos os filmes de terror sobre m�mias que foram feitos at� hoje. Boris Karloff e Edgar Allan Poe aproveitaram a mar�. Quando o Titanic afundou, difundiu-se a vers�o de que o capit�o havia sido desorientado por uma m�mia que estava sendo carregada num dep�sito pr�ximo a sua cabine. Nas d�cadas de 60 e 70, os museus desconfiaram de que ainda havia um p�blico interessado em coisas do Egito e promoveram grandes exposi��es. Uma delas, no Metropolitan Museum, em Nova York, faturou, nos anos 70, 11 milh�es de d�lares s� com a venda de suvenires. Nos anos 80, o tema foi esquecido mas voltou com tudo nesta d�cada. Hoje, a ind�stria francesa de cosm�ticos L'Oreal est� promovendo um extenso trabalho de pesquisa para reproduzir produtos de beleza utilizados pelos eg�pcios da antiguidade. Perfumes como os usados pelos fara�s e suas mulheres s�o vendidos em frascos de cristal min�sculos, com tampa de ouro, por milhares de d�lares. E o governo eg�pcio j� resolveu aproveitar o momento. No �ltimo p�r-do-sol de 1999 come�ar�, entre as pir�mides, rodeado pelo deserto, um espet�culo de �pera com doze horas de dura��o. O papa j� est� convidado para um outro evento, que dever� comemorar os 2.000 anos da cristandade, lembrando que durante uma temporada Jesus viveu no Egito. Para os brasileiros que se interessam pelo assunto, h� uma cole��o importante acess�vel. Foi formada pelos dois imperadores, dom Pedro I e dom Pedro II, e est� exposta no Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Ali se pode ver uma m�mia feminina � rar�ssima, j� que faz parte de uma s�rie de oito mulheres mumificadas, provavelmente pertencentes � mesma fam�lia. No Museu Mariano Proc�pio, em Juiz de Fora, Minas Gerais, h� uma outra cole��o, comprada por um nobre em 1884, que dever� ser exposta pela primeira vez em breve. Uma espiadinha no Egito pode ser �til para p�r em perspectiva o mil�nio que se encerra. |
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