Mercado na Selva
Veja 20/09/2000
Ru�nas de pal�cio mostram que havia com�rcio, e n�o apenas guerra, entre as cidades maias

Quando os espanh�is iniciaram a conquista dos maias no s�culo XVI, centenas de livros escritos pelos �ndios foram queimados pelo bispo Diego de Landa. A fogueira liter�ria foi a maneira de os conquistadores destru�rem a identidade do povo e facilitarem sua subjuga��o. Ao mesmo tempo, acabou com a principal fonte de informa��o sobre uma das mais importantes civiliza��es pr�-colombianas. Na semana passada, um surpreendente aspecto da cultura maia foi revelado por arque�logos americanos. Eles encontraram um dos maiores e mais belos pal�cios maias em meio � floresta de Pet�n, na Guatemala. Com 170 c�modos e tr�s andares, a gigantesca constru��o, que ocupa uma �rea de seis campos de futebol, foi durante o s�culo VIII a moradia dos reis da cidade de Cancu�n. O que impressionou os pesquisadores foi que, ao contr�rio das cidades maias, Cancu�n n�o tem templos nem ind�cios de guerras. Os hier�glifos no local mostram que a cidade viveu por mais de 800 anos do com�rcio de j�ias e alimentos com as regi�es vizinhas.

Diferentemente dos imp�rios asteca, com sede onde hoje � a Cidade do M�xico, e inca, no Peru, a civiliza��o maia era organizada em cidades-Estado aut�nomas que viviam isoladas em permanente estado de guerra umas contra as outras. No seu apogeu, entre 250 e 900 d.C., havia mais de quarenta cidades, cada qual com uma popula��o que podia ultrapassar 50.000 pessoas, espalhadas por uma regi�o que hoje abrange partes da Guatemala, M�xico, Honduras e Belize. Foram constru�dos templos, pir�mides, quadras para jogar bola e sofisticados sistemas de irriga��o. Sacrif�cios humanos e autoflagela��es eram a ess�ncia da religi�o. At� mesmo o rei fazia pequenas incis�es no p�nis para oferecer seu sangue aos deuses. O destino dos prisioneiros de guerra era invariavelmente o altar de sacrif�cios.

A civiliza��o dos maias era pouco conhecida at� o come�o do s�culo XX, quando muitas ru�nas foram localizadas e se decifraram os primeiros hier�glifos. As descobertas lan�aram algumas luzes sobre sua religi�o, baseada num pante�o de deuses da natureza, como Sol e Lua. Relacionados � religi�o, eles realizaram impressionantes estudos astron�micos e o calend�rio preciso. Tamb�m foram �timos matem�ticos, a ponto de utilizar o zero em seus c�lculos. S� em 1986, a americana Linda Schele e o canadense Peter Mathews decifraram totalmente os hier�glifos nas paredes dos pal�cios, permitindo finalmente saber como viveram os maias. "J� se pensou que eram descendentes de Atlanta", diz Leandro Karnal, professor de hist�ria da Am�rica na Universidade Estadual de Campinas. "N�o passava de preconceito e revela uma incapacidade de conceber uma civiliza��o t�o desenvolvida na Am�rica."

Todos os estudos mostravam os maias como um povo regido pela guerra e pela religi�o. O intenso com�rcio entre as cidades-Estado revelado com o achado na Guatemala mostra um novo aspecto de sua cultura, mas ainda n�o esclarece o maior dos mist�rios: por que a civiliza��o entrou em decad�ncia no ano 900 e as cidades come�aram a ser abandonadas. Os espanh�is encontraram apenas agricultores vivendo em aldeias e cidades fantasmas no meio das selvas.
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