O Homem de 6 Milh�es de Anos Veja 13/12/2000 F�sseis do mais antigo ancestral humano s�o descobertos no Qu�nia e podem ser a chave para chegar ao elo perdido entre homem e macaco
F�mur encontrado durante as escava��es: em perfeito estado, o osso mostra que o Homem do Mil�nio j� podia andar ereto
Desde que Charles Darwin estabeleceu que o homem e o macaco tinham um ancestral comum, os cientistas lan�aram-se numa corrida em busca do elo perdido, a criatura que marca a divis�o entre as duas esp�cies. Na semana passada, pesquisadores franceses e quenianos chefiados pelo paleont�logo Martin Pickford, do Coll�ge de France, anunciaram ter chegado bem perto desse ponto ao descobrir ossos fossilizados de um homin�deo datado de 6 milh�es de anos. O achado ocorreu durante escava��es na �rea de Baringo, no Qu�nia, em 25 de outubro, e tem implica��es assombrosas. Ainda sem cataloga��o e apelidado apenas de Homem do Mil�nio, o f�ssil do homin�deo � 1,5 milh�o de anos mais antigo que os restos do mais velho ancestral humano conhecido, encontrado na Eti�pia em 1994. A novidade n�o p�ra por a�: a equipe afirma que a criatura est� num est�gio evolutivo mais avan�ado que o de v�rios outros homin�deos que viveram em per�odos mais recentes. Caso confirmada, a hip�tese pode descartar linhagens inteiras de homens-macacos que se julgava serem ancestrais humanos. "Seis milh�es de anos � exatamente a �poca em que se acredita ter acontecido a separa��o entre o homem e os macacos", diz o antrop�logo Walter Neves, da Universidade de S�o Paulo. "Se a data��o for confirmada, Pickford fez uma descoberta sem precedentes."
O paleont�logo do Coll�ge de France e sua colega Brigitte Senut, do Museu de Hist�ria Natural de Paris, encontraram de fato pe�as importantes. Ao anunciar a descoberta, eles exibiram em Nair�bi, capital do Qu�nia, um f�mur esquerdo perfeitamente conservado. O osso mostra que o Homem do Mil�nio tinha pernas fortes. Isso o capacitava a andar ereto. Pelo comprimento dos ossos, calcula-se que o homin�deo era da altura de um chimpanz�. Mas os dentes e a estrutura da mand�bula encontrados, segundo Pickford, o remetem diretamente ao homem moderno. A denti��o � bem similar � nossa: pequenos caninos e molares completos. Essa configura��o dent�ria possibilita uma dieta � base de frutas e vegetais, com ingest�o ocasional de carne. "Tudo parece in�dito, mas antes de qualquer afirma��o � necess�ria uma avalia��o precisa, pois os f�sseis pertencem a um per�odo muito incerto", disse a VEJA Chris Stringer, titular da cadeira de origem humana do departamento de paleontologia do Museu de Hist�ria Natural de Londres, ao comentar os detalhes dos f�sseis. Tanta cautela faz sentido. Afinal, leva-se muito tempo para provar se os restos s�o mesmo de um homin�deo.
A pr�pria data��o em 6 milh�es de anos ainda precisa ser comprovada com a an�lise dos ossos. O que se sabe at� agora � que os f�sseis foram localizados numa camada de terra com essa idade geol�gica. O Ardipithecus ramidus, atualmente considerado o ancestral mais antigo do homem, com 4,4 milh�es de anos, ainda est� sendo estudado. Apesar de a maioria dos cientistas acreditar que se trata de um homin�deo, alguns questionam se a criatura n�o pertenceria a outro g�nero � um meio-termo entre um homin�deo e um macaco, sem v�nculos com a evolu��o humana. Neves n�o descarta essa hip�tese nos achados de Pickford. "� estranha uma denti��o assim t�o pr�xima da humana. Geralmente, antes dos 2 milh�es de anos, ela � muito mais parecida com a dos chimpanz�s."
A �rvore geneal�gica do homem est� longe de ser uniforme. Os cientistas conseguiram encadear de forma cronol�gica algumas das esp�cies que fazem parte de nossa cadeia evolucion�ria, mas h� d�vidas sobre como ramos inteiros se extinguiram. Cada nova descoberta abala os alicerces dessa escala, eliminando possibilidades e alterando a configura��o dos galhos. Tamb�m s�o pouco claros os motivos da extin��o de ramos inteiros, como o do Homo erectus, por muito tempo considerado um dos degraus da evolu��o humana e agora visto como uma esp�cie � parte. "Entre 2,5 milh�es e 1,5 milh�o de anos atr�s existiram seis esp�cies diferentes de homin�deos, tanto na �frica como na �sia", diz o paleont�logo Donald Johanson, descobridor do mais popular f�ssil j� encontrado, a Lucy, uma f�mea Australopithecus aferensis de 3,2 milh�es de anos. "Depois de 35.000 anos s� haviam sobrado duas, a nossa e a dos neandertais, que conviveram por cerca de 10.000 anos." At� hoje n�o se sabe direito o que aconteceu com os neandertais, mas o fato � que o homem ficou sozinho.
A regi�o de Baringo, no Vale do Grande Rift, � rica em dep�sitos paleontol�gicos e fonte de quase todos os f�sseis relacionados com os mais antigos ancestrais do homem. Foi l� que Tim White, professor da Universidade de Berkeley, localizou os restos do Ardipithecus ramidus. �s vezes, a aglomera��o de estrelas da ci�ncia cavoucando no mesmo espa�o d� confus�o. Assim que souberam do achado, pesquisadores da Universidade Yale protestaram, dizendo que Pickford e sua equipe violaram acordos e escavaram em terreno alheio, numa �rea a eles reservada. Pickford n�o se incomodou com as cr�ticas. Para ele, esse � somente o come�o de uma nova fase na paleontologia. "N�s estamos mostrando apenas nossas descobertas iniciais", disse ele. "Temos certeza de que ainda v�o surgir outros f�sseis nas escava��es e que em breve poderemos montar um esqueleto inteiro, quem sabe at� de f�sseis mais antigos." |