O Homem-Macaco                                Veja 16/12/1998
Ancestral humano de 3,6 milh�es de anos � achado numa caverna

Durante quatro anos, o paleontologista brit�nico Ronald J. Clarke, 54 anos, encarnou o personagem Indiana Jones na vida real. Em vez de ca�ar arcas perdidas ou c�lices sagrados em templos infestados de cobras, o professor Clarke procurava ossos. Com esse objetivo, ele revirou velhas caixas com centenas de f�sseis em dep�sitos empoeirados da Universidade de Witwatersrand, na �frica do Sul, onde encontrou uma raridade. Descobriu que, entre ossos catalogados como sendo de bovinos, havia alguns que na verdade pertenceram ao p� esquerdo de um homin�deo, um misto de homem e macaco, antiq��ssimo ancestral humano que, segundo os testes de laborat�rio, deve ter vivido 3,6 milh�es de anos atr�s. Remontando o p� por meio de um molde, Clarke verificou que ele j� era semelhante ao do homem moderno, exceto pelo fato de que seu ded�o era separado e avantajado em rela��o aos demais artelhos (veja quadro). Isso leva a crer que seu dono vivera numa �poca de transi��o entre o macaco, que tinha os p�s pre�nseis para subir em �rvores, e os human�ides, que viviam no solo. N�o satisfeito, o paleont�logo foi investigar o lugar onde esses fragmentos tinham sido encontrados. Por dezoito meses, escarafunchou um buraco escuro de 15 metros de profundidade, conhecido como Gruta Silberberg, situada no complexo de cavernas de Sterkfontein, na �frica do Sul. Acompanhado de dois fi�is auxiliares, Stephen Motsumi e Nkwane Molefe, ele esquadrinhou as paredes �midas da gruta em busca de um nicho ou reentr�ncia onde pudesse encaixar uma nova pe�a moldada que trazia na m�o. Novamente deu sorte.

Rastreadores experientes, Motsumi e Molefe acharam o lugar de onde o peda�o de uma t�bia havia sa�do. Come�aram a raspar cuidadosamente a pedra e aos poucos foram revelando outros ossos do que eles acreditam ser um esqueleto inteiro, com o rosto voltado para baixo, sobre o bra�o esquerdo. Seu cr�nio, tornado vis�vel em setembro, foi mostrado em Johanesburgo na quarta-feira passada, ainda parcialmente encravado em uma massa rochosa. Trata-se de uma descoberta �nica. O �ltimo esqueleto completo de um homin�deo j� encontrado por cientistas era muito mais recente: pertenceu a um Homo erectus, que viveu h� cerca de 1,7 milh�o de anos. At� hoje, a ossada mais importante de um homin�deo t�o antigo era a de Lucy, como ficou conhecido o exemplar da esp�cie Australopithecus afarensis, encontrada em 1974 em Hadar, na Eti�pia. Al�m de ser cerca de 300.000 anos mais novo, o esqueleto de Lucy n�o tinha as m�os e os p�s intactos, elementos importantes para entender como ela andava, comia e se comportava. "Encontrar apenas um osso j� seria excitante, mas o esqueleto completo pode revelar como essa criatura vivia e elimina qualquer especula��o", disse o supervisor da equipe de pesquisa da universidade sul-africana, Phillip Tobias, chefe de Ronald Clarke.

Pelo que j� se sabe, o homem de Sterkfontein, com 1,2 metro de altura, de sexo ainda indeterminado, encontra-se na escala evolutiva entre o Ardipithecus ramidus, o homin�deo mais antigo de que se tem not�cia, com 4,4 milh�es de anos, e a pr�pria Lucy. Ainda sem nome, � conhecido por seu n�mero de cat�logo (STW573) ou pelo apelido de "Pezinho" (Little Foot), por causa dos fragmentos do p� esquerdo que levaram � descoberta. Com seu ded�o proeminente, que funcionava como um polegar, ele possu�a locomo��o h�brida. Caminhava melhor no solo do que um chimpanz�, que tem os p�s com movimentos semelhantes aos das m�os para movimentar-se bem em �rvores. Ao mesmo tempo, podia equilibrar-se em galhos melhor do que um homem. Em suma, era a tradu��o perfeita do que pode significar a express�o homem-macaco. "Tudo indica que Pezinho andava com desenvoltura no solo e em caso de emerg�ncia corria para as �rvores", explica Clarke. "Estamos chegando cada vez mais perto da crucial separa��o entre n�s e os macacos, que deve ter acontecido num per�odo entre 5 milh�es e 7 milh�es de anos."

Os pesquisadores continuam a escavar as rochas da gruta de Sterkfontein, onde esperam encontrar outros ossos do homin�deo. Antes mesmo da descoberta do esqueleto de Pezinho, esse s�tio paleontol�gico havia muito tempo j� era considerado um dos mais importantes do mundo. Desde o in�cio do s�culo, v�m sendo localizados ali restos de ancestrais humanos pr�-hist�ricos, a maior parte deles com idade entre 3 milh�es e 2,5 milh�es de anos. Pertencem � esp�cie Australopithecus africanus, assim chamada por ter habitado a �frica austral. Formadas h� cerca de 5 milh�es de anos, as cavernas de Sterkfontein devem ter funcionado como uma armadilha, onde ca�am os desavisados antrop�ides que habitavam as florestas tropicais da regi�o. Comp�em um conjunto de seis grandes salas, interconectadas por passagens, e um lago subterr�neo. Pezinho provavelmente caiu por uma fenda e morreu na gruta Silberberg, onde seu corpo ficou protegido das feras que costumavam devorar os cad�veres da superf�cie, separando e partindo seus ossos. Mais tarde, envolvidos por estalactites, o esqueleto foi sepultado sob uma montanha de calc�rio que sedimentou. O lugar s� foi encontrado no final do s�culo passado, quando mineradoras escolheram a regi�o para extrair pedras destinadas � constru��o civil. Foram oper�rios que arrancaram das paredes da caverna o fragmento onde os ossos do homin�deo se encontravam engastados. Entregues a Phillip Tobias em 1992, estavam desde ent�o guardados na Universidade de Witwatersrand, dentro de uma caixa de papel�o. Durante muito tempo, acreditou-se que eram ossos fossilizados de animais. A curiosidade de Clarke mudou o rumo da Hist�ria.

Cr�nio na lareira � N�o � a primeira vez que a ci�ncia deve seu avan�o a um certo acaso, especialmente nessa �rea. Outra das maiores descobertas da paleontologia se deu tamb�m por coincid�ncia em 1924, na cidade de Taung, na �frica do Sul. Na ocasi�o, o anatomista australiano Raymon Dart teve sua aten��o despertada para um cr�nio que decorava a lareira de um funcion�rio de uma das mineradoras da cidade. O cr�nio, que o propriet�rio acreditava ter pertencido a um macaco, na verdade era de uma esp�cie at� ent�o desconhecida de homin�deo. Dart verificou que o ponto onde se sustentava sua coluna vertebral n�o estava na nuca, como seria de esperar de um s�mio. Em vez disso, ficava na base do cr�nio, sinal de que o animal andava ereto. Por pertencer a um filhote de apenas 4 anos, o exemplar ganhou o nome de Menino de Taung. Membro de uma esp�cie com um c�rebro de apenas 500 cent�metros c�bicos, pouco menor que o de um chimpanz�, o Menino de Taung provava que existia um ramo completamente novo de homin�deo. Foi o primeiro Australopithecus africanus a ser identificado.

A par da sorte, outros fatores v�m contribuindo para ajudar a desvendar a velha pergunta sobre qual � a verdadeira origem do homem. Um deles � a investiga��o de campo, em s�tios arqueol�gicos como o de Silberberg. Outra � a precis�o com que se consegue determinar a idade das ossadas, por meio de exames especializados. A idade de Pezinho, por exemplo, foi medida em testes conduzidos no laborat�rio de geomagnetismo da Universidade de Liverpool, na Inglaterra. N�o foi uma tarefa f�cil. N�o havia sinais de cinzas vulc�nicas no material que envolvia os ossos, como em outros s�tios arqueol�gicos do leste da �frica. Assim, n�o foi poss�vel estabelecer sua idade pela medi��o do n�vel de radia��o presente nesse tipo de material. No entanto, os especialistas encontraram sinais magn�ticos nas camadas de calc�rio que ensanduichavam o esqueleto. Por meio da medi��o desses sinais, obteve-se a idade do homin�deo com razo�vel precis�o.

A cada nova descoberta, os paleont�logos chegam mais pr�ximos daquilo que se tornou lugar-comum chamar de elo perdido. � aquele ancestral �nico que estaria bem na encruzilhada da evolu��o das esp�cies e deu origem simultaneamente aos seres humanos e aos macacos atuais. Aparentemente, Pezinho n�o � esse ancestral. O mais prov�vel � que seja um elo apenas dentro da linhagem humana, e n�o dos macacos, em fun��o de suas caracter�sticas biol�gicas, muito diferentes das dos s�mios atuais. Hoje, � praticamente un�nime entre os cientistas a id�ia de que o homem veio do continente africano. O Menino de Taung foi o primeiro f�ssil a inaugurar as explora��es na �frica como a chave central para o enigma das origens dos atuais seres humanos. A �nica coisa que se discute atualmente � de qual regi�o africana viemos.

Alguns paleontologistas defendem a tese de que os primeiros ancestrais humanos viveram no leste africano h� 5 milh�es de anos, fruto de uma transforma��o biol�gica for�ada por uma mudan�a clim�tica: a destrui��o das florestas do Mioceno, que deu origem �s savanas, um tipo de vegeta��o rasteira em que as �rvores s�o mirradas e raras. Isso teria obrigado os ancestrais humanos a descer das �rvores, onde viviam da coleta de frutos, para buscar a sobreviv�ncia no ch�o. Ali, foram obrigados a desenvolver novas habilidades � e tamb�m uma nova anatomia � para andar, ca�ar, pescar e se defender dos predadores. Entre os representantes da chamada "Escola do Leste", est�o o paleont�logo americano Donald Johanson, descobridor de Lucy, e Tim White, professor da Universidade de Berkeley, que encontrou em 1995 os restos do Ardipithecus ramidus. A seu favor, conta o fato de que ambos os achados se deram na regi�o do Vale do Grande Rift, entre a Eti�pia, o Qu�nia e a Tanz�nia. Recentemente, em um congresso de paleontologistas em Sun City, na �frica do Sul, Tim White defendeu a id�ia de que houve um desenvolvimento unilinear da humanidade, que teria come�ado com o Ardipithecus ramidus, passando pelos australopithecos anamensis, afarensis e africanus. Depois viriam ent�o as primeiras esp�cies do g�nero Homo, como o Homo habilis e o Homo erectus, que desembocariam no Homo sapiens.

Sem parentesco � Apesar dessa teoria da descend�ncia em linha direta, boa parte dos paleontologistas acredita que cada esp�cie de homin�deo se desenvolveu de maneira diferente, e a maioria delas desapareceu no decorrer do tempo. J� se sabe que os homin�deos se mantiveram num est�gio evolutivo muito semelhante por um longo per�odo. "Entre 2,5 milh�es e 1,5 milh�o de anos atr�s existiram seis esp�cies diferentes de homin�deos, tanto na �frica quanto na �sia", diz o paleont�logo Donald Johanson. "H� 35.000 anos, s� haviam sobrado duas esp�cies, a dos neanderthais e a dos seres humanos modernos, que conviveram por cerca de 10.000 anos." At� h� pouco tempo, acreditava-se que o neanderthal era um antecessor ou tivesse algum parentesco gen�tico com o Homo sapiens, como o ser humano atual � classificado. Somente h� dois anos, gra�as a testes realizados na Universidade de Munique, na Alemanha, os cientistas comprovaram que ele na verdade pertenceu a um ramo evolutivo diferente. Os pesquisadores constataram que fragmentos de DNA recolhidos de ossadas de pelo menos 100.000 anos n�o tinham nada em comum com o DNA humano de hoje. Em vez de ter dado origem ao homem, o neanderthal pode ter sido extinto por ele em luta direta na Idade do Gelo, cerca de 30.000 anos atr�s.

Essa descoberta deu mais um empurr�o � teoria conhecida como "Sa�da da �frica", que defende a id�ia de que a esp�cie humana descende de uma Eva africana, que viveu h� cerca de 200.000 anos. Segundo alguns adeptos dessa vertente, � poss�vel que a humanidade descenda dos australopitecos sul-africanos, dando origem ao Homo erectus, esp�cie que viveu entre 1,7 milh�o e 200.000 anos atr�s. O Homo erectus teria, segundo acreditam os especialistas, migrado mais tarde para a Europa, a �sia e a Austr�lia. "Ainda n�o sabemos ao certo a que esp�cie Pezinho pertencia, mas ele era provavelmente um australopiteco", afirma Ronald Clarke. Assim, existem possibilidades reais de que Pezinho, um homem-macaco que viveu no lugar certo, na �poca certa, com caracter�sticas certas, possa ter sido mesmo nosso mais remoto tatarav�.
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