| Os Fals�rios da Ci�ncia Veja 11/04/2001 Fraude com f�ssil mostra como cientistas s�rios podem ser induzidos a erros grosseiros Xing Xu e Steven Czerkas com o f�ssil do Archaeoraptor: pressa na origem de um vexame colossal O maior vexame para um cientista � reconhecer ter sido engabelado por uma fraude. Est�o nessa situa��o os paleont�logos Xing Xu, do Instituto de Pal Vertebrada e Paleoantropologia de Pequim, e Philip Currie, do Museu de Paleontologia de Alberta, no Canad�. H� duas semanas, a prestigiada revista cient�fica inglesa Nature demonstrou de modo categ�rico que ambos fizeram papel de bobo. Xing e Currie s�o autores da descri��o de um dos f�sseis mais sensacionais j� descobertos, o Archaeoraptor liaoningensis. Os ossos comprovariam nada menos que os p�ssaros atuais realmente descendem dos dinossauros. A Nature demonstrou que, longe de ser o av� dos passarinhos, o objeto de estudo � apenas uma pe�a forjada por vigaristas vulgares. A revela��o n�o s� carbonizou a reputa��o dos dois paleont�logos como tamb�m chamuscou outra s�lida institui��o do mundo da ci�ncia, a revista americana National Geographic, da centen�ria National Geographic Society, cuja vers�o em portugu�s � produzida pela Editora Abril. H� pouco mais de um ano, a National Geographic colocou na capa uma recria��o art�stica do animal e deu-lhe cr�dito como o elo perdido entre r�pteis e aves. A fraude do Archaeoraptor � exemplar de como cientistas s�rios e publica��es respeit�veis podem ser enganados por espertalh�es no competitivo universo da paleontologia. O autor do estudo publicado na Nature, o especialista Timothy Rowe, da Universidade do Texas, submeteu o f�ssil a uma tomografia computadorizada e provou que a teoria do elo perdido dinossauro-ave n�o passa de um quebra-cabe�a de 88 pe�as montado por agricultores chineses com peda�os de f�sseis variados. "Partes de pelo menos duas esp�cies novas foram combinadas para aumentar o valor comercial da fraude", escreveu Rowe. Da China, o f�ssil forjado foi levado por contrabandistas para os Estados Unidos. L�, foi comprado pelo paleont�logo amador Steven Czerkas por 80.000 d�lares numa tradicional feira de f�sseis em Tucson, no sudoeste do pa�s. Intrigado com o material, ele o mostrou ao canadense Currie. A primeira provid�ncia do cientista foi avisar a National Geographic, da qual � consultor. A segunda foi convocar um especialista do governo chin�s, Xing Xu, pois temia que o f�ssil fosse contrabandeado. Ambos dedicaram apenas dois dias ao estudo do material e sa�ram alardeando a nova descoberta. O achado parecia sensacional demais para ser ignorado. Um ser emplumado que viveu na China 125 milh�es de anos atr�s, com apar�ncia entre uma galinha e o velocir�ptor, aquele dinossauro perverso do filme Jurassic Park. A mentira foi pega pelo rabo, literalmente, um m�s depois da publica��o. Em pesquisas mais cuidadosas feitas na China, Xu descobriu que a cauda do Archaeoraptor era na verdade de outro bicho, um dromeossauro. Alertada, a National Geographic mandou investigar a hist�ria e, em outubro, publicou um extenso artigo mostrando como p�de ser enganada. Fraudes existem em todos os ramos da ci�ncia, mas a arqueologia e a paleontologia s�o presas especialmente f�ceis para os espertalh�es. Isso ocorre, em parte, por raz�es mercadol�gicas. H� enorme demanda alimentada por amadores milion�rios, cientistas e museus, mas faltam pe�as autenticadas. O f�ssil e as pe�as arqueol�gicas de valor cient�fico s�o extra�dos de s�tios arqueol�gicos supervisionados. Mas existe fartura de f�sseis extra�dos sem rigor. Desprovidos de origem comprovada, eles precisam do aval de algum cientista para ter o valor aumentado. "Em geral, os pesquisadores se encantam com as pe�as e n�o se preocupam com mais nada", disse a VEJA Oscar Muscarella, pesquisador do Metropolitan Museum of Art de Nova York e autor de um livro sobre falsifica��o de objetos arqueol�gicos. Ele calcula que cole��es respeit�veis de negociantes de arte e casas de leil�es internacionais tenham no m�nimo 1.000 objetos forjados ou suspeitos apenas em sua �rea de atua��o, a arqueologia no Oriente M�dio. Os cientistas tamb�m s�o movidos pela ansiedade de mostrar servi�o. O trabalho na paleontologia e na arqueologia �, por sua natureza, de resultados lentos e depende bastante do acaso. Quando tem algo promissor, o estudioso � tentado a atropelar as regras b�sicas da pesquisa cient�fica para divulgar sua descoberta. O suposto f�ssil do Archaeoraptor enganou os pesquisadores por ser composto de pe�as originais, de antiguidade incontest�vel. Esse � um artif�cio usual entre os falsificadores de pe�as antigas. Uma m�mia trajada de roupas douradas, confiscada pela pol�cia paquistanesa de um contrabandista, est� agora depositada no Museu Nacional de Karachi, no Paquist�o. O arque�logo Ahmed Hasan Dani, da Universidade de Islamabad, apressou-se em dizer que a m�mia � com vestes de estilo eg�pcio e repousando em caix�o de madeira com entalhes em escrita cuneiforme � era a de uma princesa que viveu 600 anos antes de Cristo. Dois meses antes de aparecer no Paquist�o, a m�mia tinha sido oferecida a um colecionador americano por 11 milh�es de d�lares. Exames revelaram que se tratava do corpo de uma mulher mumificada h� apenas dois anos � e j� em estado de decomposi��o. O esquife que dava ar de autenticidade � m�mia era realmente antigo, tinha 250 anos. A arte da falsifica��o hist�rica est� na habilidade em misturar pe�as velhas e novas. Em ambos os casos, o embuste foi desfeito com a utiliza��o de tomografia e de an�lises qu�micas mais precisas, que s� recentemente entraram para o arsenal dos pesquisadores. Nem sempre a descoberta da fraude leva � imediata desmoraliza��o das pe�as e das teorias elaboradas em torno delas. Vinte anos atr�s, pesquisadores de v�rios pa�ses usaram dois pratos de l�pis-laz�li atribu�dos aos sum�rios para tra�ar teorias acerca da cultura, da topografia e das t�ticas b�licas na Mesopot�mia cerca de 3.000 anos a.C. As pe�as tiveram posteriormente a autenticidade contestada, mas nem por isso perderam o lugar de honra numa cole��o particular de Nova York e no Museu da B�blia, em Jerusal�m. O embuste original Cr�nio de Piltdown: parte homem, parte orangotango O homem de Piltdown � o mais famoso dos embustes cient�ficos. Trata-se um cr�nio aclamado por d�cadas pela comunidade cient�fica como a comprova��o da teoria evolucionista de Charles Darwin. Apresentado em 1912 por um ge�logo amador chamado Charles Dawson, chegou a ser exposto no Museu Brit�nico de Hist�ria Natural. Em 1953, um exame mais detalhado mostrou que era apenas uma mistura de cr�nio humano com mand�bula de orangotango. Outra fraude hist�rica foi descoberta, em dezembro do ano passado, no Museu Nacional do Pa�s de Gales, em Cardiff. O f�ssil de um ictiossauro, um dinossauro aparentado dos peixes, de 1 metro e meio, era na realidade uma mistura mal-ajambrada de ossos e gesso que ficou em exposi��o por mais de 100 anos. Agora passou a ser exposta como um monumento aos enganos da paleontologia. |
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