Eles Eram Assim                              Veja 05/04/2000
Retratos mortu�rios que enfeitavam m�mias revelam a fisionomia dos antigos eg�pcios


M�mias do tempo dos C�sares: os retratos eram pintados com rigor quase fotogr�fico entre os s�culos I e III e revelavam quem era o morto (centro). Detalhes como os olhos grandes e penteados em simetria mostram a influ�ncia da pintura greco-romana na sociedade cosmopolita que habitou o pa�s por mais de 700 anos 


















No Egito do tempo dos fara�s vislumbrar uma pessoa morta depois de mumificada era um sacril�gio. No m�ximo, podia-se tentar identificar as fei��es do falecido com base em imagens esculpidas e pintadas sobre o sarc�fago, pouco fi�is ao modelo original. Essa cultura come�ou a mudar com a conquista do Egito pelo Imp�rio Romano, no ano 30 a.C. Os corpos continuaram sendo embalsamados, mas passaram a ser expostos diante da casa em que tinham vivido, exibidos em c�maras e at� partilhavam da vida familiar por meses a fio. Para informar quem se escondia sob as bandagens e tornar o conv�vio que precedia o sepultamento mais natural, os eg�pcios romanizados fixavam um retrato pintado em linho ou placas de madeira sobre a m�mia. Em vez de imagens estilizadas e repletas de simbologia f�nebre do passado, os mortos eram representados de forma realista e com uma impressionante vivacidade. Passados 2.000 anos, esses retratos produzidos aos milhares est�o reduzidos a poucas dezenas, pulverizados por cole��es de todo o planeta depois de pilhados das necr�poles por ladr�es de rel�quias. A maioria foi escavada em s�tios arqueol�gicos de Memphis, Saqqara e Hawara e, sobretudo, do O�sis de Fayum, entre 1887 e 1911.

Uma sele��o de setenta desses retratos est� atualmente exposta no Metropolitan Museum of Art, em Nova York. S�o pe�as pintadas entre os s�culos I e III, emprestadas por v�rios museus da Europa e dos Estados Unidos, e guardadas com medidas extraordin�rias de seguran�a. Devido � extrema fragilidade do material, dificilmente voltar�o a ser reunidas. O conjunto � deslumbrante. Algumas t�m o requinte de ser folhadas a ouro, o que aumentava seu valor no mercado de arte antiga. Quase todas foram separadas das suas m�mias, de modo que hoje � imposs�vel, em quase todos os casos, restituir o retrato ao cad�ver original. O mais impressionante � a hist�ria que contam. Como se o visitante estivesse folheando um �lbum de fam�lia, s� que os retratos s�o de pessoas desaparecidas h� quase dois mil�nios. A janela que se abre ajuda a compreender uma sociedade multicultural que habitou o Egito por s�culos, at� o cristianismo mudar inteiramente os costumes funer�rios. Pode-se ver que se tratava de uma popula��o de fei��es tipicamente mediterr�neas, n�o muito diferente dos habitantes atuais da regi�o.

O Egito do per�odo romano era cosmopolita e pr�spero. Na �poca em que os primeiros retratos realistas desceram �s necr�poles, ainda era recente a derrota de Cle�patra, a �ltima soberana de uma dinastia de origem hel�nica, a dos Ptolomeos, diante das legi�es romanas. Integrado ao Imp�rio dos C�sares, o Egito tornou-se uma prov�ncia de economia s�lida, com fartas colheitas, em especial a de trigo, proporcionadas pelas cheias anuais do Rio Nilo. O Porto de Alexandria exportava artigos de luxo e produtos manufaturados, como papiro e vidro. A mistura de costumes religiosos, de roupas e ornamentos de diferentes origens, revelada pelos retratos dos mortos, � uma lembran�a do modo com que Roma administrava seus dom�nios. "Os romanos foram sutis e estavam mais interessados nas vantagens econ�micas do que na acultura��o das prov�ncias conquistadas", diz a historiadora Eliza Torquatto Sales, da Universidade de S�o Paulo. "Nunca subjugaram inteiramente a civiliza��o e a cultura do Egito, que permaneceram fortes."

A arte dessa �poca era um n�tido retrato dessa ambival�ncia. Enquanto a constru��o de templos e pal�cios no tradicional estilo dos fara�s sobreviveu at� o final do s�culo II, muitas est�tuas de divindades e retratos passaram a ser concebidos de acordo com a linguagem art�stica greco-romana. E a mumifica��o tamb�m n�o escapou da influ�ncia das novas culturas. A vis�o mais positiva da vida ap�s a morte atraiu os romanos assim como j� havia seduzido os gregos, que aderiram aos h�bitos religiosos do antigo Egito. "Foi um per�odo em que ocorreu uma democratiza��o do culto funer�rio", diz o egipt�logo Antonio Brancaglion. "O processo de embalsamamento se tornou mais simples e barato, e por isso existem muito mais m�mias desse per�odo do que fara�nicas." Com isso, atletas, soldados e sacerdotes, cidad�os comuns gregos, romanos ou eg�pcios tamb�m puderam ser mumificados.

   

Diversidade t�cnica: cada regi�o
do pa�s tinha um estilo pr�prio
de retratar os mortos 











S�o dessas pessoas os retratos colados �s m�mias, essenciais para o cumprimento de um ritual tamb�m rec�m-adotado. Textos antigos contam que as m�mias permaneciam em casa ou em capelas por meses, �s vezes anos, para ser veneradas pelos parentes. Era comum que os parentes mortos estivessem presentes �s ocasi�es festivas da fam�lia. "Por isso elas precisavam ter um rosto, j� que eram vistas", diz Brancaglion. A salada cultural � bem representada na forma como eram sepultados os mortos. O objetivo da mumifica��o � preservar o corpo para a vida al�m-t�mulo � tinha sido herdado do Egito cl�ssico. Muitas outras coisas remetiam ao per�odo fara�nico. M�mias retiradas da mesma escava��o de Hawara, da qual sa�ram muitas das preciosidades expostas no Metropolitan, s�o decoradas com m�scaras feitas pelo processo chamado de cartonagem, o mesmo usado sobre os cad�veres embalsamados dos fara�s. Eram produzidas pela aplica��o sucessiva de camadas de panos sobre papiro, cola e gesso. Embora diretamente descendentes das pe�as usadas no tempo de Tutanc�mon, mostram que os mortos usavam penteados e adornos no estilo greco-romano. Com tanta diversidade, a representa��o f�nebre era, para os habitantes do Egito daquele tempo, uma quest�o de escolha.

A pintura de retratos � uma dentre muitas formas dispon�veis para preparar o morto para a �ltima jornada. Os retratos que procuravam reproduzir com fidelidade a fisionomia do mumificado eram feitos, provavelmente, por artistas que o tinham conhecido em vida ou tiveram a oportunidade de pint�-lo logo ap�s a morte. O realismo relacionava-se diretamente � tradi��o da pintura greco-romana e tem pouco a ver com o Egito antigo. "A valoriza��o do sorriso t�pico da arte j�nica, os olhos grandes, cabelos encaracolados, penteados em simetria e pregas de roupas bem ordenadas s�o caracter�sticas da arte grega retomadas nesse per�odo", descreve Elza Ajzenberg, professora de est�tica e hist�ria da arte na USP.

N�o apenas o estilo, mas tamb�m a t�cnica utilizada na maioria dos retratos � a mesma usada pelos gregos em pinturas antigas dos s�culos V e IV a.C. Chamada de enc�ustica, a t�cnica � similar � pintura a �leo e consiste na mistura de cera com pigmentos de cor. Os artistas utilizavam esse tipo de tinta diretamente no linho que servia para enrolar o corpo do morto ou em placas de madeira que depois eram fixadas na parte superior da m�mia. Algumas eram banhadas em ouro antes de ser pintadas e outras ostentavam l�minas do metal para representar as j�ias e adornos que o falecido teria usado em vida. Tamb�m se encontraram retratos pintados em t�mpera, m�todo usado a partir do fim do s�culo I. S�o facilmente identificados pelas cores mais quentes e pelos tra�os menos definidos.

As vedetes da mostra s�o as pe�as feitas pela t�cnica da enc�ustica. Isso porque os detalhes s�o t�o minuciosos que a tornam quase uma fotografia. "S�o retratos realistas de homens e mulheres de todas as idades, com marcas expressivas de pessoas que tinham a expectativa de chegar a uma vida al�m-t�mulo", observa Elza. Pesquisas conclu�ram que esses costumes funer�rios continuaram comuns at� o final da era romana. As varia��es t�cnicas, sobretudo entre a pintura enc�ustica e a t�mpera, correspondem a diferen�as regionais. Contemplados quase 2.000 anos depois, s�o mais do que fragmentos espetaculares de uma civiliza��o original e surpreendente. S�o como uma espiada na vida de pessoas comuns de um mundo h� muito desaparecido

 
A morada eterna
Na �poca dos gregos e dos romanos os cemit�rios do Egito eram verdadeiras cidades, que receberam corpos ininterruptamente por mais de dez s�culos. As imagens ao lado s�o simula��es modernas do que pode ter sido a apar�ncia da necr�pole de Alexandria em seu apogeu, no s�culo I. Numa grande se��o desse cemit�rio, identificada h� apenas tr�s anos, encontraram-se desde sepulturas rudimentares at� m�mias ricamente decoradas em mausol�us e capelas. Na superf�cie, a necr�pole lembrava um cemit�rio moderno. Mas a forma mais comum era o sepultamento em nichos nas amplas catacumbas.
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