A Cidade dos Mortos Veja 23/06/1999 Cientistas encontram, por acaso, milhares de m�mias de gregos e romanos que viveram no Egito h� 2 000 anos
Uma das tumbas de Bawiti: s�tio arqueol�gico ser� aberto para turistas ainda neste anoH� seis anos, um fazendeiro estranhou quando seu jumento foi engolido por um buraco, nos arredores da cidade de Bawiti, regi�o oeste do Egito, a 350 quil�metros do Cairo. Ao tentar salv�-lo, percebeu que o animal havia ca�do numa antiga tumba, abarrotada de m�mias, escondida sob as folhagens de um o�sis, a centenas de quil�metros do Vale dos Reis e das pir�mides. Somente na semana passada, os arque�logos conseguiram avaliar a dimens�o da descoberta: s�o pelo menos 10.000 m�mias, com cerca de 2.000 anos, distribu�das em 6 quil�metros de tumbas. � o maior achado do g�nero at� hoje. O governo eg�pcio tratou de rebatizar o local de "Vale das M�mias", destinado a transformar-se na mais nova atra��o tur�stica do pa�s.
Al�m do grande n�mero de m�mias, o s�tio arqueol�gico de Bawiti chama a aten��o dos cientistas por ser um raro exemplo de sepultura antiga n�o atacada pelos saqueadores, que agem no pa�s desde o tempo dos fara�s. Por essa raz�o, ali tamb�m foram encontrados j�ias, m�scaras de ouro, moedas e objetos de cer�mica. "Essa descoberta vai nos dar uma id�ia mais precisa de como era o dia-a-dia das pessoas naquela �poca", afirma o chefe da equipe de arque�logos, Zahi Hawwas.
Papel de embrulho � Outra novidade � que essas m�mias n�o s�o s� de eg�pcios. Boa parte pertence a altos funcion�rios romanos, que ent�o governavam o pa�s. Esse � um aspecto curioso do processo de mumifica��o no Egito antigo. N�o s� a popula��o local era sepultada dessa maneira. Tamb�m os gregos e romanos, que dominaram a regi�o por mais de 700 anos, tinham seus corpos mumificados. O h�bito persistiu at� os prim�rdios do cristianismo, conforme mostram as escava��es de m�mias crist�s, com crucifixos nas m�os.
Estima-se que 50 milh�es de pessoas foram mumificadas no antigo Egito � o que equivale a um ter�o da atual popula��o brasileira. O interesse cient�fico pelo assunto, contudo, � relativamente recente. At� as primeiras d�cadas deste s�culo, a arqueologia valorizava apenas os objetos ex�ticos ou valiosos das tumbas. Encontrada em 1922, a m�mia do fara� Tutanc�mon, a mais famosa de todas, foi violada por seus pr�prios descobridores. Embora o raio X j� estivesse dispon�vel, os arque�logos n�o hesitaram em esquartejar os despojos do morto ilustre e at� ferver seus membros, em busca de j�ias. Durante d�cadas, Inglaterra e Estados Unidos compravam montanhas de m�mias, por pre�os que chegavam a 18 d�lares a tonelada, para us�-las como combust�vel em locomotivas e mat�ria-prima de papel de embrulho.
Hoje, os saqueadores continuam a atuar, mas uma grande quantidade de m�mias est� segura em museus ao redor do mundo. Salvas da destrui��o, as m�mias de Bawiti devem permanecer onde est�o ainda por bastante tempo. Por enquanto, os arque�logos examinaram apenas quatro tumbas. Falta estudar mais de 100. � trabalho para d�cadas. Uma das tumbas, por�m, deve ser aberta para visita��o tur�stica ainda neste ano. |