UFRRJ – Curso de Mestrado em Medicina Veterinária
IV-1410 – Zoonoses – Prof. Carlos Wilson Gomes
Lopes
Novembro de 2003
Paula Amorim Schiavo
Promiscuidade como fator de
risco entre humanos e animais
Definição:
Promiscuidade - S. f.:Mistura
desordenada e confusa.
Há cerca de 278 patógenos conhecidos capazes de causar doenças em humanos
associadas a animais de estimação. Sabe-se também que somente cães e gatos, que
são os animais de estimação mais comuns, estão associados, direta ou
indiretamente, com a transmissão de pelo menos 30 agentes infecciosos para os
seres humanos.
A maioria das zoonoses está relacionadas com posturas e/ou intervenções
inadequadas no meio ambiente e passam a incidir na população humana, nas
populações animais e, em especial, nos animais domésticos que com ela convivem.

Os fatores que influenciam a transmissão de doenças entre homens e animais
variam conforme o agente envolvido, e a maioria destes fatores é alterada com
as mudanças de hábitos humanos e animais, os quais podem levar, inclusive, a
novas vias de infecção.

As crianças tendem a estar sob maior risco que os adultos, por seu contato
físico mais próximo com os animais e do hábito de levarem as mãos e objetos à
boca. Pessoas imunossuprimidas por infecção pelo HIV, outras infecções,
transplantados, pessoas em tratamento com drogas imunossupressoras,
neutropênicos e idosos também se encontram sob maior risco, mais pela
imunodepressão que pelos hábitos.
Embora os animais de companhia possam transmitir doenças, eles também
ajudam a compensar as limitações de deficientes físicos, a aliviar a depressão
e a solidão, auxiliam na psicoterapia e na socialização de criminosos,
facilitam o convívio social de idosos e o relacionamento interpessoal. Os
animais de estimação também tornam as perdas de entes queridos menos dolorosas,
estimulam o bom humor, e geram um sentimento de responsabilidade que faz com
que as pessoas se sintam úteis. Na presença de animais, a pressão arterial e a
freqüência cardíaca diminuem, indicando uma redução no nível de estresse.
Problemática:
§
Precariedade
dos hábitos de higiene. (Humanos)
§
Cuidado
com os animais – água? Restos de comida – reciclagem da Salmonella. Recolhimento de dejetos.
§
Educação
das crianças
§
Manutenção
e controle das doenças.
§
Condições
de saúde.
§
Condições
de vida.
§
Pobreza.
§
Poucos
conhecimentos de Educação em Saúde.
§
Doenças
que não provocam sintomas clínicos ou estes são inespecíficos – p.ex.,
parasitoses e dermatofitose.
§
Conscientização
das comunidades.
Raiva humana e
animal é problema que não se justifica mais!
Toxocara canis – cerca de 70% reconhece importância; Cryptosporidium – 1,5% reconhece
importância.
§
Posse
responsável de animais.
§
Misturas
de animais – população de animais de companhia é em sua maior parte
semidomiciliada (cerca de 40%).
§
Animais
errantes – agressão a seres humanos.
Problema:
Espaço do animal: fator
de identidade e definição de hábitos e caráter.
Domínio do animal.
Animais semidomiciliados. A
movimentação destes animais não é restrita e eles têm livre acesso às ruas.
Geralmente só são vacinados contra a Raiva em campanhas desenvolvidas por
órgãos públicos. Muitas pessoas consideram gatos como seres livres.
Animais comunitários ou de vizinhança – ninguém se responsabiliza por eles. Recebem restos de comida e não são
vacinados ou assistidos. Abrigam-se em qualquer lugar.
Gatos em árvores,
cemitérios e praças.
Animais errantes.
Tidos como selvagens ou
ferozes. Sem controle.
Disseminação de doenças
entre os extratos da população – outros extratos de cães e selvagens.
Selvagens ou feras –
determinam desequilíbrio ecológico por destruírem ninhos para se alimentar de
ovos e competirem com animais silvestres – gambás, ouriços, tatus,
cachorro-do-mato, aves, herbívoros.
As
condições do meio ambiente podem favorecer a sobrevida de animais sem controle
por lhes proporcionar alimento e abrigo em terrenos baldios, casas abandonadas,
locais próximos a lixões, construções abandonadas, becos, pátios de
estacionamento, praças, favorecendo a formação de matilhas, a procriação e a
disseminação de agentes etiológicos de diversas doenças. Eles podem ser
responsáveis pior agravos a seres humanos e outros animais, por invasão de
residências, creches, escolas ou hospitais. Dejetos e animais em condições
precárias de saúde.
§
Controle
da infecção animal e do ambiente.
§
Degradação
da natureza – Leishmaniose, Febre Amarela
§
Clínicas
veterinárias – animais com doenças contagiosas e hospedagem no mesmo ambiente.
Ausência de cuidados na separação dos ambientes; destinação adequada de
resíduos; facilidade de higienização; proteção pessoal; proteção radiológica;
esquema de vacinação pré-exposição; geladeiras separadas para imunobiológicos
(inclusive monitoramento da temperatura), alimentos e cadáveres; coletor de
material perfurocortante, separação do lixo.
§
Envolvimento
no controle das populações de animais.
Araucária,
PR/2002: 61% das residências preferem animais machos. 6% das residências têm
animais castrados. 51,2% das residências havia pelo menos um cão vacinado
contra Raiva. 945 das pessoas eram favoráveis ao recolhimento dos cães
errantes, embora 85% mostrassem preconceito contra o nome do serviço.
§
Enfoque
positivo
Histórico
1886 – Brucelose.
Soldados ingleses na Ilha de Malta.
1918 – Pandemia
de Gripe espanhola (H1N1) – ave – suíno – humano. Mais de 20 milhões de pessoas
morreram.
1939 – Cepa Flury
do vírus da Raiva
1957 – Epidemia
de Gripe asiática (H2N2) – grave
1968 – Epidemia
da Gripe de Hong Kong (H3N2) – provável recombinação de H3N8 e H2N2
1997 – Influenza
aviária – 18 pessoas infectadas. 1,3 milhão de galinhas mortas.
1999 – West Nile

2003 – (?) SARS
2003 – Monkeypox

Peste bubônica
Helicobacter pylori e Helicobacter
heilmannii
Campylobacter jejuni
Yersinia enterocolitica
Giardíase
Rotavirose
Criptosporidiose
Salmonelose apresenta alta taxa de morbidade, é grave
e pode levar à septicemia. Subestimada. Problema da criação de répteis.
Clamidiose
Tuberculose – doença reemergente
Na Tuberculose, por exemplo, o cão pode adquirir a doença dos humanos e
passar a disseminar o agente posteriormente. O controle deve ser bilateral em
muitas circunstâncias e a falta de higiene humana ou mesmo a falta de
rotinas profiláticas de higiene e manejo com seus animais é o fator crucial
desta questão.
Toxocara canis. Cistos retinianos.
Ancilostomíase
Tungíase – veterinários
Escabiose
Leptospirose – caso no RS (Sapiranga) – banhado
freqüentado por animais. Enfoques em São Paulo, Rio e Salvador.
Dermatofitose – inclusive o
homem como reservatório.
Pasteurelose – microbiota
normal à celulite no local
da lesão
Strongyloides e Trichnella
Febre Q
Febres
hemorrágicas virais (coriomeningite linfocítica, Lassa, Machupo)
Promoção de Educação em Saúde
§
Direitos
e deveres do cidadão e da comunidade
§
Posturas
adequadas no convívio entre os homens e animais
§
Adoção
de medidas de preservação da saúde humana e dos animais
§
Alimentação,
higiene, vacinação, combate de parasitas e outras medidas preventivas e curativas.
§
Intercomunicação
entre os serviços e os profissionais de saúde e educação para divulgação de
informações e obtenção de orientações precisas e adequadas.
§
Envolvimento
da comunidade, ONGs e particulares para implantação ou intensificação de
métodos de educação e prevenção de agravos que envolvam pessoas e animais.
§
Evitar
ingresso de animais estranhos, sem controle ou de animais exóticos que possam
introduzir ou agravar doenças
Benefícios dos
animais:
Valorização da
vida.
Efeitos
terapêuticos dos animais.
Proteção,
carinho, responsabilidade, paciência, interferindo e melhorando as relações
humanas.
A problemática dos animais silvestres
A posse de um
animal silvestre implica em crime inafiançável (Lei 9605/98).
Características
comportamentais, necessidades ambientais e doenças específicas a cada espécie.
Em geral, são
capturados os mais fracos e mais dependentes, menos aptos e em piores condições
de saúde.
Problemática no
ambiente – animais hierarquizados.
Desequilíbrio
ecológico. Interferência na vida e preservação de outras espécies da região.
Transporte,
ilegal e precário, é fator de desgaste.
Desgastes físicos
e emocionais nas áreas urbanas. Perde identidade e reconhecimento como
indivíduo e capacidade de reprodução.
Passam a
manifestar doenças como malária, febre amarela, psitacose, ornitose e outras
desconhecidas no meio urbano. Epidemias exóticas em áreas urbanas.
Herpes dos
macacos – encefalite fatal em seres humanos. Período de incubação da raiva (não
se detecta o vírus).
Infecções
determinadas por agentes disseminados por animais contrabandeados de outros
países, favorecendo introdução de agentes de doenças desconhecidas em
determinado meio ambiente.
Produção de
agravos intensos, fuga ou abandono, quando cessa dissimulação da agressividade.
Conclusão:
Na maior parte das vezes, infecções de humanos e animais domésticos são,
ambas, resultado da atitudes humanas, o que ressalta a importância da educação
em saúde.
Veterinários são identificados como potenciais agentes de informação sobre
a transmissão e prevenção de zoonoses, já que médicos e veterinários
freqüentemente possuem opiniões divergentes em relação aos riscos de zoonoses
relacionados com certas espécies animais e certos agentes; raramente são dadas
informações sobre práticas seguras nas interações do homem com os animais.
Opiniões exageradas ou preconceituosas, que nada acrescentam à prevenção das
doenças, contribuem para o aumento do problema, por exemplo, com o aumento da
taxa de abandono de animais. Médicos e veterinários deveriam trabalhar juntos
para tornar o contato entre homens e animais o mais saudável possível para
ambos. Se o nível de comunicação entre esses profissionais fosse aumentado,
seria possível tornar mais eficiente a prevenção da transmissão de agentes de
doenças comuns.
Por fim, embora os veterinários sejam a fonte mais efetiva e sensata de
informação acerca de doenças transmitidas por animais, muitos estão
disseminando informações incorretas, incompletas ou ultrapassadas, daí a
importância do aprimoramento e atualização profissional.
Apêndice 1:
Proposta:
Elaboração de panfletos para distribuição na
rotina clínica:
modelo
Lavar muito bem as mãos
com sabão após brincar ou cuidar de animais, especialmente antes de manusear
alimentos.
Ser cuidadoso com a comida
e bebida do animal, bem como os recipientes. Alimentar com dieta apropriada e
caso seja preparada, cozinhar muito bem as proteínas de origem animal. Não dar
restos de comida ou comida crua. Manter o vaso sanitário tampado para evitar
que o animal beba água dele. Tornar o lixo inacessível. Evitar a caça.
Zelar pela saúde do animal
(é o método mais eficaz).
Combater o parasitismo.
Usar luvas ao limpar
excretas de animais, e lavar muito bem as mãos
após.
Pessoas imunocomprometidas
não devem manusear animais com diarréia ou outra doença. Outra pessoa deve
levar o animal ao veterinário.
Não recolher um animal
doente, especialmente se há outros animais ou pessoas imunocomprometidas na
casa.
Pessoas imunocomprometidas
devem evitar animais com menos de 6 meses de idade, e devem checar as condições
sanitárias do animal antes de levá-lo para casa.
Não tocar animais
estranhos para evitar arranhões e mordidas.
Extinguir brincadeiras que
incluam mordidas e arranhões, prejudiciais tanto aos proprietários quanto aos
animais.
Gatos devem ter as unhas
aparadas para evitar arranhões. Caso haja agressão, lavar bem com água e sabão
e aplicar um desinfetante (clorexidine ou iodo-povidona).
Não deixar que o animal
lamba a boca ou feridas e cortes abertos.
Não beijar o animal.
Caixa sanitária dos gatos
deve estar longe da cozinha ou de outros locais onde se manipulem alimentos ou
façam refeições.
Ao limpar caixas
sanitárias, não despejar a areia para não provocar aerossóis (forrar a caixa
com papel ou plástico e enrolar para recolhimento da areia, com retirada da
forração e imediato descarte dos dejetos, é a melhor opção.
Evitar a criação de
répteis. Se possuir algum, lavar as mãos muito bem após tocá-los.
Usar luvas na limpeza de
aquários e lavar muito bem as mãos após.
Evitar pets exóticos como
macacos, ferrets e outros animais selvagens (gambás, felinos, morcegos e
roedores).
Apêndice 2:
Principais zoonoses trasmitidas de animais
domésticos para humanos
Complexo larva migrans cutânea / Ancylostoma e Necator
O ser humano envolve-se no ciclo do parasita ao expor sua pele ao contato
direto com terrenos arenosos, com praias e tanques de areia, onde os animais
eliminam fezes contendo ovos.
Complexo larva migrans visceral / Toxocaríase
Atinge
principalmente crianças, por maior exposição aos ovos e sua ingestão por
higiene inadequada das mãos e brinquedos.
Leishmaniose
A prevenção se
faz pela eliminação de coleções de água limpa e parada e limpeza cuidadosa dos
terrenos, em especial pela remoção de matéria orgânica animal e vegetal das
proximidades do domicílio humano e nos alojamentos de animais de todas as
espécies, controle de animais daninhos incômodos, o uso de produtos repelentes
a insetos e vestimentas apropriadas,quando se ingressa em matas.
Leptospirose
A leptospira é
eliminada pela urina de animais infectados, contaminando o ambiente e todo o
material a que eles tiverem acesso. Mesmo após as enchentes, com a vazão das
águas, persiste o sedimento formado por lama e outros resíduos contaminados
pela bactéria, que favorece a sua permanência no ambiente, por longos períodos.
Pessoas e animais se infectam em contato com as águas poluídas pela urina dos
roedores ou pela urina de outros animais infectados, nadando ou procurando
drenar as águas de enchentes, mantendo contato prolongado com os resíduos
espalhados nos ambientes, sem o uso de equipamentos ou vestimentas de proteção e
sem promover a desinfecção da pele e dos locais comprometidos. Controlar o
crescimento das populações de roedores, promover a desratização e desinfetar
corretamente os ambientes e fômites são pontos cruciais no combate à
leptospirose.
Dipylidium caninum
Crianças podem
ingerir ovos ou pulgas e piolhos com as formas cisticercóides do parasita e
atuarem como hospedeiro acidental. A maioria das infecções são assintomáticas,
mas comumente há intenso prurido anal e apetite caprichoso. Alguns indivíduos
podem apresentar anorexia, diarréia e urticária.