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O artigo seguinte foi originalmente publicado em
The Connecticut Skeptic (Vol. 1 Issue 3/ Summer '96)
e sua tradu��o foi autorizada pelo autor.
Homeopatia
Por Steven Novella, MD
As terapias alternativas, apesar das similaridades filos�ficas que as definem
como alternativas, apresentam-se sob muitas formas. Algumas s�o cren�as
religiosas mal disfar�adas, outras s�o fantasias da Nova Era, e ainda outras
rem�dios n�o testados ou n�o aprovados. A pr�tica crescente da homeopatia,
particularmente, � um excelente exemplo de pura pseudoci�ncia.
A homeopatia foi fundada por Samuel Christian Hahnemann (1755-1843), um m�dico
alem�o que havia ficado insatisfeito com a medicina de sua �poca. Hahnemann
viveu num tempo antes que os rudimentos da medicina moderna tivessem sido
estabelecidos, antes da teoria microbiana das doen�as infecciosas, antes do
primeiro antibi�tico, antes do teste sistem�tico da efic�cia e seguran�a das
drogas, antes que os procedimentos cir�rgicos fossem executados com anestesia ou
t�cnica de esteriliza��o. Na sua �poca, � seguro afirmar, a medicina
convencional fazia mais mal do que bem, e hospitais eram um lugar aonde as
pessoas iam para morrer, mais do que para sarar. N�o � surpresa, portanto, que
Hahnemann procurasse uma alternativa � abordagem cl�ssica desses dias.
Durante muitos anos a busca de Hahnemann foi infrut�fera, at� que ele topou com
o que pensou ser uma observa��o espantosa. Ele tomou uma pequena por��o de casca
de Quina do Peru ou Cinchona, que cont�m quinina, a droga utilizada para tratar
a mal�ria, e desenvolveu sintomas de mal�ria. Desta observa��o ele desenvolveu a
primeira lei da homeopatia, "similia similibus curentur," ou o semelhante ser�
curado pelo semelhante. Em outras palavras, drogas que causam sintomas
espec�ficos podem ser usadas para curar doen�as que causam os mesmos sintomas.
� medida que a homeopatia evoluiu, outras leis foram tamb�m descobertas. A lei
das doses infinitesimais foi na realidade uma concep��o tardia de Hahnemann,
por�m hoje � freq�entemente considerada a caracter�stica prim�ria da homeopatia.
Esta lei determina que quando dilu�mos drogas em �gua ou �lcool elas realmente
t�m sua pot�ncia aumentada. Atualmente, s�ries de dilui��es de 1:100 repetidas
de 6 a 30 vezes s�o comumente usadas. Entre cada dilui��o a subst�ncia �
vigorosamente agitada (sucuss�o), por acreditar-se ser necess�rio para ativar as
propriedades da droga.
Hahnemann tamb�m desenvolveu, como esteio da homeopatia, sua pr�pria teoria da
doen�a, chamada teoria do miasma. De acordo com essa teoria existem tr�s miasmas
que s�o respons�veis por todas as doen�as humanas, e os rem�dios homeop�ticos
s�o direcionados para o tratamento desses miasmas ofensivos.
A homeopatia obteve enorme sucesso na Europa e mais tarde nos E.U.A. no s�culo
19. No ano 1900 havia 22 faculdades homeop�ticas e 56 hospitais exclusivamente
homeop�ticos nos E.U.A.. No s�culo 20, contudo, � medida que a medicina moderna
se revelou, que a expectativa de vida cresceu de 40 para 80 anos, e a abordagem
moderna � doen�a melhorou continuamente a qualidade de vida, produzindo uma
revolu��o impressionante que a homeopatia n�o conseguira dar no s�culo anterior,
a homeopatia declinou constantemente at� quase desaparecer.
Uma incr�vel lei, contudo, diz que as pseudoci�ncias raramente ou nunca morrem
por completo. Sistemas de cren�a tais como a astrologia, a frenologia e a
pr�pria homeopatia sobrevivem muito al�m da sua utilidade ou do ambiente
cient�fico primitivo no qual se desenvolveram. Atualmente a homeopatia
experimenta um ressurgimento, inicialmente na Europa, mas est� se espalhando
rapidamente nos EUA. Hospitais homeop�ticos t�m sido incorporados ao Servi�o Nacional de
Sa�de ingl�s, e quando o FDA norte-americano foi fundado concederam
aprova��o � farmacop�ia homeop�tica inteira porque os rem�dios estavam em uso
j� h� muitos anos.
Hoje em dia, apesar de existirem diversas tradi��es diferentes de homeopatia, os
princ�pios b�sicos esbo�ados acima permanecem inalterados. Os homeopatas, como
ponto de superioridade do seu m�todo de tratamento, alegam tratar a pessoa
inteira, adotando uma abordagem �hol�stica�. Eles denigrem os m�dicos
convencionais por �se concentrarem estreitamente na doen�a.� Mas o que essa sua
abordagem hol�stica requer?
O objetivo da consulta homeop�tica � achar a �totalidade dos sintomas,� f�sicos,
mentais e espirituais. Eles atingem esse objetivo obtendo a �hist�ria
homeop�tica� que inclui perguntas tais como: voc� se sente triste quando escuta
m�sica de piano, voc� � excessivamente met�dico ou voc� tem um temperamento
reservado. Esta informa��o � combinada com os sintomas do paciente e a sua
�constitui��o� f�sica que pode depender de fatos tais como a cor dos cabelos. O
homeopata ent�o decide com qual rem�dio simples vai tratar a �totalidade� do
paciente. O rem�dio � ent�o receitado, e dado em dose �nica ou doses repetidas.
Existem muitos aspectos atraentes na homeopatia tal como ela � praticada. Os
pacientes s�o levados a sentir que lhes est� sendo dado um rem�dio
especificamente planejado para eles pessoalmente, que o objetivo do tratamento �
a cura completa e n�o somente o tratamento dos sintomas, e que os rem�dios n�o
t�m efeitos colaterais, toxicidade ou intera��o com drogas convencionais. N�o
h�, contudo, base cient�fica ou racional para as alega��es da homeopatia, j� que
ela cai perfeitamente no reino da pseudoci�ncia em vez do da ci�ncia genu�na.
A medicina moderna � cientificamente fundamentada porque baseia seus tratamentos
num modelo de trabalho da doen�a que por sua vez se baseia em fisiologia humana,
anatomia, gen�tica e bioqu�mica. Todos os princ�pios est�o sujeitos ao
escrut�nio experimental e por isso mudam. Eles podem ser aprovados ou refutados
por nova informa��o. Novas id�ias s�o submetidas a dura cr�tica por
especialistas no assunto, e precisam resistir ao teste desse exame cr�tico antes
que sejam incorporadas � pr�tica cl�nica. A enorme rapidez com que o
conhecimento m�dico se torna obsoleto n�o � uma fraqueza mas o testemunho de sua
base cient�fica.
A homeopatia, por outro lado, � uma pseudoci�ncia porque seus princ�pios
fundamentais n�o se baseiam em pesquisa cient�fica b�sica e t�m permanecido
largamente inalterados por quase dois s�culos. Ela se cobre com os adornos da
ci�ncia, mas � desprovida de subst�ncia real. Embora atualmente haja muitos
esfor�os para submeter rem�dios homeop�ticos a estudos cl�nicos duplo-cegos, os
homeopatas n�o alteram seus tratamentos baseados nos resultados dessa pesquisa,
tem sido freq�entemente demonstrado lhes faltar t�cnicas cuidadosamente
controladas, e sua interpreta��o de resultados experimentais cheira a pensamento
m�gico.
Vamos examinar o mais b�sico dos princ�pios da homeopatia, o das doses
infinitesimais. Os homeopatas atualmente usam dilui��es de subst�ncias que
essencialmente removem todos os tra�os da subst�ncia da dilui��o final. N�o �
prov�vel haver mesmo uma �nica mol�cula da droga original no rem�dio final que �
dado ao paciente. Os homeopatas concluem desse fato que a subst�ncia est�
transferindo sua ess�ncia para a �gua na qual � dilu�da. Quanto mais � dilu�da,
mais potente � a �gua. Contudo, eles n�o oferecem uma poss�vel explica��o de
como simples mol�culas de �gua podem conter a ess�ncia de subst�ncias muito mais
complexas. Eles nem mesmo se aventuram a especular qual a forma que a �ess�ncia�
poderia assumir. Eles n�o desenvolvem hip�teses e depois testam as hip�teses com
experimenta��o, levando a um entendimento mais profundo dos princ�pios naturais
envolvidos, pois isso iria requerer ci�ncia real.
Seu modelo de doen�a � similarmente constru�do. Hahnemann formulou suas id�ias
antes que a teoria da doen�a estivesse totalmente desenvolvida. Em outras
palavras, em sua �poca os m�dicos ainda n�o entendiam que enfermidades eram
causadas por doen�as espec�ficas; que uma dada doen�a, tal como a diabetes, tem
uma patofisiologia comum subjacente � uma disfun��o espec�fica de um tecido
espec�fico, �rg�o ou sistema org�nico que corresponde � mol�stia espec�fica com
sinais e sintomas reconhec�veis. Esta teoria moderna da doen�a levou, por
exemplo, ao tratamento da diabetes com reposi��o de insulina, melhorando
sobremaneira a qualidade e dura��o da vida de pacientes que sofrem essa doen�a.
Hahnemann e os homeopatas modernos devem rejeitar este conceito de medicina. Seu
objetivo n�o � identificar que doen�as afligem um paciente, de fato eles
criticam esta abordagem. Ao contr�rio, eles acreditam, regressivamente, que cada
paciente est� experimentando uma doen�a peculiar, que � influenciada por fatores
tais como se o paciente tem uma personalidade chorona, e que um rem�dio tratar�
todas as doen�as do paciente, curando a causa �nica
que as deslocou da higidez. Eles admitem que os mesmos sintomas freq�entemente
requerem tratamentos diferentes em pacientes diferentes. Eles carecem
dramaticamente de algum modelo biol�gico que fundamente seus conceitos de
doen�a.
Finalmente, h� a lei dos semelhantes tratando os semelhantes. Hahnemann baseou
esta lei numa �nica observa��o. Toda a investiga��o subseq�ente foi planejada
para decidir quais subst�ncias deveriam ser usadas para tratar quais doen�as
(resumidas em sua refer�ncia prim�ria, a Materia Medica), mas elas eram baseadas
na hip�tese da lei dos semelhantes. Nenhuma pesquisa b�sica foi alguma vez
conduzida para testar a pr�pria hip�tese, nem existem quaisquer modelos
biol�gicos que expliquem porque semelhantes deveriam tratar os semelhantes. Porqu�,
como alegam os homeopatas, o extrato de cebola deveria tratar resfriados que s�o
causados por uma infec��o viral, simplesmente porque as cebolas irritam as membranas
mucosas e causam lacrimejamento e secre��es parecidas �s do resfriado comum. As teorias de
Hahnemann, ao contr�rio da medicina moderna, n�o conduziram a ou derivaram de
qualquer entendimento mais profundo da biologia humana.
A esta altura muitos defensores da homeopatia iriam argumentar, �Quem liga para
o como ela funciona, contanto que funcione.� Esta defesa � usada para todas
as terapias alternativas que n�o podem produzir uma explica��o racional de como
elas funcionam. Existe uma semente de legitimidade para esse argumento (ainda
que ele n�o salve a homeopatia de ser uma pseudoci�ncia) em que mesmo na
medicina convencional, tratamentos s�o freq�entemente usados antes que o seu
mecanismo de a��o seja completamente conhecido. Nesses casos, todavia, �
necess�rio demonstrar, usando experimentos cl�nicos cuidadosamente controlados,
que tais tratamentos de fato funcionam.
Nesse aspecto, os homeopatas modernos t�m sido de certa forma
auto-contradit�rios. Muitos homeopatas t�m argumentado que a homeopatia n�o pode
ser submetida ao mesmo tipo de estudos do das drogas convencionais. Isto
acontece porque cada paciente, numa perspectiva homeop�tica, � �nico e n�o pode
ser agrupado numa categoria simples. Enquanto que a medicina convencional pode
comparar tratamentos de 1.000 diab�ticos com duas medica��es diferentes, os
homeopatas n�o podem produzir grandes n�meros de pacientes com a mesma
totalidade de doen�a requerendo exatamente o mesmo tratamento. Ao fazer esta
justifica��o, o de n�o-testabilidade, os homeopatas est�o assegurando sua
posi��o nos dom�nios da pseudoci�ncia, pois se existe uma simples qualidade que
separa as teorias cient�ficas das n�o-cient�ficas � a falsificabilidade. Se os
rem�dios homeop�ticos n�o podem ser testados, ent�o eles n�o podem nunca ser
fundamentados em ci�ncia.
Apesar dessa defesa feita por alguns homeopatas, a moderna pesquisa homeop�tica
se concentrou nesses mesmos tipos de estudos. Tem havido resultados variados
desses estudos e, em conflito com a defesa da n�o-testabilidade, as organiza��es
homeop�ticas apressam-se a citar resultados positivos como evid�ncia para a
legitimidade da homeopatia, enquanto ignoram simultaneamente os resultados dos
estudos negativos.
Tamb�m importante � a quest�o da qualidade da pesquisa que est� sendo feita.
Pesquisa que n�o � cuidadosamente constru�da para eliminar qualquer
possibilidade de vi�s ou fraude, que n�o � suficientemente grande para produzir
signific�ncia estat�stica, ou que n�o � reproduz�vel por centros independentes,
� de pequeno valor cient�fico. De fato tal pesquisa � danosa porque cria
confus�o e leva a conclus�es falsas.
O investigador do paranormal, James Randi, foi solicitado a focalizar seu olho
cr�tico nas alega��es do movimento homeop�tico. Impossibilitado de examinar toda
a pesquisa existente devido � praticidade, Randi pediu para ver os exemplos mais
impressionantes de pesquisa positiva, o que o levou ao laborat�rio de Jacque Van
Vaneese. N�o vou narrar novamente aqui a hist�ria inteira, mas darei os fatos
proeminentes. Randi aprendeu que toda a pesquisa positiva criada pelo
laborat�rio fora realizada pela assistente de Vaneese, Elizabeth Davenport.
Vaneese tinha alegado que toda a pesquisa era duplo-cega, mas Randi logo
descobriu que este n�o era o caso.
Davenport estava estudando os resultados de uma droga homeop�tica no crescimento
de uma cultura de c�lulas. Enquanto Randi observava, ela contou o n�mero de
c�lulas sob um microsc�pio no qual ela acreditava haver uma l�mina teste,
obtendo um resultado de 40, que ela diligentemente registrou no seu caderno de
laborat�rio. Ao remover a l�mina, contudo, ela notou que tinha sido
rotulada como controle (uma cultura de c�lulas que n�o havia recebido a droga
homeop�tica). Ela ent�o fez a recontagem a l�mina, chegando desta vez ao
resultado de 18, que ent�o corrigiu no caderno. � dif�cil conceber uma viola��o
mais grosseira de protocolo b�sico de pesquisa. Resumindo, quando Randi em
seguida submeteu Davenport a condi��es verdadeiras de duplo-cego, seus
resultados positivos desapareceram. Vaneese insistiu, contudo, que seus
resultados de laborat�rio tinham sido duplicados por quatro laborat�rios
independentes por todo o mundo. Ao investigar, contudo, aprendeu-se que
Elizabeth Davenport tinha visitado cada um desses quatro laborat�rios e ela
mesma tinha realizado a pesquisa.
Wim Betz, um m�dico ex-praticante da homeopatia que atualmente � um cr�tico
sincero da homeopatia, tem cr�ticas parecidas � pesquisa homeop�tica. Ele
relata um estudo no qual um horm�nio preparado em dilui��es homeop�ticas foi
adicionado a um tanque de girinos e observou-se que aumentava a velocidade em que
os girinos se transformavam em r�s. Quando o horm�nio, contudo, foi colocado no
tanque dentro de um tubo de ensaio fechado, os mesmos resultados foram
observados. Os pesquisadores homeop�ticos, em vez de conclu�rem que esse
controle revelava uma defici�ncia da sua pesquisa, conclu�ram que o horm�nio
homeop�tico estava transmitindo seu efeito aos girinos atrav�s de algum tipo de
raios. Eles agora est�o conduzindo pesquisa para ver se tais rem�dios podem
emitir seus raios curativos atrav�s de linhas telef�nicas.
Outro pesquisador, Betz informa, ficou confuso quando o controle placebo usado
em seu ensaio cl�nico teve o mesmo efeito do rem�dio homeop�tico sendo testado.
Em vez de concluir que este estudo era negativo, ele concluiu que
desde que o placebo estava armazenado no mesmo refrigerador onde estava o
rem�dio, a droga homeop�tica estava irradiando sua qualidade efetiva para o
placebo. Apesar de encerrar os placebos em folhas de alum�nio e separ�-los do
rem�dio homeop�tico em refrigeradores diferentes, este pesquisador homeop�tico
ainda n�o podia evitar que o efeito da droga vazasse para o placebo.
T�cnica cient�fica de m� qualidade, pensamento m�gico na interpreta��o de
resultados negativos, falta de falsificabilidade, aus�ncia de um modelo
biol�gico coerente e ades�o a princ�pios imut�veis e n�o testados marcaram a
homeopatia como uma pseudoci�ncia. E mesmo assim ela floresce na Gr�-Bretanha e
no resto da Europa. Al�m disso, empres�rios inovadores da ind�stria homeop�tica
est�o conduzindo pesquisas de marketing para testar os E.U.A. como uma nova
fronteira para homeopatia em larga escala.
� medida que os custos da medicina convencional v�m sendo progressivamente
submetidos a escrut�nio, levando em n�o poucos casos ao racionamento dos
servi�os de sa�de para limitar custos, os americanos est�o gastando cada vez
mais dinheiro dos servi�os de sa�de em terapias alternativas. A homeopatia
amea�a tornar-se uma das maiores novas fontes de tais gastos. Al�m disso,
pacientes que preferem confiar em rem�dios homeop�ticos, seduzidos pela sua
filosofia amig�vel e toque personalizado, podem negligenciar a procura de
tratamentos mais tradicionais para sua doen�a potencialmente s�ria. O custos
totais de sa�de da homeopatia podem nunca vir a ser medidos com precis�o.
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