A falência do PT e as bases paraa reconstrução da esquerda brasileira
Félix Sanchez, Fernando Kinas e José Corrêa Leite
PALAVRA CRUZADA - 16/09

Este texto é uma contribuição da discussão que vem sendo travado entre vários coletivos militantes que consideram que, submetido ao teste do governo, o Partido dos Trabalhadores fracassou, esgotando seu potencial transformador da sociedade brasileira, e trabalham um processo de convergência e unificação no marco da construção do recém-legalizado Partido do Socialismo e da Liberdade.

É avaliação de todos estes coletivos que a dupla falência do governo Lula e do PT como instrumentos de mudanças progressistas abre uma profunda recomposição da esquerda de conjunto, que será desigual e prolongada, implicando na reconstituição de instrumentos políticos, reconstrução de um projeto para o país, formação de outra direção política e recuperação da capacidade de iniciativa e da confiança dos trabalhadores em sua própria força.

Não se trata, porém, de “começar tudo de novo”. Nosso ponto de partida é o resultado de três décadas de lutas populares, que produziram um importante tecido associativo, ferramentas políticas variadas e um avanço na consciência cidadã de uma parcela da população. O desastre ocorreria se, em função da falência do PT como partido da transformação, sua continuidade formal instaurasse um novo e esmaecido populismo e regredíssemos aos esquemas políticos pré-1964, em que os trabalhadores compareciam à cena política como forças auxiliares das elites, voltando a condição de massa de manobra. Ma isso só se dará se os socialistas, e antes de tudo a esquerda que até agora construiu o PT, se mostrarem paralisados e divididos, presos a defesa de pequenos interesses particulares. Mais do que nunca nas últimas três décadas, temos que nos guiar pela defesa dos interesses gerais do povo trabalhador.

A falência do governo Lula e do PT

1. A conjuntura que atravessamos é caracterizada por uma crise política grave que tem em seu epicentro a falência do Partido dos Trabalhadores como partido da transformação e do seu governo. O PT fracassou estrondosamente no principal teste de sua história, aquele para o qual se preparou por 25 anos. E seu fracasso atinge várias instituições construídas em nosso país nas últimas décadas. O Legislativo mostrou sua fragilidade congênita e sua venalidade e o sistema partidário expôs suas vísceras, revelando os limites do modelo de democracia brasileiro. Esses limites são dados pela contradição entre a vontade dos eleitores por mudanças, externadas em 2002, e a manutenção e aprofundamento do modelo econômico repudiado pelas urnas. São dados também pela supremacia da área econômica do governo na definição de cortes e alocações de recursos orçamentários anteriormente definidos pelo congresso. Assim, uma democracia que não coloca em questão o essencial passa a ser uma democracia de fachada; uma democracia que se submete à ditadura dos mercados acaba não servindo para muita coisa. Qualquer que seja o desfecho da crise, ela produzirá grandes perdas, resultará num enorme descrédito na participação política e na conscientização dos trabalhadores e do povo, questionando parte importante do acúmulo da esquerda em três décadas de luta. Uma grande responsabilidade pesa sobre todos no campo democrático e popular, que devem coletivamente encontrar saídas que minimizem as perdas que estamos sofrendo .

2. No entanto, a generalização das responsabilidades não pode camuflar o centro irradiador da crise. Ela é resultado da incapacidade do PT em realizar um governo de mudanças. Capitaneado por um auto-denominado Campo Majoritário, o PT abandonou seu programa de transformação social e aderiu ao neoliberalismo. Distanciando-se de sua base social, o governo Lula formou um consórcio entre o PT e o que existe de mais fisiológico e degradado na política brasileira (PL, PP e PTB), deslocando-se para o terreno onde o poder sedutor e corrosivo do dinheiro exerce toda sua força. Apesar da tentativa de Lula de cobrar as contas da crise em curso apenas no PT, a responsabilidade pela crise – no que ela tem de lícito e de ilícito –, passa pelo Palácio do Planalto.

3. A eventual cassação dos parlamentares expostos pelas investigações, no PT e em outros partidos, em nada alterará o caráter do governo, suas alianças e relações promíscuas com parte do capital financeiro e especulativo, enfim, seus atuais compromissos de classe. Não é correto, portanto, restringir o problema da corrupção ao PT, como se o governo fosse um elemento passivo nesse processo de degeneração. O projeto hegemônico petista, concebido e implementado por uma parte da sua direção, de tomar o aparelho de Estado e os métodos utilizados para isso se desenvolveram em função da conquista do governo central e se cristalizaram com a chegada de Lula ao Palácio do Planalto. Lula é a figura central deste projeto e responsável pelas suas conseqüências ao lado de José Dirceu e de personagens como Palocci e Gushiken.

4. A crise evidencia a existência de corrupção interna de longa data, de um partido dominado por um grupo político que não conhecia limites à sua ação. Não existia, portanto, qualquer disputa real de rumos, no governo, do ponto de vista campo popular, entre diferentes setores do “campo majoritário”. A adesão à política econômica neoliberal, as alianças com os partidos de direita, a mudança da base social do partido e o enquadramento e cooptação dos movimentos sociais eram todas iniciativas coerentes com o desenvolvimento deste projeto de ganhar e manter o poder ao custo de enormes agressões programáticas e éticas. Trata-se de um caso exemplar (e trágico) de metamorfose e burocratização de uma corrente política originária do campo popular e do movimento socialista. Mas é hoje evidente que a esquerda petista também cometeu muitos erros, condescendendo, por cálculo, apatia ou equívoco, com vários aspectos de um processo que há muito tempo minava a vitalidade partidária. Precisamos reconhecer que nos faltou a crítica justa, na intensidade devida e no tempo correto.

5. As concepções e práticas do “campo majoritário” não surgiram durante o governo Lula, elas já existiam, notadamente, nas prefeituras petistas do Estado de São Paulo. É significativo – como evidência do controle que esta máquina detêm sobre o partido – que as denúncias tenham surgido dos aliados de direita. E que uma redução do peso do que aparece agora como a “banda podre” do Campo Majoritário na direção do PT só possa se dar com o reforço do controle direto ou indireto de Lula sobre a máquina partidária, como mostra a entrada de ex-ministros em postos-chaves da direção partidária e as diferentes propostas de “refundação” do partido. Embora estas posições tenham sempre encontrado oposição por parte das correntes minoritárias da esquerda petista, que mantiveram acesa uma disputa de rumos do partido, esta luta perdeu agora sentido, reduzindo-se ao confronto entre dois setores burocratizados pelo controle de uma máquina eleitoral privada de todo potencial transformador.

6. O governo Lula, com a crise, perdeu suas últimas veleidades progressistas. Os representantes de esquerda que permanecem no governo têm papel decorativo, conferindo um leve verniz de legitimidade a um governo que apenas luta para sobreviver e chegar ao fim do mandato. É um governo débil, refém do PSDB e do PFL, que promete aprofundar a política neoliberal como estratégia para evitar o impeachment e/ou recuperar alguma margem de manobra.

7. Diferentemente da social-democracia européia, a adesão de Lula ao neoliberalismo se deu conforme a tradição brasileira da conciliação entre as novas e as velhas elites, com a cooptação de boa parte das lideranças populares forjadas nas lutas dos anos 1970 e 1980 pelo aparelho de Estado, sem nenhum esforço de preservar ganhos para sua base social original. De fato, a base de apoio do governo Lula e mesmo do PT foram sendo rapidamente modificadas no curso dos últimos três anos, desde o lançamento da Carta aos Brasileiros , em 2002. A relação mantida com os movimentos organizados se transformou rapidamente numa relação de cooptação, clientela, compra e, no caso dos setores mais conscientes, de antagonismo aberto.

8. O impeachment , mantido como uma espada disciplinadora sobre a cabeça de Lula e sua equipe, virou uma possibilidade a partir das declarações do publicitário Duda Mendonça. Mas como colocou com toda clareza um editorial do jornal O Estado de S.Paulo sobre o governo Lula intitulado “Ruim com ele, pior sem ele”, esta não é a opção majoritária da burguesia brasileira. Fernando Henrique sinalizou, desde o início da crise, que não interessa para as classes dominantes a destituição formal do governo Lula – a presença do PT no governo federal, aderido ao neoliberalismo e fragilizado, reforça o regime montado desde a queda da ditadura. Além disso, a turbulência não poderia deixar de afetar os negócios, o que não faz dela a opção prioritária da classe dominante. Mas a dinâmica objetiva das investigações envolve Lula, fragilizando-o cada vez mais, e o impeachment poderia, embora sem sustentação política, estar juridicamente colocado.

9. Para os setores progressistas, já muito fragilizados, o impeachment agravaria enormemente as divisões no seu interior, levando os setores vinculados ao governo a um esforço desesperado de manter suas posições. Poderia também reforçar a idéia de que a participação política das camadas populares e as propostas de esquerda seriam inviáveis. Todavia, sustentar contra isso a tese da existência de um “movimento golpista” é sustentar uma mentira, que se desfaz perante a evidência dos fatos, e, ao mesmo tempo, servir à instrumentalização dos movimentos sociais na defesa de um governo que não é seu. Da mesma forma, a proposta de um pacto entre governo e oposições para enfrentar a crise visa apenas manter a política econômica e os lucros das empresas intactos e evitar a punição de um grande número de políticos corruptos da “base aliada” e da oposição liberal, devendo ser abertamente combatida pela esquerda. Propostas como a convocação de um plebiscito revogatório ou de uma assembléia constituinte são, por sua vez, bastante artificiais. A única posição de esquerda coerente é a apuração de todas as denúncias e punição dos responsáveis.

10. A crise torna mais evidentes as conseqüências do rumo que o governo e o partido vinham tomando desde a eleição e aprofunda a diferenciação política no campo popular . A esquerda da CUT já tinha formado a Frente Esquerda Socialista em 2004 e os parlamentares críticos do PT formalizado o Bloco de Esquerda – como uma articulação contra os rumos neoliberais do governo – em março deste ano, bem antes do estalar da crise. Agora, o debate sobre o trato da coisa pública e o caráter da direção lulista clarificam, para uma ampla camada de ativistas e sua base social, a falência do projeto petista simbolizado na liderança de Lula, permitindo um amplo debate sobre alternativas.

11. O PT poderá subsistir como uma máquina partidária amorfa, limitando-se a disputa de mandatos e governos. Um partido incapaz de ser o canal de expressão dos anseios populares de mudança, inapto para construir um projeto de nação com horizonte socialista. As propostas de “refundação” do PT estão condenadas pela descaracterização do governo, pela forte presença no partido dos esquemas de poder da direção anterior, pela precariedade de democracia interna e pelo fosso já estabelecido entre partido e governo, de um lado, e a esquerda socialista e os movimentos sociais, de outro. Uma verdadeira “refundação” só seria factível, para os setores que encampam esta tese, com a ruptura com os envolvidos nas denúncias, ruptura impossível devido à teia de relações construída por Dirceu. A “refundação” realmente existente visa, pois, tornar o partido funcional para a sustentação parlamentar e eleitoral do governo e a reeleição de Lula. Para a esquerda socialista, por outro lado, uma “refundação” só teria sentido com a ruptura entre o PT e a direção lulista; mas o PT é inseparável de Lula e seu governo está definitivamente comprometido enquanto instrumento de mudanças progressistas, e constitui, ele próprio, o centro da crise atual. De qualquer forma, com ou sem “refundação”, a reacomodação entre os setores do “campo majoritário” identificados com Dirceu, de um lado, e com Lula, de outro, avançou e cooptou, de um lado, a Articulação de Esquerda e, de outro, o setor governista da Democracia Socialista. Nada disso alterará a orientação do governo Lula. E todos terão seu lugar em um novo PMDB, pragmático e sem utopias.

12. O desafio mais urgente colocado para a esquerda é diferenciar-se do governo Lula e da direção do PT e formar um pólo socialista de convergência dos setores populares, ativistas sociais e parlamentares capaz de reagrupar a esquerda perplexa, desorientada e em acelerado processo de dispersão. Um reagrupamento capaz de ser, tanto nas lutas sociais como no terreno institucional, um pólo de oposição de esquerda ao governo Lula. Trata-se de salvar o que for possível do acúmulo político e organizativo, de manter a herança libertária de várias gerações da esquerda que se soldaram na experiência do PT. Hoje, o PT perdeu seu caráter agremiação política de esquerda e isso se expressará em um forte recuo nas próximas eleições. Não há como justificar a permanência dos socialistas na mesma legenda dos responsáveis pela adesão do partido ao neoliberalismo, por tamanho descaso pelas práticas democráticas e por tal descalabro no trato da coisa pública. Trata-se, em qualquer cenário, de organizar uma retirada diante de um quadro de desagregação e derrota do que era o projeto hegemônico da esquerda, reagrupando forças e retomando a iniciativa sob bases novas. Trata-se de contribuir ativamente para a superação da experiência fracassada do lulismo, evitando que o morto asfixie o vivo que luta por nascer.

A recomposição da esquerda e as possibilidades do PSOL

13. A dupla falência do governo Lula e do PT como instrumentos de mudanças progressistas abre uma profunda recomposição da esquerda de conjunto. Ela será desigual e prolongada, implicando a reconstituição de instrumentos políticos e associativos, na reconstrução de um projeto para o país, na formação de outra direção política e na recuperação da capacidade de iniciativa e da confiança dos trabalhadores em sua própria força. Trata-se de retomar o processo de organização independente de classe dos trabalhadores para enfrentar tanto a crise atual como as mutações na estrutura social e na luta política induzidas por quinze anos de globalização neoliberal. Não se trata, como se tem escutado, como reação à crise, de “começar tudo de novo”. Nosso ponto de partida é qualitativamente superior ao do início do ciclo histórico petista: três décadas de lutas populares produziram um importante tecido associativo e um avanço na consciência cidadã de uma parcela da população. O desastre ocorreria se, em função da falência do PT como partido da transformação, regredíssemos seja aos esquemas políticos pré-1964, em que os trabalhadores compareciam à cena política como forças auxiliares das elites, como massa de manobra de diferentes camadas burguesas, seja à uma situação argentina, onde a esquerda está marginalizada da grande política. Ou se a continuidade do PT instaurasse um novo e esmaecido populismo, sem nenhum dos méritos daquele do passado.

14. A crise do PT é a falência de sua funcionalidade como instrumento político da classe trabalhadora brasileira e também a crise de todas suas correntes internas, que já tinham entrado em colapso com a descaracterização do partido pelo governo Lula. Mas a crise também pode atingir os demais instrumentos construídos pelos trabalhadores, a começar pela Central Única dos Trabalhadores, onde Articulação Sindical (com o apoio da direção da CSD) promove uma política de atrelamento e subordinação ao governo, e pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra, que enfrenta um impasse na sua luta pela reforma agrária. Isso não pode, entretanto, levar a um diagnóstico de que estas organizações são inúteis para os trabalhadores e devem ser abandonadas (como parece fazer o PSTU através do Conlutas). A política da Articulação na CUT, por exemplo, enfrenta forte resistência de um importante setor classista e socialista organizado na Frente de Esquerda Socialista, luta que deve ser reforçada. O que ganha, neste contexto, enorme urgência é a luta pela autonomia e ação unitária dos movimentos sociais frente aos governos e partidos. O governo Lula e sua opção pela conciliação de classes possibilitam uma ofensiva da direita. Para a maioria da população, quem governa o Brasil é a esquerda. A mira da direita é sobre este aspecto: mostrar que nem a esquerda e nem os setores populares podem governar o país. Assim, a derrocada do governo Lula e do PT – já bastante avançada – atingirá o conjunto da esquerda.

15. A disputa dos rumos da esquerda se expressou – para vários setores do PT – no Processo de Eleição Direta (PED) do partido que agora se encerra. Nele, a candidatura de Plínio Sampaio foi a única posição não governista com expressão e cresceu como pólo de atração dos setores inconformados tanto com a direção dada pelo “campo majoritário” ao governo e ao PT como a proposta pela esquerda governista. Valter Pomar, apesar de sua retórica radical, sustenta a posição pragmática de defesa do governo que caracteriza a Articulação de Esquerda e está sendo apoiado por setores ligados a José Dirceu e Marta Suplicy. Raul Pont, lançado candidato numa tentativa de preservar a unidade da Democracia Socialista, teve sua campanha tensionada pela necessidade de justificar a participação no governo e acabou assumindo a tese da “refundação”, reforçando o discurso lulista de que a responsabilidade pela crise é do PT. Com o desfecho do PED – em uma situação em que tudo continua como antes no PT – coloca-se para os socialistas a necessidade inadiável de sair do PT.

16. Romper com o PT é central para abrir espaço para o processo de recomposição política da esquerda. Há aí um enorme vazio político cuja ocupação estava sendo barrada pelo muro de contenção erguido pelo PT. Com o desabamento desta barreira, vários atores se posicionam para ocupar este espaço: máquinas eleitorais com um vago perfil de esquerda, o PSTU, a Consulta Popular, o PSOL.

a) O vácuo não poderá ser ocupado, em primeiro lugar, por nenhum projeto apenas eleitoral e de colaboração de classes. Agremiações como o PSB, o PDT e o PV – que hoje disputam os parlamentares da esquerda petista – estão por demais sombreadas por trajetórias incoerentes, algumas por uma história mais antiga do que o PT (frente a construção do qual foram derrotadas), pela possível presença de setores corrompidos em muitos estados e várias por seus compromissos com Lula. Assim, por exemplo, o PSB foi o partido de Garotinho na última eleição, é parte da base aliada de Lula e é hoje o partido de Ciro Gomes. Além disso, nenhum desses partidos pode ser apresentado como uma opção para setores militantes que descolam do campo petista – que só poderão se recompor ao redor da proposta de um partido socialista militante e aberto, capaz de dialogar com o que há de positivo na herança do PT. E nenhum destes partidos oferece garantias de que não apoiará a reeleição de Lula ou a continuidade de seu projeto político nas eleições de outubro de 2006.

b) O PSTU, o único outro partido militante da esquerda brasileira, que por uma década tentou se apresentar como alternativa ao PT, também fracassou, incapaz de dialogar com as camadas mais amplas do movimento popular brasileiro, tanto por seu sectarismo como por sua incapacidade de abordar pedagogicamente a luta social. A crise do PT catalisou a crise latente em seu interior e seus setores mais abertos abandonaram o partido.

c) A Consulta Popular, mantida em suspensão há anos, parece ver na crise a oportunidade de se relançar como proposta de um instrumento político não eleitoral. Alimenta-se da frustração com a cooptação do PT pela institucionalidade. Mas um movimento político que recuse atuar nas eleições não pode ser uma ferramenta central na luta dos trabalhadores pela mudança social e pelo poder. Os processos eleitorais continuaram sendo momentos chaves de debate e participação política, expressão de uma hegemonia política que não poderá ser superada fora da luta política tal como elaborada em nossa sociedade. E traz um risco de manipulação: como contraposição a sua diluição nos processos eleitorais, restará a opção de apoiar pragmaticamente candidaturas em distintas legendas, ignorando os seus compromissos institucionais – por exemplo, o apoio, em 2006, a candidatos de partidos comprometidos com a reeleição de Lula, fora da polarização política central.

O que este panorama deixa claro é que não existe pronta uma alternativa de esquerda ao PT. A tarefa colocada para os socialistas brasileiros é um trabalho de reconstrução em condições adversas, a construção de uma alternativa hoje inexistente “a quente”, através da intervenção nas disputas políticas centrais no próximo período.

17. O PSOL, que completa seu processo de legalização, é, por outro lado, um partido ainda em construção, que como qualquer proposta nova traz as inseguranças do desconhecido. Ele é a única legenda de esquerda com alguma legitimidade diante da crise, já que nasceu exatamente da expulsão de parlamentares petistas de esquerda (como a senadora Heloisa Helena, figura emblemática na resistência à deriva neoliberal do governo Lula) e de sua decisão de constituir um novo quadro partidário legal para que estes setores pudessem estar presentes na eleição de 2006 apresentando uma alternativa de esquerda. O PSOL tem uma imagem pública algo fechada – em parte pelo peso de alguns setores sectários na sua composição inicial, em parte por erros políticos ou omissões que cometeu em sua etapa de legalização (como não ter defendido o voto em Raul Pont no segundo turno da eleição de Porto Alegre). Mas esta imagem é também fruto do cordão sanitário estabelecido pelas correntes governistas do PT, que precisam desqualificar o PSOL para justificar sua permanência no partido. Mais um movimento do que um partido constituído, o PSOL pode oferecer o porto de abrigo para os socialistas nesta situação de crise.

18. O PSOL apresenta, de um lado, o mérito de ser, potencialmente, o único partido existente que pode reagrupar importantes forças militantes órfãs com a falência do PT . A adesão de novos setores provavelmente lhe dará imediatamente um perfil político mais amplo e aberto. O fracasso do PT não deve obscurecer todo o avanço que representou para a organização política dos trabalhadores a existência de um partido de classe, articulando atuação social e política em um projeto global de transformação da sociedade e disputando todas as esferas de ação. O grande desafio colocado para a esquerda socialista é, hoje, o de tentar minimizar os riscos de dispersão e fragmentação e reagrupar o máximo de forças militantes, lideranças políticas, parlamentares de esquerda e sua base eleitoral em um mesmo partido, não só a que abandona o PT, mas também a que hoje atua em outras legendas cooptadas pelo governo Lula. Esta é a única forma de não comprometermos independência dos trabalhadores brasileiros, já solapada pelo governo Lula e pela degeneração do PT.

19. O PSOL tem, de outro lado, um trunfo em sua principal liderança, a senadora Heloisa Helena, que tem revelado densidade eleitoral significativa e poderá cumprir um papel importante na disputa de 2006 , como uma alternativa de esquerda a Lula. O eleitorado de esquerda, traído pelo estelionato cometido pelo PT, penalizará o partido no próximo ano. Se este eleitorado dispersar seu voto por legendas descaracterizadas, como o PSB, o PDT, o PPS ou o PV, contribuirá decisivamente para a diluição do já precário campo de independência de classe construído nas últimas três décadas. É importante que a ruptura do PT possa dar origem, em nosso país, a algo análogo ao que foi o Partido da Refundação Comunista, formado quando da crise do Partido Comunista Italiano – um partido capaz de associar uma atuação militante nos movimentos sociais com a manutenção de uma presença relevante nos processos eleitorais. Mas para que isso ocorra é fundamental que o PSOL receba a adesão de uma parcela dos parlamentares do Bloco de Esquerda do PT, instaurando um círculo virtuoso entre disputas majoritárias e proporcionais e permitindo a manutenção de mandatos parlamentares socialistas ligados à um projeto político coletivo. A dispersão dos parlamentares da esquerda petista por diversas legendas eleitorais, além de não trazer nenhuma garantia real de manutenção dos mandatos parlamentares, criaria uma situação sem volta de dispersão do acúmulo da esquerda socialista. Apenas com esta configuração – em um partido militante, com raízes sociais, capaz de reivindicar o fundamental da experiência positiva do PT – os socialistas poderão se apresentar, em 2006, com um perfil muito diferente do atual, crítico e auto-crítico em relação ao PT, em uma relação muito mais orgânica com os movimentos sociais e as lutas populares.

20. A direção do PSOL já definiu que a sua sigla estará aberta não só para adesões a sua proposta, com também para os setores da esquerda crítica ao rumo neoliberal do governo Lula que necessitarem de legenda. Isto é, a entrada no PSOL pode se dar através de um acordo eleitoral que não implica compromisso estratégico com o projeto partidário (que, de fato, está por ser estabelecido!). Mas a adesão ao PSOL pode ser muito mais do que isso: ela pode facilitar a reconstrução de um projeto político comum e de um quadro orgânico mais estável, um potencial novo pólo de reagrupamento da esquerda socialista no Brasil. É uma aposta colocada – a única aposta racional a ser feita pelos socialistas. Para isso o PSOL, reestruturado com a presença da esquerda petista, deverá compreender-se como um partido socialista de massas, aberto ao diálogo e participação de todos os setores da esquerda, capaz de resgatar o melhor da experiência do PT, evitando seus equívocos, mas também capaz de atualizar a agenda estratégica e programática dos socialistas brasileiros, profundamente defasada da realidade contemporânea. Deverá buscar incorporar toda a diversidade de experiências de diferentes setores da esquerda críticos à experiência do PT e do governo Lula. E deverá ser capaz de desenvolver uma relação de aprendizado com atuação dos movimentos sociais, recusando todo vanguardismo auto-proclamado e relação de tutela para com as organizações populares.

21. Qualquer que seja o papel positivo que possa ser cumprido pelo PSOL, não há hoje como evitar uma certa dispersão na construção de um instrumento político-partidário capaz de ocupar o lugar historicamente preenchido pelo PT. Isso se dá porque o PT surgiu na esteira do mais formidável movimento de massas da história brasileira, que resultou no fim do regime militar e criou, além do partido, organismos como a UNE, a CUT, o MST e foi capaz de mobilizar energia, criatividade, esperança e alegria em milhões de pessoas, no Brasil e no mundo. Hoje não atravessamos um período de ascenso e o tecido social brasileiro mudou muito, dificultando processos assim. A reconstrução de um partido político de esquerda com capacidade hegemônica será complexo e, talvez, prolongado.

22. A esquerda socialista estará confrontada, no próximo período, com a necessidade de uma reflexão crítica e autocrítica. Onde foi que erramos para chegarmos a este ponto? Como nossa concepção de partido permitiu a convivência com uma estrutura tão deformada e por tanto tempo, que tornaram a democracia interna e a participação militante quase uma formalidade? Como permitimos, ao longo dos anos 90, que o centro de gravidade da ação política fosse se deslocando dos movimentos sociais para as estruturas do aparelho de Estado? Afinal, que herança queremos reivindicar deste processo? A auto-organização, a democracia direta e o protagonismo popular dos anos 80 e sua relação com um movimento político-partidário que não abandone o terreno eleitoral nem se descaracterize? Um partido que foi capaz, em seu primeiro período de vida, de integrar a diversidade de experiências sociais e políticas dos setores populares? A oxigenação das estruturas do estado trazidas pelas propostas de democracia participativa e pelas experiências de orçamento participativo? A proposta do Fórum Social Mundial, gestada neste ambiente? As grandes campanhas de educação política em temas como a dívida externa e a ALCA? A crise só será superada se realizarmos uma reflexão programática e estratégica coletiva que coloque o movimento socialista brasileiro a altura do nosso tempo.

23. Mas a reflexão programática e estratégica ganha corpo na intervenção tática em uma conjuntura concreta. A crise do PT coincide com a crise das políticas neoliberais, mas a frustração para com o governo Lula desorganiza o movimento democrático e popular. Agora, com o agravamento da crise, um reagrupamento relevante de forças pode, provavelmente, ser obtido em torno da associação da luta contra a corrupção com a luta contra o neoliberalismo, levando o debate político para além da discussão ética. Esta orientação, levantada sobretudo pelas Assembléias Populares, se choca, todavia, com a linha da direção da CUT (respaldada pela Coordenação de Movimentos Sociais) de associar a luta contra a corrupção com a “defesa” do governo Lula – uma orientação pela qual vários setores com vínculos de dependência frente ao governo buscam subordinar o movimento a sua agenda particular. Neste quadro adverso, a bandeira de anulação das reformas aprovadas através da compra de votos talvez possa, pedagogicamente, dialogar com o funcionalismo e com os setores mais conscientes do movimento.

24. Numa conjuntura em que a esquerda socialista perde suas referências no PT e corre o risco de se dispersar, é urgente que os socialistas iniciem um movimento político mais amplo e flexível do que as legendas eleitorais existentes, capaz de estabelecer um quadro de debate e articulação de todas as correntes, lideranças e parlamentares comprometidos com a reconstrução do projeto socialista na esquerda brasileira. A formação de um Movimento pelo Socialismo será tão sólida quanto sua ancoragem em um partido, que possa lhe oferecer um centro de gravidade, e somente o PSOL permitirá que este centro tenha uma base militante. Nestas condições, ela pode auxiliar a esquerda socialista, nos partidos ou fora deles, a se articular para além do horizonte eleitoral de 2006. Pode ajudar que a recomposição da esquerda e a reconstrução dos seus instrumentos políticos se processem com menor fragmentação.

25. As considerações estratégicas e a crítica do eleitoralismo petista não devem obscurecer que será no processo eleitoral de 2006, sob o terreno criado pela falência do PT e do governo Lula, que a população formulará seus balanços da experiência do governo, projetando suas futuras lealdades, esperanças e identidades políticas. Nada de sólido poderá ser construído fora da polarização expressa na disputa eleitoral , ao que tudo indica entre Lula, as candidaturas da direita e a candidatura de Heloisa Helena. Nenhuma liderança da esquerda poderá deixar de escolher seu lado neste confronto. É importante que nesta eleição o maior número possível de candidaturas e forças socialistas se reagrupem num pólo de esquerda, sob a legenda do PSOL ou em coligação com ela, e viabilizando uma candidatura presidencial com densidade eleitoral para incidir nos debates e na consciência política popular e lutando por mandatos populares capazes de lhe dar continuidade a esta disputa.

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