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| PED: nova oportunidade para o PT? |
| Emir Sader* |
| Agência Carta Maior - 12/09 |
| O resultado do Processo de Eleições Diretas do PT, marcado para o dia 18 de setembro, pode ser o primeiro ponto de partida para a reaglutinação da esquerda. O PT sempre foi um partido atrevido e tirou daí a novidade da sua existência. O PT sempre foi um partido atrevido e tirou daí a novidade da sua existência. Fundou um partido centrado nos movimentos sociais, recusou-se a participar do Colégio Eleitoral, como instância ilegítima para eleger um presidente democrático no Brasil, teve como líder um ex-dirigente sindical, promoveu outros líderes populares, mulheres, negros, a postos de direção, assentou na militância, nas campanhas de rua, nas marchas, sua força diferencial, abriu espaços para intenso intercâmbio com a intelectualidade crítica, apoiou a revolução cubana contra as campanhas totalitárias da imprensa privada, colocou o socialismo no seu programa, introduziu o orçamento participativo como forma petista de governar, formulou e colocou em práticas as melhores políticas sociais que o país já conheceu, reconheceu o direito à existência de tendências e tratou de fazer da diversidade um elemento de força para a criação de um consenso plural, assumiu a ética na política como norma indispensável de respeitar a centralidade da esfera pública na vida política, foi o partido em que mais diretamente se representaram a CUT e o MST, os dois movimentos sociais mais importantes do Brasil, este último o mais importante do mundo atual. Enfim, o PT ousou, foi atrevido, renovador, democrático, plural, mobilizador. Por isso – e por tantas outras razões mais – se constituiu na mais importante construção partidária da esquerda brasileira. Em meio à maior crise que o partido já viveu – não como decorrência da realização dessas características, mas da sua negação; não como decorrência de políticas de esquerda, mas de políticas de direita, importadas de outros partidos e de outros governos –, o partido ousa mais uma vez e, de forma atrevida, resolve realizar as eleições internas diretas para eleger suas direções em todos os níveis. Os méritos do PT não vem da comparação com outros partidos, mas de seus méritos próprios. Mas não é indevido comparar com outras siglas – muitas delas nem partidos não, sem militância, sem ideologia, com caciques que dirigem aparato burocrático sem vínculo algum com movimentos sociais, salvo vínculos com entidades empresariais, que se valem deles, enquanto lhes interessem injetando-lhes dinheiro e usando seus parlamentares como lobistas dos seus interesses mercantis. Nessa condição se encontram os dois eixos da direita brasileira – PSDB e PFL – verdadeiros instrumentos dos interesses dos grandes empresários privados, nacionais e internacionais. Da mesma forma que o PMDB, o PTB, o PL, o PP. O que dizer do “ex-Partido Comunista”, o PPS, que ao extinguir-se e renunciar a toda sua história, doou todo seu acervo à... Fundação Roberto Marinho (sic), expropriando-o daqueles que realmente protagonizaram a história do comunismo brasileiro – seus dirigentes históricos, seus militantes, seus dirigentes sindicais. E foi correndo participar da base do governo FHC, o governo mais deletério da história do país, que dilapidou o patrimônio público brasileiro, reprimiu como nunca ao MST – com um ministro do PPS à cabeça (pena que não tenha sido filmado ainda as “Memórias do saqueio” do Brasil, onde todos esses traidores dos interesses do Brasil apareceriam de cara inteira). Pobre PDT, que já havia sido reduzido à sua mínima expressão com Brizola em vida, apesar dos ziguezagues que o tinham levado a apoiar Fernando Collor de Mello ou a buscar alianças até com o PFL, mas antes disso tinha se mostrado incapaz de se aproximar dos movimentos sociais e da intelectualidade crítica, pelo estilo centralizador e personalista de seu grande líder. Agora, o partido sobrevive sem conteúdo próprio, sem capacidade de recuperar a oportunidade perdida que Brizola desperdiçou por não ser capaz de agregar forças, antes excluindo os divergentes – e infelizmente povoando a política carioca com os hediondos personagens originários do PDT e que continuam a maltratar o Rio de Janeiro. O PSOL, fundado apressadamente, sem buscar agregar a todos os descontentes com as políticas do governo Lula, rapidamente tornou-se uma federação de tendência sectárias, envoltas na luta entre elas, sem elaborar grandes balanços da trajetória da esquerda, das transformações do país, sem se constituir em pólo de atração para os descontentes com o PT, sem incorporar ativamente intelectuais críticos, voltado para a campanha eleitoral do ano próximo mais do que para a construção de um pólo alternativo na esquerda. Assim, envelhece prematuramente, sem as vantagens que o PT teve ao longo de sua história e já incorporando uma série de seus erros – burocratização, centralismo, eleitoralismo. Em meio à maior crise da sua história, o PT não cancelou as eleições diretas para todos os cargos de direção e as realiza esta semana. Um primeiro resultado da capacidade de reaglutinação da esquerda e do partido será dado pela quantidade de votantes. Já vivendo uma fase de depuração dos antigos métodos de filiação, está claro que o universo real é muito menor do que os 800 mil filiados no papel, além das defecções e do desânimo de tantos membros do partido. Mas os que forem votar já darão uma dimensão do contingente de quadros com que o PT poderá contar no seu processo de renovação/refundação. Teria sido melhor que a esquerda tivesse lançado um candidato único. Mas, dada essa situação, é positivo que exista um acordo, entre pelos menos três dos seus candidatos, de voto no segundo turno. Teria sido melhor que uma candidatura renovadora substituísse o antigo grupo majoritário – auto-dissolvido pela via dos fatos –, mas pelo menos existe promessa de que os parlamentares acusados nos processos de corrupção não participarão da nova executiva. É fundamental que a esquerda triunfe, que reúna suas forças, que consiga organizar uma nova maioria, plural, que integre a todos os setores, na medida da sua representação, e dê início a uma nova fase – de renovação/refundação do PT. Para tanto, é necessário o compromisso, claro e definitivo, de que as forças que estão participando no PED se comprometam a participar também da nova fase vivida pelo PT. Entretanto, participar do processo condicionando sua estada no PT ao resultado eleitoral e às datas para eventual filiação a outra legenda para tentar eleição no ano que vem desqualifica politicamente qualquer candidato a postular no PED, por eleitoralismo e por contribuir na direção oposta do objetivo próximo a conseguir para a esquerda – evitar a dispersão. Caso contrário estarão contribuindo para a segunda grande derrota da esquerda (a primeira é o fracasso do governo Lula de sair do modelo neoliberal): a dispersão de forças, participando ativa e conscientemente de uma espécie de “crônica de uma tragédia anunciada”: consolidar a derrota da esquerda, pela sua dispersão e fragmentação. O resultado do PED – quantidade de votantes, capacidade organizativa de promover uma iniciativa desse porte, inédita na vida política brasileira, justo quando o PT recebe os mais virulentos ataques da sua história, que buscam eliminar “por 30 anos” a esquerda da vida política do país – pode ser o primeiro ponto de partida para a reaglutinação da esquerda. Redefinir a relação da nova direção com os militantes, com os movimentos sociais, com as outras forças da esquerda, com a intelectualidade crítica e com o governo será dura tarefa para testar a capacidade da nova direção da renovar/refundar o PT e a esquerda. Certamente um novo Congresso deve ser uma necessidade quase que imediata, não apenas para definir a nova cara organizativa do partido, mas, elemento indissociável da organização, para definir um modelo pós-neoliberal para o Brasil, uma nova linha programática e estratégica para o PT. Boa sorte, PT! Você merece, pela belíssima trajetória que teve nas décadas anteriores. Que o partido, a militância, mostrem sua cara, votem livremente nos seus candidatos, participem ainda dos debates e da campanha, reconheçam os vitoriosos. Para demonstrar que “só o petismo salvará o PT”. E oxalá a esquerda triunfe, unida, para dar ao PT e à esquerda brasileira mais uma oportunidade histórica. Será uma lição não apenas de que a esquerda não se deixará massacrar no Brasil, assim como uma lição de democracia que nenhuma outra força – menos ainda as que atacam, com os generosos espaços na mídia, como exemplos da expressão de Brizola, “a esquerda que a direita gosta” – tem condições de dar. Se o PT fizer isso, sairão fortalecidos o partido e a esquerda brasileira. *Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “A vingança da História". |
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