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| Crítica ao artigo de Emir |
| Fabiano Garrido* |
| PALAVRA CRUZADA - 15/09 |
| O artigo do Emir Sader, publicado no site da Carta Maior neste início de setembro, dia 12, sob o título “PED: nova oportunidade para o PT?”, merece ser debatido com maior interesse pela esquerda. Analisando a importância e o significado do PED que está em curso no PT, o referido artigo acaba desenvolvendo uma argumentação maniqueísta e de pouca profundidade na análise dos desdobramentos atuais da crise que vive a esquerda brasileira. Tratando-se de Emir Sader, confesso minha desagradável surpresa. Na ânsia de dar ao PED uma qualidade que ele não possui - talvez com a intenção de animar a participação da militância perplexa e desmoralizada com os descaminhos do PT e do governo Lula - o artigo faz alusões a um partido que não mais existe e defende o PT como único espaço possível para a organização da esquerda, apoiando-se em uma defesa contemplativa da “unidade partidária”, sem considerar o fosso programático (e agora moral) que vem se aprofundando há alguns anos em seu interior. Além disso, faz uma caracterização em que coloca o PPS, o PDT e o PSOL no mesmo saco das “alternativas fracassadas”, sem maiores distinções ou contradições. No caso do PDT, Emir retrocede à repetição da mesma ladainha de sempre, afirmando que Brizola não passou de um caudilho, que se aliou a Collor e foi incapaz de agregar setores mais amplos ao seu partido, inclusive da intelectualidade, devido a seu comportamento autoritário e centralizador. Em sua crítica, correta em alguns aspectos, Emir ignora que este mesmo caudilho foi o vice de Lula em 98 (com o apoio de correntes da esquerda do PT) e foi um dos primeiros críticos não-petista da conversão do governo Lula ao neoliberalismo (em um momento em que o silêncio dos intelectuais foi ainda mais intenso), colocando o velho caudilho, gostemos dele ou não, à esquerda do atual governo. O que mais impressiona é como Emir se deixa confundir com a velha crítica que o “novo sindicalismo” fez contra a geração pré-64. Afinal de contas, foi o agora assumido liberalismo lulista, guiado pelas teses de Weffort, quem durante anos execrou as experiências “populistas” e “pelegas” acumuladas até o momento do golpe militar, para depois realizarem um governo vergonhoso e medíocre, com desempenho muito abaixo que qualquer outro daquele período. Emir perde completamente este contexto ao exercer sua crítica ao PDT, resumindo a figura de Brizola a um “aliado de Collor”, como se a aliança entre Lula e Roberto Jefferson tivesse algum motivo “mais nobre”. Além do PDT, Emir formula uma séria de críticas ao PSOL, que apesar de verdadeiras em alguns aspectos, peca pela falta de contexto e pela extrema simplificação: primeiro , porque não se pode comparar a força do PT de hoje, que conseguiu se constituir em uma imensa máquina eleitoral (com o auxílio de práticas condenáveis, agora reveladas), com a força do PSOL, que está ainda em vias de se viabilizar legalmente; segundo , porque acusar o PSOL de ter sido “fundado apressadamente, sem buscar agregar a todos os descontentes com as políticas do governo Lula” é uma incoerência do autor já que o mesmo é declaradamente contrário a uma iniciativa com este propósito (de agregar os descontes em outro partido). O mais grave no entanto, é que sua crítica desconsidera completamente que a “fundação apressada” do PSOL foi resultado, por um lado, do rito sumário adotado pela direção do PT no processo de expulsão dos parlamentares e, por outro, das exigências draconianas do processo de legalização partidária no país; terceiro , porque considerar que o PSOL é um partido que “envelhece prematuramente, sem as vantagens que o PT teve ao longo de sua história e já incorporando uma série de seus erros – burocratização, centralismo, eleitoralismo.” é no mínimo um exagero. A análise de que o PSOL surgiu a partir de uma representação parlamentar, sem ser a expressão de um ascenso da luta de massas e tampouco resultado de uma profunda reflexão sobre as raízes da crise atual, é uma análise pertinente e verdadeira. Entretanto, exigir que o PSOL nascesse já com todas estas características, desconsiderando que vivemos em um outro momento histórico, marcado pela maior crise vivida pela esquerda brasileira, resultante dos rumos adotados pelo PT e o governo Lula, seria idealismo, ou mero cinismo. O PT nasceu do processo de lutas contra a ditadura e sem parlamentares porque naquele momento, simplesmente, não havia eleições diretas no país, e não porque PT “rejeitasse” os espaços institucionais. Aliás, os valorizou até demais. Neste sentido, o “caráter parlamentar” inicial da formação do PSOL nada mais é do que reflexo do momento histórico atual, em que, apesar do refluxo, a esquerda obteve maior representação parlamentar. Cabe aqui um alerta: tratar a inserção parlamentar do PSOL como um “crime” ou um “desvio” originário pode nos levar a um erro primário, que é desconsiderar que a participação eleitoral da esquerda foi uma conquista da luta dos trabalhadores contra a ditadura militar, e não o contrário. Não se trata portanto de negar a participação institucional enquanto um meio de lutas da classe trabalhadora e da esquerda. Trata-se aqui de não cometer os mesmo erros do PT, que transformou sua tática eleitoral em sua própria estratégia de poder, aderindo assim ao vale tudo eleitoral, comandado pelo mercado do marketing e pelo fisiologismo. Outro aspecto que caracteriza o rebaixamento do debate é a crítica ao suposto “eleitoralismo” do PSOL. Embora nenhum partido esteja isento deste risco, que deve ser combatido com firmeza, todos sabem que o PT poderia (pelo menos até antes da crise) oferecer possibilidades muito mais promissoras aos setores que se movem pelo “eleitoralismo”. O PSOL poderia, é verdade, ter cumprido um ritual mais longo, paciente, onde fosse debatido em profundidade o balanço da crise e as perspectivas da esquerda brasileira. Mas tal ritual não poderia “impedir” a sua legalização no prazo determinado. Tampouco este processo está encerrado, exigindo um amplo processo de reflexão sobre as questões que foram abertas para a esquerda com a crise. Além disso, a tarefa da legalização do PSOL foi fundamental, para garantir que estas reflexões possam se expressar na disputa eleitoral de 2006, já que será um momento privilegiado para o debate e a construção de alternativas ao neoliberalismo, seja lulista ou tucano. Emir comete o erro de combater a dispersão da esquerda apoiando-se em um único pilar, que é defesa do PT como único espaço de militância possível para a esquerda brasileira - mesmo que este seja um espaço esvaziado de projetos e sem capacidade política para se apresentar, novamente, como depositário dos anseios de mudanças da maioria do povo brasileiro. O perigo da dispersão, que realmente existe, não pode ser tratado de forma maniqueísta, como se fosse responsabilidade da esquerda que não identifica mais no PT um projeto de mudança para o país. O maior responsável pela dispersão é o governo Lula e o Campo Majoritário do PT, que após 25 anos assumiram o governo para implementar o mesmo programa e as práticas da direita, em todos os seus aspectos mais importantes. Esse é o retrocesso que sofreremos, inevitável, ainda que possa ser minimizado de alguma forma. Ao analisar a disputa do PED, Emir ignora que esta disputa seja um processo fortemente controlado pelas máquinas montadas no interior do PT, que atendem aos interesses dos parlamentares, ministros e funcionários, mas não dos militantes. Alheio a estas questões, o texto faz um fetiche do PED enquanto instrumento democrático, “exemplo de conduta democrática do PT”, etc, exigindo que todos os candidatos que estão disputando o PED se comprometam em permanecer no partido, independentemente do resultado (caso contrário seriam “eleitoreiros”!). A mesma exigência que vem sendo feita por Pomar nos debates do PED, de que todos devem se comprometer com uma “defesa incondicional do PT”. Este compromisso de “lealdade” e “disciplina” para com o partido pode ser útil para atrair apoios de alguns descontentes do Campo Majoritário para a candidatura de Valter Pomar, como no caso dos Tattos em São Paulo (onde a moeda de troca é a defesa, também incondicional, da reeleição de Lula e o apoio à candidatura da Marta para o governo do Estado). Entretanto, esta falsa noção de compromisso não é uma reposta coerente à gravidade da crise vivida pelo PT, pois é evidente que se o PT continuar a ser controlado pelo Campo Majoritário, ou mantiver a essência de sua política por outros meios, ele estará definitivamente destruído enquanto uma ferramenta de luta por mudanças no país. Entender a gravidade da crise e a dificuldade de sua superação é um primeiro passo para enfrentá-la. A simplificação do debate e dos argumentos, com o propósito de fazer caricaturas das posições em jogo, será incapaz de apontar um novo rumo para a superação da crise. Poderão, no máximo, ganhar mais alguns votos para esse ou aquele candidato no PED, quem sabe. *Fabiano Garrido , Sociólogo, Especialista em Economia Social e do Trabalho e mestrando em Desenvolvimento Econômico pelo Instituto de Economia da Unicamp. |
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