O PT e a esquerda da direita
Fábio Luís *
Correio da Cidadania - 24/09

Na reta final das eleições à presidência do Partido dos Trabalhadores, a candidatura de Plínio de Arruda Sampaio se viu refém da própria lógica que se propôs a combater.

Condensando a simpatia e o apoio da militância que não está amarrada pela disputa interna entre as tendências, a candidatura postou-se desde o princípio no tênue limiar entre a crítica devastadora e a ruptura. Esta ambigüidade parece ter sido ao mesmo tempo sua força e sua debilidade.

Por um lado, o desprendimento em relação à estrutura partidária permitiu-lhe uma liberdade crítica que o diferenciou dos demais candidatos. Esta coragem só é possível porque Plínio está disposto a deixar o partido, como conseqüência previsível do fracasso em reformá-lo. Paradoxalmente, se este desprendimento aproximou em um primeiro momento os candidatos identificados com a esquerda do partido dada a radicalidade da própria crise, no momento decisivo, afastou-os.

Premidos entre os pólos da contradição partido X socialismo, que se desdobra em termos como aparelho X trabalho de base, burocracia X militância, entre outros, o instinto político das tendências fez o pêndulo pender decisivamente para o primeiro termo.

Assim se configurou o movimento: baixo o receio comum de que Plínio fosse ao segundo turno, a Articulação de Esquerda passou a trabalhar a favor do campo majoritário. Seu candidato, Valter Pomar, atacou acintosamente Plínio Sampaio ao mesmo tempo em que preservou o futuro candidato Lula, salvo as vagas críticas à política econômica.

Valter já servira ao campo majoritário recentemente: tentou articular a permanência de Genoíno na presidência do partido e depois o adiamento das eleições. Sua candidatura recebeu apoio massivo em São Paulo do grupo político de Marta Suplicy, inclusive da família Tatto, que é a síntese notória da política mafiosa que, em tese, se pretende combater. Em troca, supõe-se o apoio da corrente à ex-prefeita nas prévias do ano próximo.

Sem ambições eleitorais visíveis, Valter revela-se o típico burocrata que procura costurar espaço interno manejando com argúcia as engrenagens do partido, procedimento que fez escola no nome do seu sinistro expoente: estalinismo. Como produto, a “direita da esquerda” atua como “esquerda da direita”, ou seja: uma variação sofisticada do mesmo.

O movimento seguinte à sua consolidação como alternativa palatável ao campo majoritário foi neutralizar a esquerda. Forjou-se um pacto de apoio mútuo no segundo turno. Aderiu o candidato Raul Pont, que, todos sabem, é da esquerda do partido. Mas também aderiu. Aderiu Maria do Rosário, que, todos sabem, é da direita.

O que teve a aparência de um acordo trivial de unidade contra o campo majoritário revelou-se uma manobra para isolar Plínio: impossibilitado pela radicalidade de sua posição de manifestar apoio hipotético a Maria do Rosário, sua candidatura, que sempre se esforçou para construir uma alternativa de esquerda e unitária, acaba fora do “acordo das esquerdas”. Foi aplainado o campo para a “esquerda sectária” deixar o partido, como sempre.

Raul Pont, por sua vez, supõe-se que conseguiu negociar em melhores bases espaço para a própria tendência, cúmplice de uma direção que faz política segundo métodos publicamente conhecidos e repudiados pela militância.

Plínio Sampaio é um político experiente, não desconhece esta realidade. Como diz, nunca foi radical, nem da esquerda do partido; mas, quando todos foram para a direita, ele ficou onde estava – e agora está na esquerda.

Encarou o governo Lula e a crise do PT com o otimismo da vontade: preparou para o primeiro um amplo plano de reforma agrária e, para o segundo, ofereceu sua vitalidade política. O pessimismo da razão se impõe: um governo conservador não quer reforma agrária, assim como a esquerda de um partido da ordem não quer desordem.

*Fábio Luís é jornalista

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