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| PED: a pá de cal que faltava |
| Waldemar Rossi* |
| Correio da Cidadania - 24/09 |
| As eleições internas do PT, realizadas no dia 18 último, revelaram aquilo que muitos dos seus militantes – atuais e antigos – vinham dizendo: o PT já foi um partido democrático, já foi um partido das mudanças, não é mais. Qualquer cidadão bem informado sabia de antemão que tais eleições seriam marcadas por vícios que vêm inviabilizando o exercício da verdadeira democracia partidária e a sua fidelidade aos princípios da solidariedade de classe. A imprensa publicou fatos e fotos incontestáveis sobre os desvios políticos e ideológicos vividos em mais uma infeliz experiência a que chamam de Processo de Eleições Diretas (PED). Fui testemunha pessoal dos desvios acima citados, assim como ouvi testemunhos de outros companheiros que ainda estão filiados ao PT. É muito triste constatar que se formaram milhares e milhares de pequenos “currais eleitorais” dentro da estrutura do único partido que, neste país, nasceu, de fato, das lutas dos trabalhadores e das lutas dos movimentos sociais. O PT nasceu democrático, mas, aos poucos, devido às matrizes ideológicas autoritárias e sectárias, foi se transformando, pela ação desleal de grupelhos, num instrumento de manipulação política das suas bases e de controle de setores do movimento social: os sindicatos, outrora chamados de “combativos”, foram sendo progressivamente aparelhados pela corrente majoritária petista e sendo colocados como “correias de transmissão” partidária, o mesmo acontecendo com a CUT; os movimentos sociais - pela ação de alguns dos seus melhores ativistas, cooptados como “assessores” de vereadores e deputados - passaram a receber orientações políticas daqueles parlamentares, tendo suas ações reivindicatórias controladas e canalizadas para os interesses exclusivamente eleitorais; os núcleos partidários foram sendo eliminados e os diretórios tornando-se aparelhos de grupos ou mesmo de eternos candidatos a cargos políticos. O que se vê então é o uso da máquina partidária em favor do grupo “a” ou “b”, do vereador “c” ou do deputado “d”, em detrimento da democracia e das lutas sociais, das lutas pela justiça. Ficou evidente que, em cada um dos milhares de diretórios petistas espalhados pelo país, se pôs em prática os mesmos desvios e vícios que o conjunto dos partidos da direita vem aplicando no Brasil: o voto comprado, o pagamento da anuidade, o eleitor transportado pelo carro do vereador ou do deputado e do ônibus ou da perua alugada, o voto despolitizado, do conchavo, enfim, o voto de cabresto. Cada diretório foi sendo transformado em campo de disputa de influência interna, em instância de formação de verdadeiras seitas canalizadoras de votos para seus “coronéis”, cada um deles pensando no seu espaço político, nas próximas eleições parlamentares, e não mais no partido como instrumento de lutas de um povo que busca justiça. Um triste espetáculo para quem via no PT o partido das transformações sociais. Se para muitos dos seus militantes autênticos o PED 2005 seria a oportunidade para o saneamento partidário, ficou evidente que ele foi a pá de cal que faltava para o seu sepultamento definitivo como partido da prática democrática e das transformações políticas e sociais que todos esperávamos. A eleição de Ricardo Berzoini ou de Valter Pomar - qualquer um dos dois que for escolhido em segundo turno para presidir o partido - simplesmente virá confirmar que as esperanças dos mais autênticos defensores do PT de o partido retornar às suas origens revolucionárias foram por água a baixo, caíram no abismo, não têm mais volta. O PT continuará existindo, agora como um partido da ordem, como sempre quis a direita, ou como o excelente filósofo Paulo Arantes afirmou em sua entrevista ao Correio da Cidadania (edição nº. 464): “Sem projeto próprio, salvo o de ingressar no condomínio patrimonialista brasileiro, o governo não será expulso, apesar de todo o foguetório, apenas reciclado como sócio menor”. Frase que muito bem se aplica ao PT, que, com Berzoini ou Pomar, será lambe-botas do governo Lula e esse um simples serviçal do capital internacional - em troca de sobrevivência no clube dos partidos consentidos, aquilo a que a direita se propôs a fazer desde o início da vida do Partido dos Trabalhadores: transformá-lo num partido da ordem, capaz de controlar o movimento social, subordinando-o aos interesses maiores do capital. O capital percebeu que, desde que domesticado, esse partido funcionária como instrumento legitimador da estrutura de exploração capitalista, aquilo mesmo que os sindicatos pelegos têm sido ao longo da História do movimento sindical: um amortecedor das lutas operárias no conflito histórico do antagonismo entre capital e trabalho. Admiti-lo, portanto, mas com o objetivo claro e estratégico de cooptá-lo, como cooptados têm sido os sindicatos e os partidos trabalhistas no universo capitalista. Permitam-me os leitores encerrar esse artigo com mais uma frase de Paulo Arantes, na mesma entrevista: “O PT persistirá como legenda e máquina de poder local. Como partido com expectativa de voltar a ocupar um lugar na esquerda, acabou. Curto-circuito tanto mais dramático porquanto se sabe que, no fundo, o programa do PT sempre foi a sua própria existência”. *Waldemar Rossi é metalúrgico aposentado e coordenador da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo. |
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