O PED e a esperança furta-cor
Luis Fernando Novoa Garzon*
Correio da Cidadania - 24/09

Burocratizado e eleitoralizado, como poderia o PT não ser controlado por máquinas arrecadatórias e administrativas? O processo de eleições diretas (PED), em curso até o fechamento dessa edição, reflete a força viva do PT-máquina contra o moribundo PT-movimento. Filiações massivas nas áreas de clientela e a despolitização da vida interna foram políticas deliberadas da direção partidária, consoantes com o papel intermediador desempenhado pelo PT. A organização do partido é toda a política do partido, sabemos desde 1902. Somente uma “base” insossa, não militante, não contribuinte, constituída por laços de favor, poderia consagrar o Campo Majoritário e seu candidato Ricardo Berzoini, com mais de 40% de votos. Mesmo depois de rasgarem o programa do partido, de reciclarem a perversa governabilidade dos capitais, de resgatarem o modelo neoliberal, ao ponto de fazerem das receitas do FMI, receitas de governo. Mesmo depois de submergirem em alianças com siglas de aluguel, de montarem condenáveis esquemas de “fidelização” de empresas e de lavagem de dinheiro e de coonestarem com o crime organizado, fechando os olhos a execuções de companheiros.

Tarso Genro, que aceitou ser presidente-tampão desse buraco negro, dizia que o futuro do PT dependia do surgimento de um novo núcleo dirigente. Argumentos similares se reproduziram nas tendências à esquerda, todas querendo acreditar em uma “crise de direção”, apenas. Ainda que abalado em sua credibilidade, e com suas principais lideranças em alvo de tiro, o Campo Majoritário comprovou que sua influência é capilarizada e cristalizada o suficiente para continuar definindo os rumos do PT e, inclusive, condicionar a feição de uma oposição que se faça aceitável. A “liberação” de voto para presidente, decidida por setores próximos do Campo Majoritário, indica uma defecção coordenada da máquina majoritária, que objetiva cacifar preventivamente a transição de comando que se possa fazer necessária.

O Campo Majoritário, à medida que se igualou à direita, tanto programática quanto metodologicamente, foi ficando mais sequioso por diferenciação para consumo externo. Dessa vez é preciso caprichar no engodo. Uma direção e uma liderança capazes de mudar o bastante para não mudar nada. A esquerda, domesticada com cargos federais e atenções de Delúbio até 2004, coloca no balcão sua virtual credibilidade em troca de novas posições de proa. Refiro-me especificamente à Articulação de Esquerda de Pomar e, em menor medida, à Democracia Socialista de Pont, os dois postulantes com maiores chances de passarem ao segundo turno do PED 2005, até o fechamento dessa edição. [1]

As críticas de Valter Pomar à política econômica são principistas, e conformam um “mantra”, que acompanha, em inofensiva trilha sonora, o aprofundamento da desmontagem do país pelo Ministério da Fazenda e pelo Banco Central. Não é por zelo democrático que PT e governo devem ser “esferas distintas”, mas para evitar contaminações entre o timing eleitoral e o administrativo. O que pode significar a “disputa” de hegemonia no interior desse governo? Açambarcar todos os espaços institucionais disponíveis para que, nas próximas eleições, toda a força, assim acumulada, se revele?

Antes das eleições internas, Valter Pomar procurou explicar o apoio de Marta Favre e do clã Tatto, entre outros setores do CM, dizendo que não houve “concessões programáticas” e que, “do ponto de vista prático, o governo Marta se confrontou com os tucanos”. O primeiro argumento é o mesmo utilizado por Dirceu para justificar a política de alianças amplas e que serviu também a Marta para convalidar o apoio de Maluf nas últimas eleições paulistanas. Nenhuma “concessão”, fora o compartilhamento de dinheiro e métodos sujos. Meios e fins não se contradizem, abstraídos e traídos os últimos. O segundo argumento revela a lógica corporativa e inter-burocrática que predomina no PT. Importa derrotar os tucanos concorrentes na cadeia alimentar, pois o nicho é o mesmo, a gerência do país em nome do capital financeiro. Se Marta é totalmente alinhada com as políticas de Palocci (em essência, as mesmas dos tucanos) e irá fortalecê-las se puder, isso não importa. Derrotar a política neoliberal é apenas um detalhe. “Fortalecida” depois desses acordos, a esquerda, vitoriosa nas eleições, obterá os meios de que precisa. E só então chegará a hora da prestação de contas com o neoliberalismo!

Mostrando seus dotes contorcionistas, Valter Pomar, em entrevista à Carta Maior, disse que não é possível manter “essa política até o final de 2006”. Não porque ela seja insuportavelmente anti-nacional e anti-social, mas “porque setores importantes da classe trabalhadora organizada, da classe média e do empresariado industrial estão insatisfeitos conosco. Então, se não houver mudanças que recuperem o apoio desses setores, nós vamos perder a eleição em 2006”. Eis o grande temor, a derrota eleitoral. O que mais pode convencer aparelhos socialmente desenraizados e totalmente dependentes dos recursos de poder institucionais?

Em igual pragmatismo, Pont disse à Reuters que “os mercados são nervosos, não tem como servir ao mercado e à base eleitoral que nós representamos. Se o Lula vai aceitar ou não, nós não sabemos". Mas Pont quer saber, quer fazê-lo saber. Em entrevista no sítio do PED, disse: “se o Lula tomasse uma iniciativa forte em relação aos salários, se nós tivéssemos iniciativas imediatas contra os preços que as companhias privatizadas de energia elétrica, de telefonia, estão cobrando, que são verdadeiros assaltos ao usuário, é evidente que a resposta da população no ano que vem seria muito maior. O reconhecimento ao presidente seria muito maior”.

Pomar e Pont são fluentes na linguagem que o Campo Majoritário, e Lula, bem entendem. Os novos marketeiros, treinados no marxismo e na sua negação prática, querem assumir o lugar de Duda para recuperar a vocação (e o potencial) eleitoral do PT. Se o oportunismo à direita foi necessário para eleger Lula em 2002, agora é preciso recorrer ao oportunismo na mão inversa. Valter Pomar e Pont representam a celebração do oportunismo de esquerda como estratégia de sobrevivência da burocracia social-liberal que se apossou do PT.

Esses setores consideram que, se o governo é de centro-esquerda, alguém precisa ser de esquerda, ainda que seja para qualificar o centro que lhe antecede. A ambigüidade é proposital e calculada. As “mudanças” não podem colocar em risco os chamados patamares conquistados, tais como disciplina fiscal, câmbio flutuante e indissolubilidade dos contratos com os capitais; naquilo justamente que o governo Lula estaria “dando um show”, nas palavras do fiel ministro de guarda, Jaques Wagner.

Transatlântico não dá cavalo de pau, costumava dizer Palocci no começo do governo, tentando dissimular o fechamento de acordos que garantiriam a pilotagem automática, em caráter irreversível, do país. Agora, qualquer hipótese ou menção que se refira a mudança de rota é contrária ao Brasil em seu “caminho seguro para o crescimento sustentado”. Um governo tucano faria pior? O que pode ser pior para a esquerda do que um agrupamento, com ampla visibilidade, assumir, em nome dela, as políticas da direita como se fossem únicas e irreversíveis? Se o PSDB estivesse à testa do governo federal não teria conseguido reunir consenso mínimo, sequer entre as elites, para aprofundar o ajuste neoliberal. O governo Lula conseguiu e se declara apto para ir mais fundo.

Ao optar pela ruptura com o dissenso, com a democracia pela base, com a tradição socialista, em adequação com a ordem globalizada e financeirizada, o PT tenta enterrar a alternativa para a qual fora talhado. O establishment não poderia ser mais grato, e por isso blindados ficam Palocci, Meirelles e Lula contra todas as turbulências. A crise política só serviu para acelerar o processo de domesticação do governo Lula e de autonomização do processo decisório que importa para os mercados. Um segundo governo Lula, nessas condições, seria uma rendição incondicional, a exemplo das medidas de subordinação adicionais adotadas no terreno monetário, cambial, orçamentário e do comércio externo. Ainda assim, há quem insista na ladainha de que primeiro é preciso eleger Lula, seja como for, para que depois seja possível desferir “golpes decisivos no capital financeiro”.

Esperar o quê? Que os trabalhadores esperem, na melhor das hipóteses, ser convertidos em fatias sub-especializadas e sub-remuneradas? Que o empresariado com base nacional, locado nas últimas cadeias produtivas, espere reestruturações vantajosas definidas por investidores estrangeiros? Que o povo do campo espere o sucesso do agronegócio como a única via de sucesso possível?

O PT não pode e não quer ser salvo, como demonstra o resultado do PED. Mas a alternativa anti-capitalista e anti-neoliberal pode e deve, como demonstra um país desfigurado pela recessão, pelo desemprego, pela liberalização financeira e pela ausência de políticas públicas estruturantes.

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[1] O adversário de Berzoini será Raul Pont.

*Luis Fernando Novoa Garzon é membro da ATTAC - Ação pela Taxação das Transações Financeiras em Apoio aos Cidadãos

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