Sobre caminhos e palavras cruzadas
PALAVRA CRUZADA - 27/09

Com a chegada da primavera, iniciamos a terceira fase do PALAVRA CRUZADA. Nestes 2 meses que estivemos fora do ar muita coisa aconteceu. A versão do “golpe de direita” engendrada pelo governo Lula e empunhada pelos movimentos sociais “chapa-branca”, se desfez nas marchas dos dias 16 e 17. Como também virou história a “refundação do PT” sob o comando de Tarso Genro, enviado por Lula para tentar tornar o partido ainda mais domesticado às necessidades do governo em aplicar as políticas conservadoras e antipovo. Se naquele momento não dava para apostar em quais seriam os desdobramentos da crise, hoje os limites estão mais bem delineados. Por outro lado, no PT pós-PED os caminhos que a esquerda petista não governista tomará estão definidos. É evidente que também não podemos esquecer do ocaso de Severino Cavalcanti, que do tão-poderoso indicador de ministros e peça-chave da governabilidade e da pizzaria Congresso, se transformou no protagonista do “mensalinho”.

Mas como falamos em início de uma nova fase, queríamos dividir com noss@s leitor@s um pouco do que foi a história deste ano de existência do PALAVRA CRUZADA. Tudo começou quando vários militantes da Democracia Socialista, em julho de 2004, impedidos de discutir dentro da tendência suas críticas ao governo Lula e aos rumos que a maioria da direção do PT estava imprimindo ao partido, resolveram lançar um documento interno à tendência chamado “A Esquerda Brasileira na Encruzilhada”. O objetivo era tornar público, no interior da DS, que existiam companheir@s que discordavam tanto dos rumos do governo e do PT, como também da opção da maioria da direção da DS em exercer uma oposição de baixo impacto ao então chamado “núcleo-duro” do governo e ao auto-intitulado Campo Majoritário. Como a tradição de distribuição e discussão de todo documento no interior da tendência infelizmente não foi seguida pela direção da DS, decidimos criar um canal público para que pudéssemos chegar aos militantes da corrente e, também, à esquerda petista. Daí surge o PALAVRA CRUZADA, cujo Conselho Editorial era composto por 3 das pessoas que assinavam o documento.

Logo percebemos que nossas críticas e posições eram divididas também por vári@s companheir@s de outras correntes de esquerda, dentro e fora do PT, e que o PALAVRA poderia ter um papel muito maior do que aquele que originalmente havíamos pensado. O de ser uma “ferramenta de análise e informação a serviço da esquerda socialista brasileira”, conforme ainda está escrito no rodapé de nossa página inicial. E foi a isto que dedicamos os 4 primeiros meses do PALAVRA, analisando e colocando o máximo de informações sobre o processo eleitoral de 2004, suas repercussões e a discussão e o posicionamento mais crítico de setores dentro da esquerda petista, mesmo que ainda embrionários. Quando finalmente, depois de alguns adiamentos, o documento que escrevemos foi discutido – e rejeitado – pela coordenação nacional da DS, percebemos que, já naquele momento, fora construído um cordão sanitário em torno de nós, nos isolando, estigmatizando e desvalorizando as nossas posições e aquel@s que com elas concordavam. Somado a isso, o Conselho Editorial do PALAVRA era instado a descontinuar o sítio, porque nele estavam colocadas posições contrárias às que a DS [ou melhor, a maioria da direção da DS] defendia. A saída foi dissolver o Conselho e manter o sítio agora sob responsabilidade do webmaster, que era o único que não fazia parte da direção nacional da tendência.

Dessa forma, o PALAVRA entra na sua segunda fase, mantendo os pressupostos iniciais. Neste processo que chega até agosto deste ano, algumas modificações ocorreram. Implementamos uma nova proposta visual no sítio, incorporamos alguns colaboradores, ampliamos – até para fora do Brasil – nosso conjunto de leitores/companheir@s de luta, mas continuamos a manter a essência da nossa proposta. O Editor, junto com mais de 50 militantes da DS, saiu do PT e foi se juntar ao esforço de construção do PSOL. Nesta mesma época, vári@s outros militantes do PT anunciaram no Fórum Social Mundial sua saída do partido. Com eles e, também, com noss@s camaradas que haviam continuado dentro do PT e da DS, insistindo na luta, continuamos e aprofundamos nossos contatos e discussões. Mais tarde, quando um grupo de parlamentares petistas se juntou naquilo que mais tarde veio a se constituir como o Bloco de Esquerda, procuramos manter iniciativas em comum, além de abrir o PALAVRA à divulgação das idéias e das ações dest@s companheir@s. Nesta via de mão-dupla, também nos sítios de alguns del@s, o link do PALAVRA aparece com destaque.

Tudo isso fazia parte de um entendimento que considerava, no meio da imensa derrota que nos atingiu a tod@s da esquerda socialista brasileira, ser imperioso construirmos laços que nos mantivessem próximos, evitando a dispersão e a multi-fragmentação. A tsunami que varreu o governo e o PT ajudou a tod@s – no PSOL ou ainda no PT – a compreenderem a importância desta união. Agora que o mar voltou ao seu leito normal, os cadáveres insepultos e a podridão ficam à mostra e, como remate final, os resultados do PED indicam que as últimas esperanças de uma mudança no PT, estão sepultadas pela areia da história.

É neste momento que começamos uma terceira fase do PALAVRA CRUZADA. Ficamos fora do ar nestes 60 dias, porque com o final do recolhimento das assinaturas para a legalização do PSOL, que foi completada na semana passada, a fase de construção real do partido começou e ela nos colocava uma série de tarefas e contatos. Voltamos agora, com ânimo redobrado e já com a certeza de que reencontraremos, agora no PSOL, noss@s companheir@s de quem estivemos longe, porém ligados, nesta segunda fase que se encerra. Além deles, estaremos juntos de vários outros que conhecemos neste período e com quem dividimos nossas idéias e nossa luta.

Um ano depois, recomeçamos em um outro momento que coloca grandes possibilidades e tarefas. Mas não abandonamos a idéia e o projeto que nos uniu sempre e que fez como que o PALAVRA fosse tão compreendido e apoiado pel@s seus leitores: a tarefa maior é a da reorganização da esquerda socialista brasileira, da reconstrução dos instrumentos da classe trabalhadora e dos movimentos sociais, tudo isso balizado pela análise do que foi a experiência histórica do PT. Manteremos a pluralidade – dentro de um espectro de crítica aos descaminhos do governo Lula e do PT – não para aumentar a audiência, mas porque acreditamos que estas tarefas só poderão ser alcançadas com a participação de todas os atores relevantes na esquerda brasileira.
<<< voltar >>>
Hosted by www.Geocities.ws

1