“Errar é humano”. É?
Waldemar Rossi
Correio da Cidadania - 02/07

Mensagem eletrônica recebida com ditos populares, um deles chamou minha atenção porque se relaciona com os dias turbulentos que afligem a Nação. Diz o seguinte: Errar é humano. Colocar a culpa em alguém é estratégico”. Creio que é bem isto o que está acontecendo.

Zé Dirceu, ainda no governo, declarou: “O governo está pagando o preço por ter buscado apoio de outros partidos para formar maioria no Congresso Nacional”, e que “ fomos um pouco ingênuos...”. Tendo perdido o rumo devido às denúncias de corrupção que envolvem membros do próprio governo, do PT e da base política, governo e partido decidem culpar alguém (que não eles próprios) pela crise detonada. Relutam o quanto podem em reconhecer que erraram muito e que continuam errando. Tentam nos passar a idéia de que a culpa pela crise é da oposição.

Felizmente, ainda temos gente de bom senso no partido e no Congresso Nacional, que não aceitam a encenação. Destaco o artigo do senador petista Cristóvam Buarque - que foi ministro da Educação no primeiro ano do governo Lula – publicado na Folha de 28/06/05: “... os militantes estão perplexos, envergonhados, e isso pode levar à morte do partido. Especialmente se não tiverem clareza de que a crise é mais profunda do que levantam as denúncias de um deputado.

Elas têm raízes na História do PT e no comportamento do governo. Não foi importada, foi criada por nós. As denúncias apenas apressaram o afloramento de uma crise existente”. Mais claro é impossível.

Documento lançado pela CMS (Coordenação dos Movimentos Sociais), ao defender mudanças radicais na composição do governo e na sua política econômica, como indispensáveis para a solução da crise política e da crise nacional da miséria e da fome – com o que concordamos plenamente –, tenta nos passar a idéia de que o presidente Lula não tem culpa no cartório e que a culpa é da oposição golpista. Que a oposição deva ser denunciada pelos seus crimes contra a nação, também concordamos. Também entendemos que algumas das entidades que compõem a CMS têm vínculos históricos com Lula e, mais, estão mancomunadas com ele nas propostas de reformas da Constituição que roubam direitos dos trabalhadores e do povo em geral. Desses, dá para entender a ambigüidade. Não dá, porém, para entender tal posição de outras entidades que têm na busca da justiça social a sua diretriz. E a busca da justiça só se faz aceitando e revelando a verdade toda, ainda que dolorosa, e tomando decisões corajosas e inteligentes para solucionar definitivamente os problemas. Ao tomar a defesa do presidente, acabaram por enfraquecer suas próprias reivindicações de mudanças radicais na política, ao mesmo tempo em que reforçam a política atual.

Tanto é assim que, embora tenha ficado muito contente com o apoio recebido das lideranças, Lula fez questão de manter a mesma equipe de colaboradores na área financeira: Meirelles no Banco Central e Palocci na Fazenda, ainda que o primeiro sofra denúncias de crime por sonegação fiscal e o segundo já tenha sido declarado como “inimigo” pelos movimentos sociais. E as declarações desses dois estão deixando muito claro que a política econômica não vai mudar. Até pelo contrário, estão afirmando que permanecerá por muito tempo ainda: manutenção dos juros altos para conter a inflação e superávit primário real (de até 7% ao ano) a fim de “cumprir compromissos” com os banqueiros nacionais e internacionais, logicamente, deixando de cumprir seu primordial compromisso, o da justiça social para com seu povo.

E, além disso, Romero Jucá continua como ministro da Previdência, instituto do qual é sonegador. Dá para entender? Se nem a crise detonada por acusações de corrupção é suficiente para fazer Lula mudar a composição do governo e os rumos da política econômica, como então isentá-lo de responsabilidade? Todos gostaríamos que as mudanças acontecessem e que o momento oportuno fosse aproveitado. Infelizmente não acontece, pelo menos até agora.

Sente-se um esforço da CMS para mobilizar o povo em defesa do governo e contra a suposta tentativa de golpe. Parece que não está muito fácil. E isso também tem sua explicação: afinal, durante todo esse tempo (dois anos e meio de mandato), o governo virou as costas para os movimentos, não os ouviu, melhor dizendo, fez ouvido de surdo, e preferiu outras alianças, como reconhece Zé Dirceu. Então, como contar com a mobilização popular agora, se suas atenções públicas continuam voltadas para outros parceiros duvidosos?

Como diz A. Bogo: “devemos ser generosos”. Não obtusos, porém.

<<< voltar >>>
Hosted by www.Geocities.ws

1