Movimentos sociais discordam sobre posição frente ao PT e ao governo
Verena Glass
Agência Carta Maior - 18/07

Enfrentar a avalanche de denúncias que se abate sobre o governo e o PT e tomar uma posição frente aos dois, principalmente com a insistência do Planalto em manter a impopular política econômica e as alianças com partidos conservadores, é atualmente um dilema para os chamados movimentos sociais. Principalmente entre os que se consideram base histórica do partido e mola impulsora da eleição de Lula, manter ou não o apoio ao governo, apostar ou não num renascimento do PT, fazer ou não uma crítica aberta a ambos, tem sido assunto de debates em inúmeras frentes e agremiações.

Para entender melhor este momento, é bom ter em conta que, sob o conceito guarda-chuva “movimentos sociais” se abrigam um sem número de organizações dos mais diversos setores e das mais diversas orientações ideológicas de esquerda, que ou gravitam em torno de partidos como o próprio PT, o PSTU, o PSOL ou até o PC do B, mantêm uma autonomia relativa, em nível micro-local, regional ou nacional, de governos e parlamentares, ou se afirmam fiéis apenas aos próprios compromissos políticos.

Há desde os pequenos movimentos de bairro, de jovens, mulheres, liberdades sexuais, culturais, de raça, pastorais sociais da Igreja, etc., aos grandes movimentos nacionais, como o sindical (CUT), estudantil (UNE e UBES), de moradia, de trabalhadores rurais (MST, Atingidos por Barragens - MAB, Pequenos Agricultores – MPA, Pastoral da Terra – CPT, etc). E dentro de muitos, há divisões, correntes e tendências.

Esta diversidade não é exatamente um facilitador para que “as esquerdas” se unam neste momento de crise para uma grande reação de massa que leve o governo a mudar de rumo – principalmente econômico - e que enfrente de forma eficiente “as direitas” (entendendo-se como direita os partidos conservadores, a grande imprensa, o mercado financeiro e setores correlatos) e a crise profunda que se abateu sobre o país.

Articulações

Entre as várias agremiações que, nestas últimas duas semanas, debateram com maior profundidade a crise e a relação dos movimentos com o governo e o PT, pode-se destacar três como referência desta conjuntura especial: a chamada Assembléia Popular, articulada pelas correntes de esquerda da CUT, pela dissidência interna do PT, por militantes do PSTU e do PSOL, por ex-petistas, como o economista Plínio de Arruda Sampaio Júnior, e dezenas de movimentos locais; a organização política Consulta Popular, de cuja direção fazem parte lideranças do MST, como João Pedro Stédile, Gilmar Mauro e Ademar Bogo, o deputado estadual Frei Sergio Göergen (PT-RS), ligado ao MPA, e o advogado Ricardo Gebrim, expresidente do Sindicato dos Advogados de SP; e a Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS), que congrega grandes organizações como o próprio MST, a CUT, UNE e UBES, Marcha Mundial das Mulheres, entre outros.

Radicais

Reunidas separadamente no último dia 9, a Assembléia e a Consulta Popular fizeram uma avaliação bastante dura do governo e do Partido dos Trabalhadores. A primeira, cuja reunião contou com a presença de cerca de 300 militantes, já por princípio – em função da forte presença do PSTU e do PSOL – atacou duramente o PT, afirmando não aceitar “que se aproveite a terrível crise do PT para enxovalhar a esquerda e fechar o horizonte de um mundo melhor”.

“A população brasileira precisa ter consciência de que a adesão da direção do PT aos métodos espúrios da política burguesa tem sua origem na renúncia de cumprir seus compromissos históricos com o povo brasileiro e na decisão de gerir a crise do falido modelo econômico”, afirma a declaração final do evento, concluindo que, “em nome do que ainda resta do gigantesco patrimônio político e moral construído pelos trabalhadores, é hora de abandonar o PT e, junto com todas as forças anti-capitalistas, construir novos instrumentos para retomar a trajetória de luta por uma sociedade livre e socialista”.

Já o presidente Lula, segundo a Assembléia, teria dado as costas ao povo brasileiro, o que estaria claro no “conteúdo conservador e reacionário das políticas adotadas pelo governo Lula, [que] corresponde à forma mercantilizada e corrupta de construção de sua base parlamentar de sustentação”.

“Queremos a punição dos corruptos e corruptores, queremos mudanças na política econômica, e queremos que o governo cumpra suas promessas de campanha. Não vamos pedir a saída de Lula, mas vamos dizer que o governo não representa mais os interesses dos trabalhadores”, explica Jeruza Souza, da ala esquerda da CUT.

Reflexivos

Já para a Consulta Popular, movimento político organizado nos moldes da Ação Popular (AP) da década de 60, a crise que abate o PT neste momento ultrapassa o partido e atinge todo o conceito de esquerda no país. “O PT nesse momento é o nosso muro de Berlim, é um momento muito difícil porque ninguém sabe qual a real dimensão desta crise. Avaliamos que o PT encerrou seu ciclo com a substituição da luta de idéias por um projeto de poder. O que se faz necessário agora, com o fim do ciclo PT, é refundar a esquerda no país”, afirma o advogado Ricardo Gebrim.

Segundo o deputado estadual, Frei Sergio (PT-RS), o grande erro do PT foi mergulhar exclusivamente na disputa da institucionalidade, adaptando-se aos mesmos métodos utilizados pela direita. “O problema é que a direita tem décadas de experiência. Enquanto transporta dinheiro em aviões ou contêiners, o PT usa malas e cuecas por falta de experiência”, cutuca. Mas pondera: “não sei o que vai ser do PT. Tarso Genro [presidente do partido] diz que é preciso reinventá-lo, Olívio Dutra [ministro das Cidades] fala em refundação. Nós, da Consulta Popular, defendemos a refundação da esquerda para refundar o Brasil, esse país que sempre foi dos ricos”.

Sobre os objetivos da Consulta, Frei Sergio explica que ela defende uma luta pelo poder que não passe pelo sistema eleitoral, em função principalmente de uma crise profunda do sistema representativo que “está distanciando cada vez mais os representantes dos representados. É um sistema que se sustenta pela reserva moral, pela pretensa possibilidade de que o povo possa alterar a sua realidade pelo voto; mas este sistema está corroído pro dentro. Avaliamos que a esquerda não pode se pautar por uma agenda eleitoral, não deveria tentar assumir o poder sem romper com o atual sistema. Isso leva tempo. Agora, temos que curtir a ressaca primeiro antes de sermos capazes de reagir. Temos que conviver com esse grande fracasso. Se o PT conseguir se recuperar, bom. Se não, temos que criar outros meios”.

Sobre o governo Lula, a Consulta afirmou, em recente declaração, que “a gravidade e natureza da crise deu margem para que as forças da direita viessem para ofensiva e tentassem tirar todo proveito possível, contra o governo, contra as esquerdas e contra os direitos dos trabalhadores. O governo Lula parece inerte a essa ofensiva. Os movimentos sociais e forças populares ofereceram uma alternativa. Mas até o momento o governo preferiu apenas seguir com as velhas práticas de composição com as forças conservadoras do congresso”.

“Os movimentos sociais deram várias oportunidades a Lula de se aliar com os setores organizados da sociedade. Mas Lula virou as costas”, diz Frei Sergio. “Avaliamos que o governo está rompendo com o povo, e as relações agora serão outras”, arremata Gebrim.

Pragmáticos

Por fim, a Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS) - a mais representativa das articulações, por incorporar as grandes organizações nacionais -, em reunião ampliada neste último sábado (16) com várias ONGs, como o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e o Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), reafirmou o que havia proposto na recente “Carta ao Povo Brasileiro”: é preciso apurar as denuncias de corrupção e punir os culpados, e é indispensável mudar os rumos da política econômica do país. Ponto.

A definição de que as diversas organizações sociais teriam apenas dois pontos de consenso neste momento se deve ao fato de que ainda existe muita defesa de posições no coletivo. Se a crise é fruto de um golpe da direita, como defende a UNE, dirigida pelo PC do B, se o presidente da CUT deixa a central sindical para assumir um ministério (do Trabalho) no governo, se o PT está definitivamente desmoralizado ou não, isto não seria uma questão central neste momento.

“Com os outros movimentos, inclusive as ONGs que assinaram a Carta ao Povo Brasileiro, vamos falar de política econômica. E nessa luta contra a política econômica vai entrar tudo, o setor mais nacionalista do PMDB, capitaneado pelo governador Roberto Requião (PMDB-PR), o PL, com o vice-presidente José Alencar ou o bispo Marcelo Crivella, Carlos Lessa (expresidente do BNDES), o grupo do senador Capiberibe (PSB-AP), todos”, afirma João Paulo Rodrigues, coordenador nacional do MST, ao explicar a presença de Crivella e Requião em recente evento da CMS em Porto Alegre.

À pergunta se estas alianças não comprometeriam a luta dos movimentos sociais, Rodrigues explica que “são alianças táticas e nada tem de ideológico. Obviamente não se pode cair na lógica de que os fins justificam os meios; foi isso que permitiu as alianças do PT com os partidos conservadores, o que gerou esta crise. Mas no nosso caso o MST ou a CMS não estão oferecendo nada, não estão abrindo mão de nada. Se os partidos mais conservadores se unirem à gente, são eles que estão cedendo”.

Concordâncias

Unir “as forças da esquerda” - quem quer que seja essa esquerda -, como dizem aspirar a Assembléia e a Consulta Popular, não deve ser um sonho realizado tão cedo. Por outro lado, além das críticas à política econômica, há uma concordância de todos os movimentos sociais de que o povo terá que tomar as ruas para que alguma coisa mude. “Lula sabe que, perdendo o apoio popular, tem poucas chances de reeleição”, afirmam Rodrigues e Frei Sergio. E apenas com muita pressão, muito “povo na rua”, concordam todos, haverá uma pequena chance de que o presidente mexa na economia.

Nesse sentido, a CMS pretende organizar uma bateria de manifestações até o fim do ano: 25 de julho em todos os estados, 16 de agosto, aproveitando a mobilização dos movimentos de moradia, em Brasília, 7 de setembro, data do Grito dos Excluídos, em todo o país, e, em outubro, novamente um grande protesto em Brasília.

A Consulta Popular deve participar destas atividades com as pautas superação da miséria, reforma política profunda (“única arma contra a corrupção”), e luta por um desenvolvimento estratégico com sustentabilidade ambiental do país, afirma Frei Sergio. Já a Assembléia Popular promete um ato em São Paulo no próximo dia 20, em conjunto com um protesto dos funcionários do judiciário federal que estão em greve.

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