Novos tempos, nova clivagem política
Editorial
Correio da Cidadania - 14/07

Ultrapassada a barreira do economês, a proposta do “déficit zero” até que é bastante simples. Trata-se de cortar gastos com educação, saúde, previdência social e investimentos em infra-estrutura. O dinheiro, assim economizado, será usado para pagar os credores do Brasil.

Segundo o deputado Delfim Netto, isto fará com que, em poucos anos, a dívida pública seja substancialmente amortizada, criando assim um clima favorável ao desenvolvimento. Clima favorável no idioma delfiniano significa afastar definitivamente o temor dos investidores estrangeiros de que o Brasil dê um calote na dívida externa. Para os economistas liberais, a entrada maciça de capitais estrangeiros em nossa economia constitui condição sine qua non do nosso desenvolvimento.

A indignação que uma proposta deste tipo provoca em qualquer pessoa minimamente sensível à situação das populações de baixa renda não deve impedir uma análise objetiva do que ela representa do ponto de vista político.

Lançada em um momento de crise institucional, a proposta constitui o preço que o “capital” está exigindo para garantir a governabilidade. Desta vez, porém, parece não se tratar apenas de uma chantagem, do tipo daquela que o “mercado” fez no meio da campanha eleitoral de 2002. O tom dos discursos e dos comentários que os chefões da economia fizeram, em “off”, aos jornalistas parece sugerir que a direita está disposta a ajudar Lula a sair da crise, desde que ele aprofunde o arrocho atual.

A proposta tem sua lógica: Lula representa hoje uma alternativa muito interessante de sepultamento definitivo da economia da Era Vargas, pois só ele parece ter a faculdade de impor pesados sacrifícios ao povo sem ocasionar violentos distúrbios sociais.

O movimento seria, portanto, o de incorporar Lula organicamente na direita, quem sabe até em composição com os tucanos.

Isto casa com o fato de o sistema partidário, criado após o período ditatorial, estar esgotado. O Brasil no qual ele foi construído já não existe mais. As mudanças causadas por mais de uma década de desmontagem sistemática da Era Vargas na economia e na sociedade brasileira estão provocando nova clivagem das forças sociais e políticas.

A presença do ministro Palocci no jantar de lançamento da proposta, apesar das declarações cautelosas que deu após o evento, indica que essa nova guinada à direita não está fora das cogitações do presidente.

A esquerda precisa observar esses movimentos com muita atenção para não ser pega de surpresa e chegar atrasada na História.

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