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| A renúncia como um caminho de honra |
| José Carlos de Assis |
| www.desempregozero.org.br - 11/07 |
| Se tiver um mínimo de dignidade e honra, se tiver respeito pelo Brasil e pelo povo que o elegeu, o presidente Lula renunciará ao mandato o mais breve possível. Se não tiver sequer essas qualidades, o Congresso, para resgatar a honra da República, deve submetê-lo, com a urgência requerida pela gravidade da crise, ao processo de impeachment. Se o Congresso não se sentir compelido moralmente a julgar o Presidente, estará configurada uma situação de entropia social e política: a ordem interna se desintegrará diante de nossos olhos, com o total esfacelamento das instituições republicanas. É que, se Lula optar por um processo lento de sangria, enquanto esperneia junto a um Congresso desmoralizado na tentativa desesperada de preservar seu mandato, caminharemos para uma situação boliviana: o poder formal continuará no Planalto, mas a autoridade estará na rua. Daqui a seis meses, o que reservam para os milhões de leitores brasileiros 48 edições das quatro revistas semanais, e 640 edições dos quatro principais jornais brasileiros? Acaso haverá uma única notícia favorável a Lula e ao Governo? Diante disso, em que pé estará o moral e o sentido de auto-respeito do Presidente da República?! Como pode um presidente da República sair-se bem de uma situação em que os principais de seus auxiliares no governo estão metidos numa trama de corrupção envolvendo potencialmente dezenas de empresas públicas cujos dirigentes são por ele pessoalmente nomeados? Como é possível ao chefe do Governo fingir que não tem nada a ver com o partido que ele criou e que foi por ele criado, e cuja direção, agora, acaba de ser decapitada em razão de envolvimento direto com trapaças financeiras? Como o líder da luta pela ética se sente agora como patrono da imoralidade perante milhões de cidadãos? As revelações escabrosas das últimas semanas ganharam uma velocidade tal que a maioria das pessoas se sente atordoada e incapaz de raciocinar friamente sobre os desdobramentos da crise. Fala-se em preservar o Presidente; fala-se num ato punitivo exemplar que atinja apenas os principais líderes partidários envolvidos com o mensalão, a fim de dar satisfação à opinião pública; fala-se num arranjo de cúpula para acelerar a reforma política. Provavelmente tudo isso ocorrerá, e talvez fosse racionalmente desejável que parasse aí, mas é ingênuo supor que o País tolere esse tipo de acordão. Estamos na era da informação, e somos uma democracia de cidadania ampliada. Muitos não gostam disso, mas existe uma entidade política chamada povo que passou a existir no Brasil, sobretudo depois da Constituição de 88. Ela não dirige o País, mas interfere no seu destino. Interferiu quando elegeu Collor, o caçador de marajás; interferiu quando depôs Collor, o corrupto; interferiu de novo quando elegeu Fernando Henrique, o conquistador da estabilidade; interferiu mais uma vez quando elegeu Lula, o portador da esperança da geração de empregos e da mudança da política econômica. Alguém pode imaginar, de sã consciência, que um povo que pôs Fernando Collor para fora em razão dos achaques de PC Farias vai preservar Lula de comprometimentos ainda piores pelo simples fato de que ele nasceu pobre? E alguém acha que uma limpeza em regra no Congresso não será possível porque há gente demais comprometida? Quem pensa assim não sabe o que é imprensa livre e competitiva. Não haverá trégua. Esqueçam no momento os estereótipos de manipulação da imprensa, pois decididamente não há um comitê dirigente estabelecendo o que os jornais e as revistas vão publicar no fim de semana. A imprensa raramente é manipulada para evitar o ataque em casos concretos de suspeita de corrupção. Jornais e revistas competem por leitores, e a forma de conquistá-los é lhes oferecendo notícias quentes em primeira mão. Mais difícil ainda é a manipulação de defesa. Não há como coordenar vários jornais e revistas para defender uma determinada autoridade que está sendo atacada. Daí uma interação virtualmente incontrolável no noticiário. Obviamente, isso nada tem a ver com a defesa ideológica de uma política econômica, como no caso de Palocci. Aí, sim, há manipulação. A propósito, a indicação clara de que este Presidente está irremediavelmente perdido é a grotesca tentativa das elites financeiras, puxadas pelo deputado Delfim Netto, de aproveitar o pato manco no Planalto para usar a carcaça da autoridade presidencial que ainda lhe sobra a fim de fazer passar o contrabando da política fiscal de déficit zero, completando mais uma rodada na agenda neoliberal. Como também o Congresso está claudicante de autoridade, presume-se, no frigir dos ovos, um grande abraço de afogados, do tipo conhecido em futebol como "perdido por um, perdido por mil". Mas será que, neste início de terceiro milênio, a sociedade brasileira vai engolir isso? |
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