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Partido dos Trabalhadores cresceu na esteira do fim da ditadura militar,
mas rapidamente se transformou na maior máquina partidária
do país, não mais alimentada por qualquer projeto popular
e democrático, mas movida por interesses econômicos e empenhada
na manutenção do poder. O sociólogo Chico de Oliveira,
um dos fundadores do PT, afirma ao Brasil de Fato que as vias de luta
da esquerda precisam mudar, já que os partidos não têm
mais interesse por política. Mas o caminho é, justamente,
político.
Brasil de Fato - Que PT é esse que faz aliança com o PL,
rasga seus princípios, e chama Roberto Jefferson de companheiro?
Francisco de Oliveira - Quem reconhece o PT por essa descrição?
Não é mais o Partido dos Trabalhadores. Na história
da esquerda mundial, os antigos partidos social-democratas levaram pelo
menos 100 anos para se transformar em partidos da ordem. O PT levou três
anos, desde a Carta ao Povo Brasileiro.
BF - Por que no Brasil
a transformação foi tão
rápida?
Chico de Oliveira - O PT cresceu muito depressa porque tivemos uma ditadura
militar que deu uma extraordinária força aos movimentos
sociais. Ainda não estudamos isso direito porque a esquerda brasileira
sempre foi anticlerical e antiigrejeira.
BF - E o PT nisso tudo?
Chico de Oliveira - O PT foi uma espécie de vertedouro deste enorme
movimento. E cresceu como os bons pasteleiros fazem. O PT cresceu bem,
e se transformou na maior máquina partidária do país.
Não há outra igual. O PSDB é uma máquina
plutocrática que só tem a parte de cima, não tem
base. O PT de agora não é mais o PT original, mas não
foi tudo automático. Houve escolhas políticas dentro do
PT.
BF - Na chegada ao poder ou antes?
Chico de Oliveira - A chegada ao poder é uma espécie de
desastre, expõe a fratura, não é o momento da transformação.
A fratura ocorreu em 2002, com a Carta ao Povo Brasileiro, e os dois
anos e meio de governo. Aí, os problemas criados pela organização
burocrática ficaram expostos. O PT é uma formidável
máquina burocrática. Dos vereadores até em cima,
cada um tem um corpo de assessores. Isso já forma uma massa de
interesses materiais. Não é ideologia, não, é interesse
material, é emprego. O PT emprega uma massa formidável
de gente, e isso passa a influir no partido.
BF - Igualzinho ao PSDB?
Chico de Oliveira - Não, o assessor do PT tem uma diferença
radical em relação ao do PSDB. Ambos têm interesses
materiais, querem manter o emprego, mas o do PT tem ligação
com o partido enquanto projeto político. Um projeto político
de poder. Essas duas coisas fazem com que a máquina do PT seja
realmente uma máquina de guerra partidária. A do PSDB não
funciona assim. O PFL não tem máquina partidária,
tem interesses fisiológicos e materiais.
BF - Mas o PT não tinha um projeto de nação?
Chico de Oliveira - Não, não tinha. Quem tinha projeto
de país na formação do PT era o pessoal que veio
da luta armada. O José Dirceu tinha. Essa senhora Dilma Roussef
também. Era um projeto de transformação radical,
socialista. Na formação do PT, o projeto dos católicos
era um projeto ético. A terceira força, a principal na
fundação, eram os sindicalistas, que não tinham
projeto de país. O novo sindicalismo que surge é muito
apolítico, anti-político, até.
BF - Antes, quem teve um projeto popular e democrático no país?
Chico de Oliveira - Os militares tinham um projeto de país conformado
dentro de um projeto de potência. O projeto popular e democrático
morreu em . Os sindicalistas são todos neófitos em política,
têm uma enorme ignorância sobre o que é Estado, o
que é República. O Lula era nitidamente antipolítico.
Em 74, ele dizia que ao trabalhador interessa salário, não
política.
BF - Qual a importância de um projeto nacional? Qual a diferença
entre projeto nacional e projeto de poder?
Chico de Oliveira - No projeto nacional, a formação da
nação é a finalidade primeira de um partido. Já o
projeto de poder coloca o poder antes da nação. Então,
na medida em que o PT cresceu e se burocratizou, o projeto de poder passou à frente
do projeto de nação, e terminou se convertendo em seu fim.
BF - O que a direita quer?
Chico de Oliveira - Duas coisas: poder
e dinheiro. Dinheiro, tem. Não
tem poder algum. A direita política hoje é o PSDB.
BF -
Eles têm o Banco Central, a Fazenda, o que mais querem?
Chico de
Oliveira - Não têm, não. Aqui temos um fenômeno
muito sério, muito importante e muito grave. A economia colonizou
a política. Não existe mais política. Há objetivos
econômicos e manutenção de crescimento. É por
isso que o Banco Central foi dado ao Henrique Meirelles. Não porque
ele é PSDB, mas porque é um elo importante na cadeia da
junção com os credores, com o capital financeiro em geral.
Os tucanos lutam como se a política ainda tivesse importância,
e não tem mais. No mundo capitalista não tem mais.
BF - Então, o que fazer?
Chico de Oliveira - Política. Exatamente porque ela não é importante
para os capitalistas, ela tem que ser para nós.
BF - Mas como e por quais vias, se os partidos se desmancham?
Chico de Oliveira - Não se sabe. Temos que inventar novas formas.
Os partidos estão em forte erosão. Dentro dessa colonização
da política pela economia, os partidos são as principais
vítimas. Porque os debates todos que estamos vendo sobre a corrupção
têm por objetivo a discussão dos cargos nas estatais. Porque
a política é irrelevante. O importante é ter um
homem forte num lugar forte, onde se decide a aplicação
da grana, do excedente econômico. Por isso eles se debatem e se
comem feito uns loucos atrás disso.
BF - Como assim?
Chico de Oliveira - Por exemplo, o que se passou com uma importante reforma
como a do Judiciário? Ela quase passou em branco. Além
dos advogados, dos juízes, dos interessados na máquina
e na estrutura do poder Judiciário, quem mais discutiu a reforma
que passou? Qual foi o sindicato de trabalhadores que fez algum debate
sobre a reforma? Qual o partido político que debateu a reforma?
Nenhum. Mas só se muda a situação fazendo política,
porque é a única forma que se tem de atuar. Se você não é proprietário,
não está no mundo das grandes finanças, como você age
na sua sociedade? Fazendo política. As formas velhas ainda são
eficazes? Duvido. E as novas, temos que achá-las.
BF - Quem está procurando?
Chico de Oliveira - Muito pouca gente. Do lado dos cientistas políticos,
há um enorme regozijo porque todas as instituições
estão funcionando. A sociologia passou para o minimalismo. As
grandes narrativas desapareceram do campo das ciências sociais. É uma
sociologia que se dedica a - perdoem-me a irreverência - discutir
a cor das calcinhas de Odete. Ela está preocupada com o cotidiano.
No meu tempo se dizia: isso é firula.
BF - Resta-nos a utopia?
Chico de Oliveira - Reinventá-la. Todo mundo está contente.
Estamos na quinta eleição presidencial contínua,
sem interrupções. As instituições agüentaram
o impeachment de um presidente sem se abalar. E os fundamentos econômicos
estão ótimos, dizem os economistas.
BF - E o povo?
Chico de Oliveira - O povo é um acidente, foi um engano de Deus,
que no dia da preguiça criou o povo. A política é irrelevante.
As discussões de corrupção são em cima dos
cargos. A política propriamente não é discutida.
A coisa da reforma do Judiciário foi bem sintomática. Se
fosse na época do Jango, pegava fogo. O Judiciário é uma
peça importantíssima da política. No Banco Central,
o presidente e os diretores são indicados pelo presidente da República,
e o Senado tem que aprovar. Primeira distorção: devia ser
a Câmara e não o Senado, porque o BC não discute
só os interesses da Federação, toca nos interesses
do povo. Quando ele decide sobre a taxa de juros está decidindo
no seu bolso. Eu costumo dizer que a sabatina do "Show do Milhão" é mais
complexa do que a do Senado para aprovar o presidente do BC.
BF - Um dos argumentos da direção do PT para justificar
os recuos do governo era a correlação de forças
desfavorável para um projeto de esquerda. Isso é verdade?
Não era possível uma outra política econômica?
Chico de Oliveira - Isso é uma bobagem, porque se você só faz
a política que a correlação de forças permite,
você só faz a política conservadora, que é o
que resultou. E é outra bobagem, porque a política é precisamente
o único meio que você dispõe para corrigir as assimetrias
de poder que a economia cria. Num sistema capitalista, o poder é assimetricamente
constituído. A política é o meio de corrigir isso.
Se você não faz essa correção da economia
pela política, o que é que você faz? Isso que está aí.
BF - E por que o governo optou por essa governabilidade ao invés
de ir à procura dos movimentos sociais?
Chico de Oliveira - Minha tese está num artigo que ainda não
foi publicado e que sairá junto com outros em um livro chamado
A Era da Indeterminação. É a seguinte: ocorreu uma
enorme transformação na sociedade, no capital e na propriedade,
e portanto na relação com o Estado. Isso o PT nunca entendeu.
A fraqueza teórica do PT é essa. Ele achou que o governo
Fernando Henrique Cardoso era um governo entreguista, antinacionalista,
e toda questão residia em ter vontade política. Ele nunca
entendeu que o FHC botou o país de cabeça para baixo, e
isso vale também para o MST. Eles nunca entenderam que ao privatizar,
a tal correlação mudou de uma forma que é muito
difícil controlar. Eles privatizaram 15% do PIB. Uma escala sem
comparação na experiência mundial. Só a Argentina
fez uma coisa semelhante e deu com os burros n'água.
BF - Quer dizer que a esquerda não entendeu o que FHC fez ao
país?
Chico de Oliveira - O Brasil mudou muito e o PT não levou isso
a sério, não sabia do que se tratava. O PT estava preocupado
com a roubalheira nas privatizações. Como meu mestre Ignácio
Rangel já dizia, a corrupção é um condimento
do capitalismo. O problema só existe quando ela se transforma
no prato principal. Mas isso não tem nenhuma importância
do ponto de vista econômico. Do ponto de vista político
tem.
BF - Por que não é problema do ponto de vista da economia?
Chico de Oliveira - Porque a economia é um
circuito fechado. O dinheiro não sai dela. Se sair, não
vale nada. Então,
mesmo quem roubou, vai ter que aplicar o dinheiro. A economia é um
sistema fechado, não sai nada dele. O que sai são os pobres,
esses saem e vão bater no inferno. Houve roubalheira nas privatizações,
para onde foi o dinheiro? Sabe-se mais ou menos. Qual é o efeito
disso na economia? Nenhum.
BF - Afinal, onde está o prejuízo que FHC causou ao país?
Chico de Oliveira - Do ponto de vista do Estado brasileiro, da correlação
de forças, as privatizações foram um fato grave.
Com elas, mudou a estrutura da propriedade econômica no interior
da mesma burguesia, mudou a relação dela com os trabalhadores,
mudou as relação dela com o Estado, e o Estado perdeu uma
arma poderosa de fazer política econômica. E o PT nunca
entendeu isso.
BF - As Parcerias Público-Privadas (PPPs), não vão
privatizar o que sobrou do Estado?
Chico de Oliveira - As PPPs são uma ficção de que
a taxa interna de poupança é insuficiente, então
se traz capital privado e ele se une ao Estado para fazer certos empreendimentos.
Estas parcerias vão privatizar o resto do Estado, mas de uma forma
engraçada, com financiamento público. Você está pagando
para o outro levar. Foi o que o BNDES fez com as privatizações.
Ele emprestava para privatizar a empresa estatal. Isso, economicamente,
não tem qualquer importância. A importância é política,
na capacidade de o Estado fazer política. O PT chegou ao poder
nesse novo quadro e continua a não entender. Ele ainda não
prestou atenção na poderosa reformulação
que houve no Estado brasileiro, no governo passado.
BF - A relação público-privado mudou com as privatizações.
O privado avançou sobre a coisa pública...
Chico de Oliveira - Avançou. Retirou-se do Estado elementos que
lhe possibilitavam fazer política econômica, industrial,
de investimentos. Sua função, hoje, é ditatorial. É uma
ditadura muito complicada porque ela se dá por formas legais.
A função do Estado na periferia, em países como
o Brasil, é gerenciar a crise permanentemente e de forma ad hoc.
Essa forma localizada aparece nas políticas socias. Se não
há como redistribuir a renda, inventam-se políticas como
Bolsa Família, Fome Zero, que não funcionam para o que
seria seu objetivo principal, melhorar a distribuição de
renda. Mas funcionam enquanto focalização, e mantêm
a pobreza. Você não tira ninguém da pobreza como
50 mil réis por mês. Isso é brincadeira.
BF - E esse povo que acreditou na eleição do Lula, como
fica depois dessa enxurrada de denúncias de corrupção?
Chico de Oliveira - A identificação do povão com
o Lula não é fácil de destruir. Lula é uma
enorme fraude, e acho que ele perderá a reeleição.
Uma parte do povo continuará fiel a Lula, não ao PT.
BF - As classes sociais estão
acabando?
Chico de Oliveira - Elas estão
se derretendo. É um
fenômeno diferente de acabar.
O famoso operariado argentino se reconhecia de olhar, até pelo
vestuário. Essa classe operária acabou, foi detonada pelo
movimento de desindustrialização. Há todo um trabalho
de reconstrução política na Argentina, mas sua duração é uma
incógnita. Mas está melhor do que no Brasil, dez pontos à frente.
No Brasil, como é que você pode ter classe social com uma
taxa de desemprego de 20% e uma taxa de informalidade de 50%? Como é possível
haver classe? Como a política atua representando uma coisa que
não existe?
BF - Viramos um grande lumpesinato?
Chico de Oliveira - Viramos. Com a diferença de que é um
lumpesinato que trabalha, mas em biscate, vende bagulho na rua. Qual é a
política institucional que pode tirar forças dessa informalidade? É realmente
trágico, não é pessimismo. Então a política
começa a flutuar como se estivesse levitando, descolada da realidade.
Essa é a política institucional. As instituições
políticas levitam. A melhor metáfora para essa situação é aquele
plasma que sai dos vulcões. É uma massa sem forma, porque
se chama isso de trabalho informal, que não tem forma. Como a
política representa algo que não tem forma? Então
ela levita sobre o real. BF - Não há nada a fazer?
Chico de Oliveira - Temos que achar novas formas de atuar sobre isso,
o que é extremamente difícil. Nem a palavra de ordem
revolução faz sentido. O que quer dizer essa palavra
para um morador da favela? É quase esperanto, uma língua
que poucos falam. Revolução não tem plausibilidade
para os favelados. Para atuar politicamente, tem que ser plausível
que a sua promessa se cumpra. A política precisa de previsibilidade,
caso contrário, não funciona. É preciso ser plausível
para mim e para você que a igualdade possa existir. Não é preciso
que ela exista, mas que seja plausível que ela possa existir.
A igualdade é plausível para um morador da Rocinha? Você acha
que ele pode atuar conseqüentemente tendo em vista o objetivo
da igualdade? Não. Então isso se transforma numa guerra
privada. Quando a igualdade não é plausível, todo
instinto de sobrevivência se transforma numa guerra privada.
Para isso, não é preciso de cultura geral, tem que estar
na escala do alcançável. O morador da Rocinha tem que
acreditar que é alcançável através desses
meios, se não é um discurso que levita.
BF - A situação do país, do PT, do governo Lula
contribuiu para que tudo andasse para trás?
Chico de Oliveira - O pior prejuízo
da gestão Lula está exatamente
nisto. Não é o campo da esperança no sentido bobo. É o
campo de que seja plausível para a sociedade que ela possa se
reformar, atingir certos objetivos. Se não, desaparece o campo
da política. Ela é colonizada pela economia, também
entre os pobres, mas de uma forma perversa . É o campo do imediato.
Você tem que conseguir a sua sobrevivência naquele dia. E
ponto. Não tem projeto de futuro. Então você assalta,
mata e rouba. Não tem nada a perder, e isso é concreto.
E hoje eu não passo fome.
BF - A sensação é que não existe Estado
no Brasil...
Chico de Oliveira - A sociedade foi colonizada também por outro
lado. E esse é o maior dano desse governo - a ilusão de
que o Estado desapareceu. Mas ele está em todas as políticas
sociais que existem. Para cada carência, há uma política
do Estado. Para cada grupo social, há uma política específica,
onde estão todos pendurados. O Estado não desapareceu,
o que desapareceu foi a comunidade política. Essa, aqui, chegou
a um ponto caricatural. Antes do Lula unificar tudo no Bolsa Família,
havia até vale gás. O Estado está presente em tudo
isso, o que cria um vasto clientelismo, que é onde o Lula vai
se ancorar.
BF - Mas essas políticas sociais acabam com a pobreza?
Chico de Oliveira - Não. Permitem a simples sobrevivência. É o
que o filósofo italiano Giorgio Agamben chama de vida nua, o limite
da sobrevivência. O extrato mais pobre da sociedade está todo
pendurado em políticas de exceção, e a tarefa do
Estado consiste nisso. Não se pretende diminuir a desigualdade,
eliminar a pobreza. Quem é beneficiado pelo Bolsa Família
não muda de classe social. Programas como esse apenas contemplam
os gastos mínimos de sobrevivência. É nisso que se
resume a política estatal para os setores mais pobres.
BF - É a morte anunciada de políticas de universalização?
Chico de Oliveira - Com a enorme desigualdade,
as políticas universais
danaram-se todas. A normalidade é a pessoa ter emprego, endereço
fixo, CPF. Com isso, a política universal funciona. Digamos que
estamos no melhor dos mundos: abriu a escola, tem professor, tem endereço
da escola, está tudo bem, mas as crianças não conseguem
chegar porque não têm roupa. Então o município
vai e dá o uniforme. Na minha época, eu estudei em grupo
escolar e minha mãe podia comprar o meu uniforme. A política
universal era plausível. Hoje, não pode, porque os pais
não têm um puto para vestir a criança, a cidade fragmentou-se
de tal maneira que não há como ir a pé de casa para
a escola. E nenhum de nós deixa o filho ir para a escola sozinho.
Todas as condições da universalização foram
rompidas.
BF - Resta ao Estado...
Chico de Oliveira - Como o Estado tem que se legitimar, faz políticas
excepcionais para cada caso excepcional. Para alguém que anda
de muletas, você tem que dar muletas. A desigualdade cria suas
políticas e toda política universal, democrática
e republicana vai pelo ralo. Tem que fazer assim, se não, as pessoas
morrem. Morrem mesmo, não é retórica. A pobreza
se mantém, o que pode dar lugar a um vastíssimo clientelismo.
Como perdeu contato com a realidade e foi colonizada pela economia, a
política não decide nada sobre as questões mais
importantes, e vai decidir sobre a distribuição da miséria.
Daí a política vira um bando de gangues que disputa ferozmente
para ver quem assume o controle. É o que o PT vai ser. O PT vai
ser um peronismo, todo dividido em gangues.
BF - O que acha da proposta de zerar o déficit nominal e baixar
os juros?
Chico de Oliveira - Chamaram o Delfim Netto para isso. E sua sugestão
vai dar certo. O Brasil não está condenado a não
crescer. Não é essa a questão. É difícil
não crescer. Você só garroteia o crescimento com
uma política miserável, mas se baixar a taxa de juros,
a economia volta a crescer adoidado.
BF - O que não significa melhorias da vida do povo?
Chico de Oliveira - Não, porque com um Estado que faz política
focalizada, não haverá redistribuição de
renda. O que está acontecendo é arrocho no gasto social.
E vão chamar o Delfim Netto para isso. Ele não precisa
de cargos. Ele já manda. Você conceberia que o Lula fosse
assessorado diretamente pelo Delfim Netto? Era inconcebível.
BF - Em resumo, o Lula podia ter feito diferente? Por que não
fez?
Chico de Oliveira - Em vez dele, como corredor de Fórmula 1, aproveitar
o vácuo, ele breca. O Lula é um produto da crise provocada
por Fernando Henrique. E podia ter feito diferente. E não fez.
A personalidade de Lula influenciou muito, porque ele se tornou a liderança
carismática do PT e do povão. E ele é fraco de caráter. É só ver
o documentário Entreatos, do João Moreira Salles. Não
tem nada de radical ali. Foi a gente que se enganou. |