O PT e o impeachment de Lula
Milton Temer
www.novopartidosp.org - 14/07

Era absolutamente previsível, mas não deixa de ser triste. O que está ocorrendo com o Partido dos Trabalhadores não é uma tragédia apenas para os militantes desse, até bem pouco, valioso e original instrumento de ação política. É de todos os que sempre apostaram num processo de mudanças fundado na disputa de hegemonia e na guerra de posições. Mais lamentável é que sua desmoralização, ao arrastar de roldão lideranças outrora combativas do movimento social organizado, só vem reforçar a crescente tendência ao ceticismo absenteísta já muito descrentes das instituições democráticas.

Tudo o que vem ocorrendo, no entanto, é de exclusiva responsabilidade da cúpula partidária, muito especialmente de sua tendência majoritária. Foi mais realista que o rei, na transformação do partido em correia de transmissão da administração pública. Seria até compreensível a ampla coalizão partidária de governo – já em si, espúria e inaceitável, para quem conhece um mínimo da história do PT –, em nome de uma suposta governabilidade. Inadmissível é que o PT se apresentasse como o vetor mais conservador dessa coalizão. A conseqüência inevitável não poderia ser outra: a contaminação pelas práticas que antes condenava e denunciava.

O mais preocupante é que tal comportamento não parece passível de alterações profundas com a nova administração. Se é verdade que fizeram autocrítica sobre procedimentos éticos, nada foi sinalizado com respeito ao cenário político. Pelo contrário. No massacre de José Dirceu – recebendo, agora, a vingança que todos, internamente, consideravam inevitável, desde que ousou submeter Lula à Comissão de Ética do partido, lá em meados dos anos 90 – e no fortalecimento visível de Pallocci, a tendência é ainda mais do mesmo. As correntes de esquerda, que supostamente receberiam maior espaço decisório, numa tentativa de reunificação, foram também jogadas para escanteio. Ou seja; a radicalização da guinada à direita agora parece irreversível.

Evidentemente, foi a saída encontrada pelo grupo de Lula para garantir-lhe, pelo menos, a permanência até o final do mandato. Numa ponta, mantém a concentração de renda nos grandes grupos capitalistas. Na outra, mantém o controle sobre as entidades sindicais, com a cooptação do presidente da CUT para o Ministério do Trabalho. Resta saber se isso será permitido pela dinâmica dos fatos.

A saraivada de episódios dantescos não se limita aos desvios éticos, e mesmo criminosos, de importantes assessores. Até a família do presidente já aparece citada em atividades, no mínimo, de difícil explicação. Não é qualquer jovem classe média, talentoso em videogames, que se vê, da noite ao dia, transformado em sócio de uma empresa concessionária de serviços públicos de comunicação, com um aporte de milhões de reais à sua modesta empresa. Para o filho de Lula, parece ter sido fácil.

Nesse contexto, resta acompanhar as CPMIs transmitidas ao vivo pela TV. A se confirmar o espetáculo de “cretinice parlamentar” explícita que vem sendo propiciado pela bancada petista, a conjuntura pode se acelerar de forma negativa para o Planalto. A persistir a tática de transformar Roberto Jefferson no único vilão da história, os histriônicos, raivosos e até cínicos parlamentares petistas – com exceção para a competência jurídica de José Eduardo Cardoso – podem estar colocando a cabeça do chefe na guilhotina. Podem estar queimando as pontes com os cardeais da econimia que já decidiram: Lula e Palocci são poupados. Mas o resto tem que ir para o cadafalso.

Porque fica a questão. Quem deu plenos poderes a Roberto Jefferson para transitar com tanta desenvoltura nos espaços de apropriação privada e ilegal da coisa pública? Quem lhe ofereceu pronta solidariedade, por ser um “parceiro” de confiança, depois que gravação divulgada por todos os meios de comunicação o apontava como gestor das bandalheiras?

Foi o mesmo “companheiro” que, a despeito de todas as evidências incriminatórias, já tinha “blindado” Henrique Meirelles, no Banco Central, e dado carta branca a Romero Jucá, na Previdência. E que, segundo José Dirceu, sabia de tudo o que se passava no Planalto.

Poupem-nos, então, de tanta bajulação explícita. A continuarem assim, para além de tornarem inevitável o impeachment de Lula, terminarão todos suspeitos, por obstrução de justiça, de cumplicidade com o que não querem apurar.

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